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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe seduzida

rabiscado pela Gaffe, em 21.05.14

O princípio do amor é quando a inventada nudez deixa de ser necessária à sedução.

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A Gaffe iluminada

rabiscado pela Gaffe, em 21.05.14

A verdade é que se tentar encontrar em mim um fetiche, uma superstição qualquer, uma maniazita sem grande peso, embora me sinta inclinada a dizer que nessa área sou como um anjinho, tenho de assumir, que, se quiser ser honesta, há uma tara a que obedeço porque sinto que se não o fizer, apanho com um piano no rabo.

Quando saio de Portugal, antes de embarcar (ou aviar, porque é de avião que me ponho a milhas) tenho, uma ou duas horas antes, de comprar qualquer coisinha portuguesa de valor significativo. Fico com os nervos destrambelhados quando não o faço.

A noção de valor significativo é subjectiva. Não compro a Paula Rego (nem uma das suas obras) como é evidente. Sou mais modesta, compro um livro ou um CD.

Das duas últimas vezes que tal aconteceu, levei comigo, na primeira,  Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares e fiquei entalada com a emoção que o livro me provocou. Obrigatório ler, se não quisermos definhar, mirrar, ressequir sem pelos nossos olhos ter passado um potentado.

Da segunda vez, comprei Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura de Lobo Antunes. Não fiquei entalada, porque já esperava o génio. Lembro-me que Lobo Antunes, numa das suas mal-encaradas, difíceis e rabugentas entrevistas, declarou que as palavras surgiam no início do livro de modo desesperante, doloroso, e que depois se soltavam dos dedos como água. Tinha de a estancar, de lhe criar margens. Na minha modestíssima opinião, acontece exactamente o contrário. Lobo Antunes funciona como um íman. São as palavras, as mais geniais das construções, que são atraídas pelas mãos do escritor. Não há nada a fazer a não ser criar margens para conter o que elas trazem.

Na mais recente partida não havia nada de similar (cada vez há menos!).

Já um bocadinho nervosa, apanhei o último trabalho de Mariza.

Não simpatizo com a fadista. Sempre me pareceu uma versão magra, mais alta e loira, mas com menos cabelo, de Eduardo Mãos de Tesoura. Irritam-me a sua modéstia que me cheira a esturro e o seu espanto quando se apanha a cantar nas maiores salas do mundo. Se não sabe porque merece o prestígio que tem, é porque é uma minhoca (nesta caso, uma ténia).

Pois lá chego eu, toda lampeira, pronta a ouvir pela milionésima vez Ó gente da minha terra.

 

Caiem-me os brasões assinalados.

 

Ouço Mariza a cantar uma versão das minhas canções favoritas: Smile de Chaplin. Apercebo-me de repente que muito poucas vezes esta canção foi tão extraordinariamente bem cantada como agora e que dificilmente alguém a cantará, depois, superando a forma como Mariza o faz.

 

São estas coisitas pequenas, estas pequenas superstições, estes inofensivos fetiches, que me fazem sentir que, no escuro, consigo espreitar pela fechadura da porta do meu país e ficar iluminada.

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