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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na Cartier

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.14

Dizem que todos temos um preço. Não sei se é verdade.

Gosto de pessoas que se vendem depois de nos exibirem esforços agradáveis. Daquelas que nos fazem pisar chãos de madeira cuidada e sentar em cadeiras de época. Geralmente usam intermediários de fato irrepreensível e sorriso manso. Cumprimentam-nos inclinando a cabeça, apertam-nos a mão como quem toca um recém-nascido e indicam o lugar mais iluminado de modo a desfrutarmos todo o brilho do que queremos comprar. Depois tiram das vitrinas exemplos de faíscas e de glória que podemos reter nas mãos durante instantes. Falam-nos dos preços sempre com desdém e, dependendo do disposto a pagar, vão retirando ou acrescentando luz.

 

Compramos o que pudermos, por vezes ficamos com o empregado de borla, mas é sempre menor o prazer da compra do que o sentir a oferta.

 

Não compro muita coisa! Penso mesmo que apenas pago o afago das ofertas que me fazem.

 

Seria bom encontrar gente mais cara. 

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A Gaffe faz anos!

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.14

A minha mãe olha-me e preenche-me de azul. O meu pai coloca-me a mão no ombro e fica com os olhos a brilhar com água. A minha irmã beija-me com sabor a fruta. O meu irmão aperta-me com um abraço forte como uma árvore gigante e a minha avó conta-me lendas idiotas com pronúncia estranha.

Fico com dor de garganta só por tentar esmagar as lágrimas.

Encolho os ombros e digo baixinho:

- Hoje faço anos! 

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A Gaffe e um Soneto

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.14

Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura - Antologia dos sessenta anos.

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A Gaffe olímpica

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.14

É certo e sabido que o desporto produz fotos excelentes que nos regalam os olhos e nos deixam a salivar.

É tudo tão bonito (em todos os sentidos e formatos) que se torna difícil escolher uma imagem que mereça destaque. Ficamos sideradas com tudo aquilo que vemos mergulhar, esbracejar, correr e saltar, pular e rodopiar no estádios, rampas ou piscinas. Um corrupio nunca visto tão juntinho de grandes e valentes rapagões.  

Um fotógrafo, se quiser ser mais original, não se pode limitar a captar as imagens que todos os outros coleguinhas facilmente apanharam já também. É apontar a objectiva para qualquer lado onde se agitam os atletas e rapidamente se faz uma brilhante fotografia de nos fazer levantar do sofá com as pernas tortas ou flectidas.

Exactamente por isto, escolhi uma de Rhys Howden. Não sei quem foi o responsável pela imagem, mas a verdade é que o pólo aquático fica muito mais interessante com este rapaz na equipa australiana. 

Apesar de não o favorecer muito e da presente e reduzida reprodução  não fazer justiça ao ar malandro do rosto atleta, a fotografia, mostrando-o no momento que antecede a entrada em competição, é um achado e consegue captar a expressão quase irónica de quem se sabe observado e gosta de se sentir olhado sem o reconhecer de forma aberta.

As texturas que o envolvem são incríveis e a luz faz delas um cenário próximo daqueles onde (fala o estereótipo) se moviam os gladiadores antes da entrada na arena para o confronto com os outros leões.  

Não é o repouso do guerreiro. É o momento exacto que antecede a luta e apesar de poder escapar facilmente do catálogo que reúne as fotos habituais neste tipo de evento, é sem sombra de dúvida uma fotografia olímpica de um semideus que espera medalhas.

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A Gaffe caminhante

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.14

Há uma grande probabilidade dos presidentes dos Estados Unidos morrerem podres num rancho qualquer na Califórnia ou no Texas. Isto, claro, se ninguém se lembrar de os assassinar primeiro no meio da peça ou no centro da avenida.

É certo e sabido.
A morte de G. Ford (no seu rancho californiano, evidentemente) e as passeatas que por aqui faço com a minha avó, recordaram-me, não o famigerado e infeliz presidente que sofreu a desgraça de substituir o escabroso Nixon e padecer do fracasso vietnamita, mas (sofra-se a confusa miscelânea presidencial) Mrs. Nancy Reagan!


