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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe autista

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.14

carl kleiner in collaboration with evelina bratellHá um recanto na minha alma que se aproxima de uma estranha e possível variante de autismo.

Por vezes retiro às pessoas, sobretudo às que amo, os seus ruídos, os sons que emitem e as palavras que escorregam pelo instante. Olho-as sem banda sonora, dentro de filmes mudos. Apenas movimento dentro de silêncio.

É nesses momentos, muito mais frequentes do que seria conveniente, que me deslumbro.

Vejamos, por exemplo:

É nesses instantes que meço os ângulos esguios do traçar das pernas da minha irmã; estudo o gesto contido com que afasta o cabelo do rosto quando está nervosa; espio o semicerrar dos olhos quando o fumo se pendura nas pestanas; analiso a boca insolente que dispara erguida e prepotente; observo o modo como as pequenas pérolas contornam as clavículas; investigo o baloiçar do pé quando encontra obstáculos e percorro os terríveis dedos a desenhar espaços.

É nesses instantes que pasmo com o inclinar da cabeça do meu irmão quando enfrenta a música; que marco e revejo o retesar dos músculos sempre que ondula o som do saxofone; que sorvo e absorvo a densidade dos seus olhos sempre que por eles passa a melodia.

É nesses instantes que apanho o escarlate do sorrir da minha prima; o mover de gato bravo do seu corpo; o espampanante explodir de todos os seus gestos; a fragilidade tonta com que atira a cabeça para trás quando se espanta; o atento olhar de caçadora esperta que sabe que a presa é sempre uma quimera.

É nesses momentos que encaro a imobilidade do meu mais querido amigo e avalio a contenção do gesto e o pacífico alvéolo onde se esconde e adormece.

Por isso não retenho Música. Não a sei. Não me apaixona.

Sempre foi assim. Retiro sons ao mundo para que o mundo me entregue o silêncio burilado da obra de arte.

 

Foto - Evelina Bratell & Carl Kleiner 

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Gavetas:

A Gaffe e um bâton

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.14

Madam.jpgO fumo faz-lhe erguer a sobrancelha. A minha avó chega atrasada e justifica:

- Uma mulher deve-se adornar para os homens belos. São os únicos que a conseguem ver despida. 

Sorri. Que não a incomoda o corar do meu irmão.

Entrega-lhe o isqueiro para que lhe abrase um cigarro novo. Depois brinca com a cigarreira aberta.

-Reparo, meu querido, que se refere a ela como a sua amiga. Soa a Cantiga com iluminuras, mas porque não diz a minha amante?! Sabe que mudam de cor essas palavras sempre que são ditas?

Avó, não sabe. É tão pequeno e triste como eu.

- Mas é verdade. Dizer a minha amante transforma os lábios e a cor dos olhos. As palavras ganham todas as nuances da alma de quem diz.

A senhora e a cigarreira de prata que não se abre à luz que vem coada por um quebra-luz. Um quebra-luz, avó, que a luz pode quebrar, mas não se abate.

- Na minha boca, meu caro, o meu amante sempre teve a cor do meu bâton.

A senhora afasta a onda do cabelo. 

- Ciclamen Rose. - Um suspiro que faz doer como um corte de papel.

- A cor do meu bâton. Já não existe. 

E a senhora fecha a cigarreira com um clique.  

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Gavetas:

A Gaffe bellucciana

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.14

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É curiosa a insistência com que alguns homens debatem os actuais padrões de beleza feminina levando quase à exaustão a matéria em apreço, com uma preocupação exacerbada digna de lesados em primeira instância pela indução publicitária da irrealidade no imaginário da gentalha.    

Massacram o debate, acotovelam a polémica, incendeiam conceitos, trituram discussões e apoderam-se do tema como se deles fosse o dano mais directo.

O mais irritante é acharem que erguendo repetidamente o contraste todo inflamado do corpo de rua versus corpo de passerelles, com uma força que supera em muito a nossa, nos vão salvar do despenhadeiro que o corpo do real nos vai mostrando como inevitável destino.

