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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe furibunda

rabiscado pela Gaffe, em 08.07.14
Estou farta!

Mais uma e acaba tudo à estalada, comigo a fazer as malas e a abalar daqui para fora. Tratam as pessoas como trampa! Como se fossem depósitos de lixo, uns baldes onde se pode injectar a porcaria que acontece, desresponsabilizando-se os que escondem os erros que cometem, atirando as culpas para o lingrinhas que estiver mais próximo.
O grande bruto que chefia o meu departamento farta-se de se ausentar, de reunião em reunião, a fazer de conta que é importante e a mostrar que até pode adormecer no meio daquela inutilidade toda sem que lhe digam um pirolito. Farta-se de meter documentos importantes na mala, para analisar depois, e esquece-se deles dias a fio. Nunca os lê, o gorduroso, careca mental e presunçoso duma figa.
Hoje a secretária do homem entrou aqui banhada em lágrimas. Completamente humilhada e arrasada. Acusaram-na de não ter agendado uma reunião e de não ter avisado o dono. A rapariga é duma competência a toda a prova. Jurou a pés juntos nunca ter tido nas mãos qualquer notificação oficial ou oficiosa daquela coisa. Foi insultada aos berros. O imbecil ameaçou despedi-la. Como eu tinha também sido convocada para aquela chatice do mais palhaço que há, o senhor veio ter comigo a cuspir côdeas.

Se sabia, porque não o avisei, devia e podia ter dito qualquer coisa, está farto de incompetentes, vive rodeado de idiotas, etc., etc., etc.


Passei-me! Como não dependo de psicopatas, disse-lhe que lhe partia as pernas se não tirasse imediatamente aquele rabo gordo da minha frente. O grande rabo vai fazer queixinhas ao chefe de serviço, mas já tenho reservado um cavaquinho em brasa para lhe enfiar pelas goelas dentro. Sei de fonte limpa que a convocatória oficial para a reunião foi entregue em mão ao badameco que a deve ter enfiado no meio dos documentos que esconde. A secretária já a encontrou pousada muito discretamente por cima da mesa de trabalho, sem qualquer nota de entrada e assinatura do receptor.
Não é a primeira vez que o canalha faz destas coisas. Ninguém lhe diz nada e o tipo vai comendo e rindo, mas atreve-se a virar os faróis para mim e apanha uma pantufada no meio da testa que vai pensar que sofreu uma lobotomia.

 

Posso ser depois recambiada para a terra, mas pelo menos vou só depois de ter homenageado o Dr. Egas Moniz.

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Gavetas:

A Gaffe vai jantar

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.14

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A Gaffe aguarelista

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.14

A Vida cria aguarelas magníficas. O galerista não é grande coisa e (tenho de o reconhecer) é sempre a Natureza que as torna admiráveis em troca de nada.

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A Gaffe dos deuses e dos homens

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.14

Os deuses são pedaços de sonho que os homens não conseguem suportar sozinhos e como todos os sonhos e projecções humanas apodrecem.

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A Gaffe medrosa

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.14

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Gavetas:

A Gaffe detective

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.14

Uma das minhas séries favoritas passa na FOX e não é significativamente diferente de todas as outras. A fórmula que a torna atraente é mais que conhecida, porque é a usada em todas as séries com argumentos similares ou dentro do género em que esta se inclui.

Elementary traz-nos uma versão de Sherlock Holmes que, agora em NY, é coadjuvado por um Watson no feminino, muitíssimo bem encarnado por Lucy Liu que percebe de forma inteligente a primazia do elemento masculino da parelha, embora use umas pestanas que parecem dois toldos de esplanadas góticas que poderiam fazer sombra no seu discernimento.

Jonny Lee Miller é um Holmes tatuado e de barba de três dias que nos faz perder parte do argumento quando aparece em tronco nu. Um belíssimo, nervoso, agitado, angustiado, ressacado Holmes que arrasta um allure desleixado acentuado pelo contraste com a elegância e o cuidado com que as restantes personagens se vestem. É um dos poucos homens em que as tatuagens dispersas pelo corpo não desviam a atenção do torso nem transformam o resto (e que resto!) apenas num suporte, num expositor, de marcas de tinta.  

Percebe-se porque vicia qualquer rapariga esperta e a faz ficar presa à dose cavalar de episódios que são injectados à Quinta-feira.

Numa dessas tranches, Holmes divaga sobre a evolução da linguagem elogiando a capacidade dos adolescentes para minimizarem, minimalizarem, às vezes de modo ininteligível, as SMS e todas as outras frases que vão deixando quase cifradas em suportes digitais. Não perdendo apesar de tudo a capacidade de comunicar, a rapidez aumenta, a síntese é um facto e a eficácia torna-se evidente.

 

É curiosa esta apologia de um comportamento tipicamente adolescente, sobretudo quando a adolescência, conceito que surge apenas nos finais do século XIX, se vai estendendo cada vez mais no tempo, arrastando e invadindo o espaço temporal que convencionalmente dá início ao estado adulto.

 

As minhas fontes fidedignas insinuam o aparecimento em 2015 – Primavera/Verão – do conceito de teen-adult regido pelo lema boyest for the boys. O homem vai adquirindo alguns tiques adolescentes que vão contaminar a sua imagem. Os cortes de cabelo tornam-se menos duros e menos militaristas, dando lugar a caracóis domados e estrategicamente colocados de forma a entregar ao dono um tom colegial, as barbas desaparecem dando lugar a rostos escanhoados, quanto mais imberbes melhor, eivados de olhares mansos de timidez ruborizada, e a mistura de peças do agrado dos jovens rebeldes com a agrura e secura do guarda-roupa dos executivos torna-se um must .

Esta prevista miscelânea contraria a linha dura e agreste do actual barbudo másculo e indomável e vai tornar as nossas avenidas numa espécie de recreio de escola secundária repleta de homens grandinhos que ainda não entenderam a disciplina do bom-gosto.  

 

Talvez por isso compreenda Holmes quando aclama a evolução da linguagem sagrando a adolescência como uma nova e definitiva espécie de estado adulto.

Holmes percebe que quanto mais moços ficarem os homens, mais raros se tornam os exemplares que atraem as Watson deste mundo.

Mais fica para ele!

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A Gaffe não resiste

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.14

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A Gaffe em curto-circuito

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.14

Usa hoje calças justas de sarja cinzenta que lhe apertam as nádegas e denunciam o uso de boxers. Uma camisa apertada com bolsos de pala que lhe desenha os peitorais ginasticados e gravata pequenina com risquinhas cinza sobre fundo azul.  

A Gaffe levantou-se e procurou dar-lhe espaço. De joelhos flectidos e coxas retesadas, o rapaz introduziu uma gigantesca chave de fendas na tomada.  
- Há qualquer coisa aqui a fazer curto-circuito.  
A Gaffe olhou espantada com a perspicácia do rapaz.


Por momentos a Gaffe pensou que tinha sido denunciada.

 

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Gavetas:

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