Uma mulher nunca é demasiado magra.


Esta máxima, elaborada pela cowgirl que casou com o homem que achava que as árvores eram causadoras de danos ambientais, pode ser considerada pretexto para os gigantescos passeios de início de Primavera com que, pela tarde de fim-de-semana, eu e a minha avó queimamos calorias.
Esguia, delicada, delgada e subtil, a minha avó jamais poderá amaldiçoar as suas inexistentes gorduras, flácidas rotundidades ou circular corpulência, mas a fogueira que insiste em atear nestes passeios tem como único objectivo o calor cúmplice, exclusivo, que se cria entre ambas.
Diz-mo enquanto encosto a cabeça ao seu braço, pendurado nele que me envolve.


Descubro que há diversos e distintos modos das pessoas que mais amo caminharem comigo.
Prendo o meu corpo à minha avó como serena trepadeira, mimada, terna e doce, com a certeza de que o muro é bem sólido e que posso deixar que as folhas se espraiem sem medo ou queixume.
A minha mãe, namoriscando, tomba presa no meu pulso, como uma breve e minúscula pulseira de oiro batida pelo sol.
O meu pai caminha comigo como se eu fosse um alfinete de gravata: dispensável, mas que se quer mostrar, porque se ama.
A minha irmã leva-me com ela, mas nunca vem comigo.
A minha prima pendura no meu braço o seu corrosivo humor, a sua indomável inquietude e a sua irresistível obstinação e rebeldia e transforma-se na mais aventurosa das cúmplices, na mais destemida aliada. 
O meu irmão é bem maior que eu. Caminha comigo e sei sempre onde piso. É como ter um mapa e uma bússola, sextante e astrolábio. Sabemos onde fica a estrela certa.


Mas só o meu avô sabia caminhar sorrindo devagar toda a jornada.  

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A Gaffe de estilete

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.14

A Gaffe nunca se deu bem com geringonças, maquinetas e gadgets topo de gama.

Lembra-se que no dia em que a sua mãe lhe pediu para ligar a máquina de lavar roupa enquanto se cabeleireirava, aquele monstro se encheu de espuma e nunca mais acabava de centrifugar. E a Gaffe só tinha de carregar num botão!

 

Agora o que a põe doida são aqueles telemóveis que usam um estilete para fazer funcionar o que quer que seja.

São maricas e esbardalham-lhe os nervos. Não entende como é possível espetar o pauzinho naquelas letrinhas minúsculas do visor sem deixar cair um dos caracteres e em vez de pedido escrever outra brisa. Não entendo como é alguém se senta numa esplanadazita, saca do palito e desata a escarafunchar no aparelho sem parecer um mariconço-chic.

 

A Gaffe odeio telemóveis com estilete quase tanto como detesta aqueles apêndices que se colocam nos ouvidos para receber as chamadas. Fazem até com que um rapaz de boas famílias comece a gesticular, feito palonço, no vazio, a palrar de olhos no chão, sem prestar atenção aos semáforos. Apetece tanto atropelar esta gente das tecnologias de ponta de pauzinho!

Depois, o estilete não tem estilo nenhum. A Gaffe considera muito mais fixe embasbacar-se com a força doida com que os adolescentes teclam SMS, a olhar para ela com caras de parvos e dedos frenéticos, sem qualquer hesitação. Haverá muita gente a receber do outro lado mensagens que não entende e a responder da mesma forma, mas que aquilo é de G8, ninguém pode negar.

Depois, quem se interessa, nesta era de ponta fina, em compreender o parceiro? Nenhuma SMS espera ser elevada a mensagem de Mercúrio. Aquilo é um vê-se-te-avias que o rei vai nu e tem o estilete mais que activo.

 

A Gaffe gosta dos fixos.