Insistem. Publicam tagarelices. Voltam a publicar dias depois matéria igual. Citam parcerias, pares, parelhas e paradas onde se diz o que repete embora com mais ou menos brilho. Cravam-se nas costas do tema e, de pena magra ou gorda, alta ou baixa, depenam o já sem réstia de penugem e regressam logo que podem e com o mesmo viço ao já estafado. Tornam-se peritos na matéria. Falam por nós, em nós, de nós, preocupam-se connosco e mostram pelo caminho as fotos dos crimes cometidos contra nós.

Esta obcecação pelo modo como o conceito de beleza feminina em vigor nos causa dano, esta obsessão por nos chamar a atenção para os perigos existentes nas ilusões estéticas que nos são vendidas, levam a suspeitar que lhes interessa muito menos o tema do que as fotos que o ilustram. Abnegados, altruístas e justificados, vão espreitando anorécticas e obesas, altas e baixas, gorduchas e as que nem por isso, loiras e morenas, raquíticas ou lutadoras de sumo, aproveitando para, pelo meio, dar uma vistinha de olhos a Monica Bellucci ou passar os olhinhos pelas maminhas de Alessandra Ambrósio comparando-as com as de Fafá de Belém.

Aborrecem. Irritam e depois causam fastio.

Pelo caminho esquecem que, há já bastante tempo, o tema pode ser conjugado também no masculino e que os abdominais bronzeados que nos são enfiados pelos olhos dentro – abençoados fotógrafos -  estão a uma distância de anos-luz de ginásios das suas barriguinhas brancas e peludas.

 

Nós sabemos. O tempo vai-nos ensinando a ser como Móises. Não imaginam as águas que conseguimos separar!

Embora correndo o risco de se cometer um erro crasso e nada BCBG, apetece dizer-lhes baixinho:

- Ide todos bardamerda, queridos. Considerarmos o nosso corpo perfeito ou imperfeito, tem pouco ou nada a ver convosco.

 

Agora, se me dão licença, vou procurar alguém que tenha a maçada de enfiar uma Barbie pelas goelas abaixo do João Miguel Tavares, sim?

(Ou pelas goelas acima, se a Barbie entrar por outro lado.)

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A Gaffe influenciada

rabiscado pela Gaffe, em 05.11.14

De acordo com um estudo de Harvard, os mais belos, entre outras vantagens, são considerados sempre menos pecadores, atingem com maior facilidade lugares de chefia, adquirem mais depressa privilégios negados à maioria, alcançam em primeiro lugar cargos de representação, são melhores classificados do que os rivais, cumprem, quando condenados, penas mais suaves embora o crime seja idêntico e triunfam invariavelmente sobre os menos favorecidos pelos deuses que tratam da cosmética e dos acasalamentos.

 

Eco, com a História da Beleza ou A Sobrevivência dos Mais Belos de Nancy Etcoff, muito antes destas conclusões terem surgido, reportam-nos a esta controvérsia sendo duas das mais interessantes obras acerca do assunto e que, de certa forma, a segunda mais do que o primeiro, nos acabam por provar que existe na realidade uma predisposição para acolhermos melhor os portadores da beleza em detrimento dos feios.

 

Não é agradável admitirmos este facto, mas a verdade é que escolhi as imagens que se seguem apenas porque são mais bonitas dos que as habituais, embora reconheça que as que foram excluídas traziam mais informação do que as presentes.

Agora vou retocar a maquilhagem. 

Sou uma rapariga tão influenciável!

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A Gaffe timorense

rabiscado pela Gaffe, em 05.11.14

Xanana, meu querido, o menino sabe que uma senhora vai sempre a tempo, mesmo sabendo que há nódoas de outras cores, de apontar o dedo aos rapazinhos que deixam manchas pretas nas toalhas estendidas por dois povos.   

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A Gaffe licenciada

rabiscado pela Gaffe, em 04.11.14

1-format43.JPGOs jovens licenciados portugueses podem tirar a Alemanha da rota da emigração qualificada.

Angela Merkel já atestou o depósito e quer agora apenas quem lhe carregue com profissionalismo os contentores.

O camião guia ela.

 

Não seria boa altura para despachar o Relvas? Pelo menos, furávamos-lhe os pneus!

