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(Jil Sander)
A Gaffe, rapariga bem comportada, ajuizada, esforçada e trabalhadora, decide tirar férias!
Durante as próximas duas semanas ruma ao infinito, zarpa para parte incerta, perde-se no horizonte, sem Ipod, sem Iphone, sem Ipad, sem ais de qualquer espécie, levando apenas o seu e atrevidíssimo guarda-roupa de veraneio, os óculos de sol Prada, o protector solar, as dóceis e macias toalhas de praia Moschino, azuis tempestade, e os exíguos e provocantes triângulos que usa para disfarçar a nudez.
Volta logo no início de Setembro com significativas novidades, prometendo desde já diversificar o conteúdo do blog, embora respeitando sempre o leitmotiv do mesmo.
Agora, a Gaffe vai retocar o bâton, apurar o blush e retirar um pedacinho de saudade que lhe pousou nas pestanas.
Até já!
O Havana é um casaco prático e funcional que não deixa os seus créditos por mãos alheias. Alia-se na perfeição às calças de sarja macia ou às pragmáticas cargo, tornando-se peça ideal na construção de um casual agradável e atraente.
Há características a que o Havana deve possuir para ser classificado como tal.
Como sou uma rapariga simpática, aponto as essenciais:
1 – Lapelas entalhadas;
2 – Ombros naturais;
3 – Um botão de beijo (ou dois botões jaqueta);
4 – Bolsos de chapa;
5 – Casas funcionais;
6 – Dupla abertura lateral.
É evidente que me escapa o significado de algumas destas prerrogativas. Sou simpática, mas não sou alfaiate e, sejamos sinceras, num dia chuvoso não é de todo agradável navegar à procura do significado de pormenores, que não vou fixar, apenas com o intuito de esclarecer rapazes menos atentos e mais preguiçosos.
Os meninos que se cuidem.
Embora actualmente de forma pouco segura e muito mais flexível, as rendas, os bordados e os padrões florais ou floridos, foram durante demasiado tempo apanágio do feminino.
Este facto deu uma enorme vantagem às mulheres que se apoderaram com convicção das potencialidades deste universo vaporoso e frágil, armadilhando-o e fornecendo-lhe uma conotação erótica que é, em última análise, proveniente da ausência obrigatória destes elementos no círculo de uma masculinidade empedernida que se vê deslumbrada e desperta pelo sussurrar destes tecidos.
O astuto, cuidadoso, engenhoso, e muitas vezes inquietante, uso feminino das rendas e dos padrões florais, opera maravilhas no subconsciente dos incautos rapazes que presos nas redes, teias e flora dos tecidos, acabam por sucumbir ao fascínio do que lhes é interdito.
A proibição, aqui como na esmagadora maioria dos casos, incute e impele o desejo de transgressão e é agradabilíssimo sentirmos que no esvoaçar do pano se liberta a sombra do pecado e o subtil fascínio da irresistível feminilidade.
Mas (convém não esquecer) a lua tem uma face mais obscura e trágico é quando este miraculoso encantamento de rendas e bordados a preceito, se traduz na visão catastrófica do nosso rapagão a desfilar pela brisa da nossa intimidade usando, balanceado, as nossas artimanhas.
(Luciano Barbera)
Perdeu-se há muito a delicadeza suave de uma flor numa lapela masculina.
A linguagem subliminar inscrita neste pormenor foi-se esbatendo e secando. Os homens decidiram tornar um detalhe de uma delicadeza significativa numa demonstração de desprotegida e inocente fragilidade, permitida apenas em casamento e baptizados.
A possibilidade de adornar as lapelas masculinas ficou restrita a pins minúsculos e banais onde se faz alarde do orgulho desportista ou do brio populista, mas governamental.
É lamentável o abandono votado aos discretos alfinetes com que os avós faziam brilhar lapelas rigorosamente entreteladas ou com que prendiam as sedosas gravatas com riscas regimentais.
O empobrecimento da panóplia de adereços masculinos não se reflectiu no aparentemente almejado evoluir de uma imagem de masculinidade a toda a prova, nem a tornou mais límpida, capaz de referenciar um despojamento másculo de quem se quer dinâmico e eficaz, com a sobriedade apensa à ilusão de não se perder tempo.
No entanto, o adornar florido da lapela masculina, inversamente ao tido como certo, é um dos mais encantadores detalhes a fazer prova da mais segura masculinidade e da mais assumida presença da sedução inteligente.
(Marios Lekkas)
A extraordinária elegância do conjunto é susceptível de transferir a atmosfera vivida nos anos 20 para uma enevoada estância de Verão da actualidade.
Nada é imperfeito, desde a escolha do modelo e à modelação do cabelo, ao cardigan listado, com entrançado discreto, passando pelos calções deliciosamente vintage.
O Verão, nestas ocasiões, torna-se memorável, porque a sofisticação de um tempo perdido ou de um ambiente onde Thomas Mann fez morrer de amor heróis decadentes, acompanha a brisa cor de cinza que envolve, discreta, uma melancólica e delicada passagem da beleza.
Pergunto-me se haverá incompatibilidade séria entre o uso de calções em simultâneo com um blazer e hesito, periclitante, na resposta.