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Gavetas:

A Gaffe na sessão literária

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.14

No Dia Mundial do Livro nada mais apropriado (e vergonhoso) do que recordar a sessão literária a que decidimos assistir, eu e o meu irmão, num anoitecer invernoso de há uns anos.

 

O meu irmão é tímido e usa calças apertadas. A junção destes dois factores provoca embaraços divertidos.  
Quando chegamos a mesa já estava ocupada pelo, na altura, jovem autor, de testa larga e nariz bonito; por um senhor com a raiz do cabelo pintada de branco (desnecessariamente, porque a restante cabeleira preta asa de corvo era já um primor); por uma senhora loira e rechonchuda, de pernas e dentes cruzados e por um cavalheiro minúsculo perdido atrás do arranjo de flores amarelas com verdes secos pelo meio. Dele, vislumbrava apenas um breve arrepio de cabelo tosco encimado por duas folhinhas do floral arranjo.  
Não foi o meu irmão ter provocado um cataclismo ao arrastar a cadeira no soalho flutuante, arrancando das entranhas do público uma indignação assassina que me levou, para cortar o gelo, a cumprimentar os presentes com o meu sorriso n.º 5, com sabor a Chanel, nem o facto de parecermos duas mimosas bailarinas em plié ao tentar colocar os tutus nas cadeiras, que me provocou uma insustentável vontade de desatar a rir. Acontece que, na descida rumo ao assento, ousei abrir o livro que no átrio tinha comprado e bati num verso:  Eu sou eu sempre, mas sou também a Dona Adelaide 
O poema continuava, relativamente extenso, e sabia que cedo ou tarde a senhora loira, de dentes em cruz, nos brindaria com a leitura solfejada e tonificada do que agora lia.  
Eu sou eu sempre, mas também sou a Dona Adelaide
O que corria nas minhas veias e me acelerava o coração, era a vontade daninha de mostrar o verso ao meu irmão e, mimando o surpreso inocente, exclamar: 
- Não fazia ideia que o José Luís Peixoto também era nossa tia! 
Mas o rapaz apunhalava-me já com o cotovelo e receava represálias mais sinistras se ousasse dar tal passo. 
Contive-me. Aproveitaria o momento em que a loiraça anafada o recitasse.  
Percebia que as pernas do meu irmão demasiado abertas não permitiam a concentração exigida ao lugar e pelo autor. Creio que pensava a todo o instante que seria decepado pelas cuecas em provação e asfixia.  
As miúdas, nas cadeiras da frente, saltitavam trauliteiras com guizos nas delas, góticas cuecas em transes mais negros, sempre que o autor procurava o Eu que lhe traz os Outros. Sentia partir o fio que unia a minha solene compostura à minha vontade de as crucificar.  
Ouço o meu irmão, aflito, a preocupar-se: 
- Está quieta! Ignora as miúdas e ouve o senhor!  
Ouvia o senhor, embora o senhor lutasse cansado com perguntas tolas e me deixasse solta a pairar na sala.  
Apanho um saco de plástico repleto de livros (o jovem autor autografará todos de uma vez). 
Apanho a mulher, na fila da frente, a recitar baixinho.  
Apanho um cartaz a anunciar a hora do conto.  
Apanho com os saltos e os guinchos das moças e sei que não posso aguentar por mais tempo os pinchinhos e guinchos das duas mulheres.  
Procuro acomodar-me. Faço descer o meu corpo o mais que posso e, quando a minha cabeça fica ao nível daquele das moçoilas, descubro todo o impulso dos grunhidos.  
Dali, e naquele ângulo, as raparigas conseguiam ver que o autor sempre que esbracejava e lutava com as surreais perguntas a soar na sala, abria as pernas e deslizava. Abria as pernas e deixava adivinhar o que a Dona Adelaide não teria nunca a não ser pelo casamento.  
Mas seria o vislumbrar do âmago do poema o que despertava fanicos nas donzelas?  
Perguntei-lhes. Nada mais fácil!  