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A Gaffe descalça

rabiscado pela Gaffe, em 04.11.14

 

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100 homens, dizem-me que figuras públicas, decidiram aceitar a proposta de Luís Onofre e foram protagonistas de uma campanha publicitária que apesar de não primar pela originalidade, acaba por funcionar bastante bem nesta horta à beira-mar plantada. Fornece visibilidade aos que dela estão carentes, satisfaz hipotéticas fantasias, imita o arrojo das transgressões e o criador tem deste modo assegurada uma boa divulgação do seu trabalho.

Os rapazes aparecem em poses irrepreensivelmente varonis, enfiados em cenários mais ou menos viris, em situações que não colocam em questão a sua masculinidade e de saltos altos. Tudo muito Mário Testino.

Acredito que a passerelle pode ser interventiva, sendo passível de se tornar também uma forma de participação civica e social ou reflexo das preocupações societais. É louvável que o seja. YSL já nos vestiu com o vosso smoking e não precisou de nos explicar a razão, porque foi de imediato entendida e continua activa.

Penso igualmente que não há qualquer inconveniente que seja apenas um modo de brincar levado a sério e aposto que, neste caso, os meninos se divertiram imenso. É sempre saudável gargalhar enquanto se tenta o equilíbrio seja onde for.

 

Há no entanto um pormenor que me deixa ligeiramente irritada nesta sessão de glamour macho.

A justificação que é dada.

Pela igualdade entre o homem e a mulher, contra os abrolhos que a cada passo entravam e atormentam o caminho das fêmeas.

Não nos capacita, pois não?

Os meninos não precisavam de invocar, de desencantar, de arrancar das unhas dos pés, uma causa destas para justificar (para se justificarem?) terem concordado ser protagonistas de uma campanha publicitária! Fica mais amoroso, é certo, mas não é convincente.

Talvez porque falte no meio daquilo tudo Oliviero Toscani, sentimos apenas que estamos a ver fotos de 100 homens de saltos muito altos e poses viris, com diferentes graus de visibilidade, a publicitar um criador de sapatos. Não deixa de ser giríssmo e jamais será errado ou condenável, mas como a mulher agredida diria se não receasse levar mais dois estalos, depois de ouvir que foi também em nome dela que aquilo se fez:

- Que lata! 

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A Gaffe de Tim Cook

rabiscado pela Gaffe, em 04.11.14

b232.jpgFicamos a saber que Tim Cook é um menino que gosta de conhecer – biblicamente falando – outros meninos.

A informação é irrelevante.

Este vociferar aos quatro ventos, este bradar ao mundo a orientação sexual, começa a maçar.

Segundo os próprios e seus seguidores, o revelar da diferença expressa no comunicado promove a libertação e apoia directa e indirectamente aqueles que ainda se confinam ao infeliz escurinho do armário.

É curioso perceber que esta coragem está blindada. Os portadores desta bandeira redentora estão todos protegidos pelo prestígio, fama, simbologia, reconhecimento público, dinheiro e guarda-costas que adquiriram através de realizações que pouco ou nada devem à sua sexualidade.

O exemplo que, entre muitos, Tim Cook, Anthony Watson, Robert Hanson, Robert Greenblatt, Nick Denton ou mesmo Christopher Bailey, dizem consubstanciar é difícil de seguir sem as couraças que os salvaguardam de possíveis represálias sociais infectadas pelos preconceitos. Não é de todo igual a revelação destes CEO à de um qualquer anónimo sem o poder, simbólico ou outro, que se atreve a gritar à multidão a sua orientação sexual. O pobre corre o risco de passar a ter de ir sozinho ao armazém dos fundos, de sentir a mesquinhez do risinho sorrateiro do coleguinha que é macho ou de aparecer esbardalhado no fundo de um poço qualquer.  

Dizer que a orientação sexual de cada um é do foro mais privado, é mais do que luminoso. Não creio que seja benéfico ou proveitoso alardeá-la com o falacioso objectivo de promover o respeito pela diferença, inscrita como um direito do homem. Em última instância e tendo de haver luta, uma atitude próxima da filosofia de resistência silenciosa de Gandhi, nestes casos, surtiria um efeito bem mais duradoiro. Eles são. Não resistam!, daria uma bela palavra de ordem.

A revelação de Tim Cook, para nos reportarmos a uma ocorrência mais recente, é socialmente ilibada e o facto aceite, porque - quer uma, quer outro - estão protegidos pela desgraçada expressão que mistura o beneplácito, amarfanhando-o com a surpresa e admiração que advém de se ter contrariado a expectativa de fracasso que está apensa a condição revelada.  