Não é de todo fácil aguentar com o charme que exige esta aliança. O refúgio no clássico e reservado azul-marinho pode ser uma estratégia acertada, mas o conjunto obriga a cuidados acrescidos.
A segurança é imprescindível ao homem que se permite desafiar imagens de reserva e discrição inerentes ao casaco rigoroso e de cor consensual, com a adição de uma peça naturalmente pouco estruturada e em subtil contradição com a linguagem que se espera.
A imposição desta imagem cruzada e agradabilíssima não é compatível com tímidos rapazes que tentam passar despercebidos nos gabinetes em que contabilizam o défice. É sobretudo uma representação descontraída de um homem capaz de, em simultâneo, cumprir com eficácia os objectivos que lhe são propostos, com um humor que cria uma atmosfera simpática e desprendida e o recurso ao azul-marinho, no blazer, coadjuvado por uma cor neutra ou por um padrão minimal nos calções, solidifica a presença incontornável destas características.
É, como parece evidente, uma solução fácil, mas, por vezes, a elegância cruza a mais simples das resoluções e poucas vezes procura os caminhos ínvios da mais complexa e labiríntica das encruzilhadas.
Muito mais do que o perdido sapato, todos os príncipes de todas as histórias povoadas por pequenas e infelizes meninas órfãs que tropeçam nas escadarias, da meia-noite da vida, perdendo no desequilíbrio o objecto mágico que as redimirá, são as ligas e a cumplicidade dos insinuantes ligueiros a razão última do delicioso pecado principesco.
(Theo Hutchcraft)
Nos meus tempos de menina e moça (não tão distantes como me parecem), esvoaçava pelos corredores da Faculdade um rapaz que me partiria o coração, não fosse eu uma rapariga esperta.
Jovem garboso e musculado, alto e espadaúdo, cabelo desalinhado e olhos pretos, provocava tsunamis por todo o lado. Um deus tempestuoso pelas brisas calmas das tardes.
O que me fascinava neste rapagão não era o corpanzil perfeito e aquele andar matreiro de patife irresistível (embora não fosse de todo alheia a estas características). Era o brinco!
Uma argola maciça, grande, poderosa e faiscante de ouro puro, presa ao lóbulo da sua orelha esquerda.
Derretia-se todo o meu bom senso quando me cruzava com este adereço, pecaminoso, porque espoletava alguns pensamentos que fariam corar de vergonha a minha avó.
Passei a ficar presa àquela argola presa na orelha do rapaz e só me libertei daquela algema quando percebi que o pirata navegava pelas rotas que deveriam ser apenas minhas.
Roubou o namorado à minha maior inimiga. Foram viver, os dois, juntos e em êxtase, para uma mansarda romântica na velha e corroída Paris e a argola foi vendida para suprir as primeiras desventuras financeiras.
Passei a respeitar mais as inimigas e a suspeitar de argolas deslumbrantes.
Há no entanto, escondida em mim, a fascinação por este gordo e possante adereço. Continuo a não resistir ao charme de um másculo rapagão penetrado pelo estilete curvo de uma argola em ouro. Sei que existe a hipótese de o saber numa mansarda de lata a usurpar o namorado a uma qualquer mulher que não conheço, mas este pormenor não é apanágio ou pertença única de homens com argola numa orelha. Há orelhas sem aro que sabem trair a preços vertiginosamente mais baixos que o do ouro.
Embora de fácil conjugação e insinuando um caminho quase minimalista, a imagem produz um efeito agradabilíssimo em consequência do bom uso que se faz dos detalhes do blazer.
Um allure praticamente despojado e eventualmente banal, que se socorre da junção fácil entre o preto, o branco e o cinza e de cortes básicos e discretos, é enriquecido e tornado incontornável pelo acréscimo de pormenores colegiais num outrora reservado e bem comportado casaco.
Este pequeno malabarismo actualiza uma imagem tornando-a juvenil e, em simultâneo, amadurecida e provoca o encantamento discreto dos que com ela se cruzam (como se prova com o olhar suspeito do rapaz de branco que vai tornar a foto ligeiramente ambígua).
O ponto colorido no conjunto e o uso do lenço preto que reprime o eventual atrevimento capaz de quebrar uma sobriedade submissa, dispersam a atenção focada nos detalhes e equilibra toda a imagem.
A inteligência ao serviço de uma colegial e discreta insubordinação.
Style is knowing who you are, what you want to say, and not giving a damn.
Gore Vidal
A proposta de Rubinacci é de extremo bom gosto, mas de difícil aplicação.
A justaposição de padrões sugerida, já por si complicada e fácil de perturbar com deslizes fatais quando não equacionados convenientemente, adquire maior dimensão no arrojo declarado do padrão do forro do casaco projectado no lenço no bolso exterior.
É indubitavelmente uma proposta sadia e repleta de calor.
O Verão torna-se elegante e descontraído e faz recordar a velha máxima, repetida até à exaustão pela minha santa avó sempre que os rapazes se atreviam a chegar, de chinelos e t-shirt descomprometida, à casa de praia em Miramar:
Em férias, nunca venham como estão, apareçam sempre melhor!