Saímos a meio da sessão. O meu irmão já com as cuecas no sítio do costume, pálido, a cambalear com uma colecção de insultos na maleta e eu sem poder ouvir a senhora loira a revelar ao público a duplicidade da minha tia: 
Eu sou eu sempre, mas também sou a Dona Adelaide

 

Devia existir uma criatura completamente disponível, paga, subsidiada, apoiada, subvencionada, com bolsa da Gulbenkian e portes incluídos, para me esbofetear quando me torno estranha e desato a destruir coisas mais sérias.  

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A Gaffe no McDonald's

rabiscado pela Gaffe, em 22.04.14

Estou em crer que conhecemos os amigos no berço e na infância. Se mantivermos alguns dos vários que se perdem na adolescência, somos gente com sorte. Daí também a importância que é dada aos primeiros anos de vida.

A partir de certa altura, deixamos de transformar em amigos os que passam por nós e que ficam connosco por tempo determinado. Celebramos uma espécie de contrato a termo certo com os que encontramos no caminho.

Ao meu lado tenho um número considerável de pessoas que trabalham comigo. A maioria é escandalosamente inteligente e chega de vários quadrantes do saber. Como é lógico, gosto de alguns e os outros não me dizem grande coisa, para além daquilo que me interessa e que contribui para complementar o que faço. Acompanho-os, discuto com eles banalidades, tontices sem qualquer utilidade, como é apanágio dos amigos, e às vezes fico bem-disposta, outras vezes não. Penso que me iriam fazer falta se desaparecessem de repente e tenho a certeza que não deixam de ser boas gentes. Mas não sou amiga deles. Trabalho com eles e é inevitável que nasçam alguns laços de proximidade, nada mais.

A partir de certa altura, o círculo de gente nova que nos rodeia não interfere com aquele que foi traçado na infância e se tornou um núcleo duro, capaz de resistir e fazer frente a qualquer catástrofe que nos aconteça. No entanto, este grupo é também responsável pelo fechar de hipóteses que nos surgem de incluir numa intimidade mais profunda aqueles que vão surgindo e vão provando, mal ou bem, que são capazes de grandes feitos (geralmente feitos pequenos) para conseguirem o estatuto que entregamos aos que estão cá dentro desde sempre. Os antigos funcionam como anti-corpos e atacam os que ameaçam, mesmo não ameaçando coisinha nenhuma, a estabilidade e o poder que a amizade exerce sobre nós. São naturalmente egoístas, ciumentos e muitas vezes manipuladores, mas são o que nos resta de extraordinário e talvez os únicos que nos provam que são capazes de arrojo e de feitos medonhos e perigosos só para ficar por perto ou só para conservar os pedaços enormes de nós que foram guardando sem qualquer esforço. Arranjam-nos sérios problemas com a mania que entendem o nosso funcionamento emocional; calam-se e reprimem a vontade de estourar, quando falar é ofensivo e chegam mesmo a procurar-nos para nos levar com eles aos confins da terra. Só porque sim.

Este porque sim é, ao mesmo tempo, a desculpa mais idiota do planeta e a mais incrível metamorfose da necessidade de estar presente, mesmo em silêncio (porque transportar-nos aos confins da terra exige mais concentração do que se pensa).

Talvez seja por isso que os que trabalham comigo não são meus amigos. Nunca repartimos um McDonald's – Big MacMenu ao som da Callas, nunca desataram comigo às gargalhadas sem razão nenhuma, nunca se sentaram no meu gabinete a olhar caladinhos a porcaria do bonsai que me ofereceram e que não sei tratar, nunca espancaram ninguém por minha causa, nunca correram mundos só porque me queriam ensinar a chorar sem medo ou a rir sem rede, nunca bebemos juntos vinhos proibidos e secretos desviados das adegas de cadeados e aloquetes mais seguros, nunca os vi sinceramente tristes só porque espirrei e nunca os avisei que tinha um blog e que este, exactamente este, é o meu milésimo post. 