- Olha como conseguiu o que tem, mesmo sendo assim!

O prevaricador tem um bicho agarrado às costas, mas mesmo assim consegue uma vitória estrondosa.

Quem não a consegue, é apenas a bicha.

 

A revelação de Tim Cook é valiosa por aquilo que muitos condenaram. Declarar que, e cito:

(…) and I consider being gay among the greatest gifts God has given me vai directa à Santa Inquisição ainda em actividade nos confins do Vaticano.

 

O resto aborrece.

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A Gaffe artística

rabiscado pela Gaffe, em 03.11.14

art.jpgToda a mulher é, pelo menos uma vez na vida, o modelo favorito de um homem qualquer, mas tem de aprender a não deixar que a tela que resulta seja assinada apenas pelo artista.

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A Gaffe com livrómetro

rabiscado pela Gaffe, em 03.11.14

Tokyo Prayer boards at Meiji Jingu Shrine.pngA Gaffe não entende os livrómetros.

 

Não compreende, por ser rapariga pouco dada a manigâncias informáticas, a aplicação que permite que se inscreva a quantidade livros que se planeia ler, que contabiliza os livros lidos, que distribui o número de leituras pelo ano e que permite que nos alegremos muito, porque cumprimos o estipulado ou que nos enfureçamos quando tal não acontece.

A Gaffe, para além de considerar um bocadinho imbecil uma aplicação deste tipo, pensa que é absurdo comportarmo-nos como quando decidimos comprar os 30 cm de livralhada que nos falta na estante.

Embora a frustração de nos aproximarmos da data estabelecida para cumprir a meta bibliotecária sem perspectiva de a satisfazermos possa ser ultrapassada com a leitura dos romances de Margarida Rebelo Pinto que permitem comermos as páginas que esta querida vai repetindo de obra em obra, quantificar a leitura é sempre deprimente.

 

A Gaffe é uma rapariga antiquada. Considera, por exemplo, que Proust deve ocupar sete vezes setenta dos nossos anos. Pensa que a leitura do velho Dostoiévski tem de ser pausada e intervalada, de modo a nos deixar alguns meses para que possamos emergir dos seus universos asfixiantes. Acha que Shakespeare tem direito a semestres inteiros de atenção e que Hamlet deve reinar mais do que um ano. Sabe que Eça merece mais do que uma corridinha ou que a redescoberta de Balzac leva mais tempo do que o permitido pelo livrómetro.

A Gaffe percebe que basta um capítulo de uma das obras de uma miríade de autores com a dimensão dos citados, para esmagar o tempo que a aplicação lhes destina para que se cumpra o programado.

 

A Gaffe pensa que a leitura nem sequer se mede às palmas e fica pasmada quando percebe que há leitores que a encaram aos palmos.     

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A Gaffe encontra um retrato

rabiscado pela Gaffe, em 02.11.14

vnyc.jpgDesconheço quem é o autor da ilustração, mas tenho a certeza que, seja quem for, encontrou a minha irmã em NY, no exacto momento em que, depois de estraçalhar o cabeleireiro e perdida por completo a compostura e a cor do pêlo já tingido, se preparava para ensandecida fazer parar um motoqueiro, já que para andar de táxi só veste Givenchy.

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A Gaffe na cozinha

rabiscado pela Gaffe, em 01.11.14

A Gaffe sempre foi uma péssima cozinheira ao ponto de a proibirem de entrar nos reinos dos segredos culinários e de penetrar no ventre de mistérios da cozinha.

No entanto, não pode nem deve deixar de ver estas Avenidas, ainda que por instantes breves, transformadas num delicioso Cooking Blog.

Corajosa e determinada, escolhe as mais e exóticas e celestiais iguarias para partilhar e, abnegada, não faz qualquer questão em ter o prazer de ser a primeira a provar o que se confecciona, desde que não lhe salivem o artista.

 Exige no entanto recolher as sugestões do Chef, no privado da despensa, não se vá enganar e atear incêndios.

 

Então vá! Comecemos:

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5.jpgA receita?

Qual receita?!

Ah! A receita…

 

... Mas quem é que se interessa?!    

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Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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