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Todo o flâneur traz no corpo promessas de viagens perdidas nos mares daquilo que por nós passa e nos trespassa os dias.
Deles se aguarda a lonjura e a distância daquilo que é já rumo conhecido, a maré-alta de um corpo que se habitua ao frio e que se amorna nos braços das mulheres em cada porto.
Deles se espera a fuga constante, porque habituados a partir nunca chegam a chegar.
Deles se recusa o acreditar, porque todas as juras trazem o sal e a secura daquilo em que falharam.
Neles de demora a ânsia e a fome de caminho e um adeus pregado ao cais, um fado como um trapo manchado a acenar.
São os homens que nos dizem que só o Inverno os trará de volta, sabendo de antemão, de mão beijada, que nunca acreditamos.
É irritante e provoca-me taquicardia ver, nas filas de abastecimento de gasolina, um homem que antes de pegar na mangueira e enfiar o manípulo no depósito, vai meticulosamente retirar um toalhete para protecção da mão que embala o berço.
Na esmagadora maioria dos casos, não é necessário e faz-me pensar naqueles que depois do chichi esfregam meticulosa e quase compulsivamente todo o que vai das unhas até ao cotovelo, como se o que acabaram de segurar fosse o repositório de toda a gama de bactérias e de outros bichos maiores, visíveis a olho nu – em 80% dos casos tal não acontece e, nos restantes, é fácil perceber o padecimento do rapaz pela cor anil ou esverdeada do sorriso confrangido.
Não sou, de todo, contra esta social, higiénica e polidíssima regra, mas um homem que se preza agarra na mangueira com a mão nua (e não a cheira depois de colocar o manípulo no lugar) e esquece, de quando em vez, de lavar as mãos antes de sair do WC, sem que notemos diferenças palpáveis e sem que disso venha mal ao mundo.
Há minúsculos gestos masculinos que são tão maçadores e enervantes como aquele, feminino, que consiste em arrastar, puxar, repuxar, esticar, retesar e tentar alongar, como se não houvesse amanhã e o Senhor da minha santa avó estivesse a chegar para chicotear os pecadores, a exígua mini-saia que tenta estrangular a dona sempre que a rapariga se levanta.
O ideal é a bicicleta! Não é poluente, não implica a mangueira e, quando o faz, o ar gelado do Inverno encarrega-se de aniquilar qualquer sinal de vida mais matreiro.
MB - Pag. Serv.
ENT 20 999 / REF 999 999 999
Transf. banc.
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