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A Gaffe suspensa

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.14

Não sei se os gregos actuais são da mesma cepa que Péricles, Platão ou Aristóteles. Não sei se descendem em linha directa dos sábios que ajudaram a moldar o pensamento ocidental. Provavelmente não.

O certo, é que passaram de clássicos professores da Europa a insurrectos do euro, embora tivessem mostrado, por instantes, que a velha política ainda faz tremer as fúrias da economia.

Para além dos tumultos sociais e das praias turísticas que quase resumem o país, há uma Grécia equilibrada, serena e tradicional, literalmente assente na pedra. Refiro-me à região de Tessália, no centro do país, onde se erguem os mosteiros ortodoxos sobre pináculos rochosos, pináculos de arenitos.

São Meteora, ou seja, Suspensos no Ar ou ainda Colunas do Céu.

É facílimo recolher informação sobre este Património da Humanidade. Abstenho-me portanto de a fornecer. Difícil é escolher o mosteiro mais deslumbrante.

 

Escolhi a Grécia, mas podia ter seleccionado qualquer outro país europeu e referir uma outra obra qualquer sua pertença.

 

A Europa tecnocrata não se compadece com estas idiossincrasias. O amassar, o amolgar, o uniformizar de forma radical em nome de um suposto ideal unificador, já cilindrado por razões mal explicadas e demasiado suspeitas para se tornarem susceptíveis de clarificação e entendimento dos povos, não poupa ou não acha oportuno salvaguardar o respeito devido e exigido a cada uma das entidades culturais que, para o bem e para o mal, consideraram possível o Ideal Europeu.

Não sou demagoga, embora o que digo possa ser confundido facilmente com a mais primária das demagogias. Acredito piamente que nenhum ideal unificador, nenhum sonho de uma Europa unida, convergente, pacífica, reformadora e solidária, é viável ou sequer sonhável, se as entidades, as personalidades culturais de cada elemento do hipotético conjunto não forem tidas em conta, e apenas contarem, obrigados a prestar contas quando os mercados se irritam.   

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A Gaffe pirosa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.14

Não aceito menos do que aquilo a que tenho direito e tenho direito a tudo aquilo que é considerado por muito boa gente piroso, ultrapassado, possidónio, rosa bebé, azul clarinho e pintalgado de melaço.

 

Quero que me mimem como se eu fosse um ursinho de peluche; que me ofereçam idiotices que me fazem corar de vergonha em público, mas que me comovem em privado; que me esfarrapem a personalidade, tornando-me um monstro presunçoso, concordando com as mais idiotas das minhas ideias, mesmo criticando todas no aconchego do lar; que me tragam o pequeno-almoço à cama e se estatelem no meu colo a fazer de mesa; que me levem a comer ostras, mesmo sabendo que odeio ostras, que as ostras me metem tanto nojo como caracóis e caviar; que me paguem o croissant no de Flore, contando as moedinhas no WC para ver se chega; que me ofereçam vasos com uns cactos ranhosos, porque sabem que me esqueço de regar as plantas e de dar de comer aos pássaros; que me agarrem na mão no meio da avenida, mesmo sabendo que sou capaz de a decepar se perceber o deslize, porque não gosto de manifestações públicas de carinho; que aguentem com as palestras do meu irmão acerca das mais recentes investigações e descobertas na área que domina, mesmo reconhecendo que as palestras são de fazer inchar um bacalhau; que me ofereçam livros que já tenho e se desculpem depois dizendo que o que me oferecem é para guardar direitinho; que tentem arrumar o meu apartamento e a minha secretária, mesmo sabendo que me esfacelam os nervos só a imaginar a tentativa; que me ouçam a discorrer toda presunçosa sobre matérias que desconheço com uma atenção digna de santo, adivinhando eu que estão a pensar na receita de pastéis de carne gordurosos que eu adoro comer e que me digam de modo credível, mesmo sabendo que eu não acredito:

 

- Tudo em ti dá sentido à minha vida.

 

Do not fall in love with people like me. I will take you to museums, and parks, and monuments, and kiss you in every beautiful place, so that you can never go back to them without tasting me like blood in your mouth. I will destroy you in the most beautiful way possible. And when I leave you will finally understand, why storms are named after people.

Caitlyn Siehl

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Gavetas:

A Gaffe nos tempos de cólera

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.14

Un hombre sólo tiene derecho a mirar a otro hacia abajo, cuando ha de ayudarle a levantarse.

Gabriel García Marquez

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A Gaffe à mesa literária

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.14

Dinah Fried, enquanto estudante da Rhode Island School of Design, decidiu recriar um álbum de refeições mais memoráveis contidas na literatura. Fictitious Dishes: An Album of Literature’s Most Memorable Meals.

Das cinquenta obras escolhidas, retiro apenas uma pequena e deliciosa variedade de interpretações fotográficas de momentos culinários presentes na literatura clássica e contemporânea.

Apresentando fotografias de refeições famosas, desde o chá enlouquecido de Alice no País das Maravilhas à aguada refeição de Oliver Twist, Dinah Fried ajusta-se aos extractos dos livros que inspiraram as suas recriações e que vou manter sem tradução, porque acabam muito mais apetitosos.

Para além destas magníficas reproduções, o livro de Dinah Fried é acompanhado de factos interessantes e de anedotas divertidas sobre os autores, sobre os seus trabalhos e sobre as suas predilecções culinárias.

Um livro para despertar o apetite dos amantes da boa literatura e pratos deliciosos.

 

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS - Lewis Carroll 

Have some wine,’ the March Hare said in an encouraging tone. Alice looked all round the table, but there was nothing on it but tea.

 

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A Gaffe no tempo das amoras

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.14

Era no tempo das amoras.

Havia um muro baixo no jardim onde nos sentávamos a morder os frutos e a pensar na vida, como se houvesse vida para pensar.

Nos papéis ainda brancos das nossas três almas bem unidas, havia já o picotado por onde se deveriam recortar e separar mais tarde.

Mas era ainda o tempo das amoras e havia o muro de pedra, pequeno, onde nos sentávamos, os três, e no papel por macular das adolescências, deixávamos cair pingos de amoras.

Ficávamos ali a murmurar os sonhos e quando havia sol, amolecíamos. Olhávamos os plátanos ao longe e cada um de nós perdia-se por dentro, absortos, mordendo a tarde e alongando na boca o gosto dos frutos.

Ficava entre a minha irmã e o meu irmão que iniciavam ali pueris rivalidades. Olhávamos os plátanos e perdíamos o tempo assim, olhando os tempos em que nada havia para dizer e só dentro de nós passava a tarde.

Era no tempo das amoras, naquele muro baixo que suportava os devaneios destes três tontos, que se enfadavam sempre. O tédio era o silêncio que se ouvia.

Sentada, baloiçava os pés devagarinho, como se a pedra fosse o meu embalo, preso no céu por cordas invisíveis. Baloiçava os pés, devagarinho, até que o oscilar ganhasse força e erguesse as minhas duas pernas já bem alto.

No tempo das amoras baloiçava e foi no baloiço desse muro baixo que eu tombei para trás, desamparada.

Ninguém mexeu na tarde. Ninguém fez nada. Dois adolescentes sentados sobre um muro a ruminar o dia que acabava e duas pernas erguidas lá no meio. Imóveis, chocadas por não ter feito efeito a sua queda curta, mas muito digna e mais do que evidente.

Fiquei ali, costas no chão e duas dignas e verticais colunas a apontar para o céu, azul profundo, até que a minha irmã, devagarinho, foi informando o rapaz que esta pobre ruiva havia alterado a posição usual.

Ninguém desceu os olhos.

Levantei-me, mas tinha a alma pasma, estonteada.

 

Era o tempo das amoras e tinha descoberto, olhando o céu do chão, o lugar exacto onde se prendem os fios do baloiço que suporta agora o oscilar das minhas inteiras e mais profundamente azuis desilusões.

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A Gaffe acorrentada

rabiscado pela Gaffe, em 14.04.14

Rapazes! Desde que não tenham menos do que 1.80m, não pareçam que desataram a fazer dietas sinistras em que se come durante duas semanas apenas três bananas ao pequeno-almoço e se bebe o sumo de quatro limões ao jantar e que o ginásio serve também para tonificar e manter os vossos corpinhos já por si em excelente forma física, não hesitem! Usem e abusem de adereços susceptíveis de causar um delicioso receio nas mentes perversas das raparigas que sempre foram atraídas por arsenais com um sabor ligeiramente bélico, levemente punk e vagamente sado.

Um homem que não receia ostentar cadeados e correntes símbolos mais ou menos esotéricos é sempre aquele que não teme ser por nós atado pelos adereços que escolheu.

Ver mais )

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A Gaffe fadista

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.14

A Gaffe admite que nada sabe do fado.

Nunca esteve perto quando era do bom o que se ouvia. Descobriu-o já crescidinha, na voz amadurecida de Amália e, como seria de esperar, ficou deslumbrada com Grito,  Lágrima, Gaivota, Primavera, Foi Deus, e tantos outros do género que se convencionou, se não se engana, chamar fado menor.

 

Não sente qualquer atracção pelas vozes masculinas do fado e só um pequeníssimo número de mulheres a emocionam. Aprendeu devagarinho a gostar de Mariza, Mafalda Arnauth, Ana Moura, Carminho, Maria da Fé e não vai muito mais longe.

 

A Gaffe não gosta de tascas ou de casas onde se canta o fado.

Foi uma vez a uma e apanhou com uma espécie de bêbados encapotados que fechavam os olhos enquanto se ouvia a fadista trinar; davam urros de vez em quando, como forma de incentivo ao canto; tinham catarro e tossiam para cima de umas senhoras oxigenadas, de bâton incendiado, vestidas de brilhos foscos e tinham uma unhaca de meter medo no dedo mindinho. Talvez não tenha ido à tasca certa, mas o certo é que nunca mais sentiu vontade de voltar a entrar numa.

Talvez por não ser de Lisboa. Talvez por ser só meia portuguesa.     

 

A Gaffe, portanto, é uma perfeita nódoa fadista e uma desconhecedora profunda do mistério desta canção.

 

Tem no entanto uma aversão pouco saudável aos putos que cantam fado.

A Gaffe ouviu um deles, todo lampeiro, com um ar latente de vedeta, arranjar força para estragar os últimos versos do Foi Deus. Vê-lo ser aclamado por fadistas veteranos custou-lhe tanto como ouvir a menina dos Gift a abrir todas as vogais de Gaivota transformando uma extraordinária melodia e um poema magnífico, cantado pela saudade encarnada e pela tristeza soturna e quase desesperantemente reprimida, que existia na voz de Amália, numa pindérica cançoneta de concerto adolescente-chic. Vendeu, rendeu como milho de pipocas, e isso é o que se quer.

 

A Gaffe acredita que o fado tem de ser cantado pela maturidade, porque só o saber de experiência feito provoca a essencial emoção, comoção, que permite incluir no fado a dolência do entristecimento, o doloroso timbre, o lamento pungente da saudade, o quase abandono de identidade em nome de outrem que sufoca ou por nós respira e a transfiguração do mito, sentido como resposta a uma falta, a uma ausência que impossibilitada o preenchimento e que mesmo assim é produtora de resposta, mesmo que o mito tenha a ver, neste caso, com a anulação limite do protagonista, com a morte física ou com a inutilização altruísta do ser rejeitado.

 

Por isso, ninguém convence a Gaffe que um puto de 13 anos é capaz de encarnar na voz toda a densidade deste fenómeno. Por isso detestou o rapazinho a desarranjar Foi Deus, com a sua vozinha branca, deslavada e nua.

 

A Gaffe pode não saber nada acerca do fado, mas suspeita que as cordas vocais desta canção estão só no coração de gente grande.           

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