
Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
No outro lado da rua, as janelas das vivendas brancas continuam encerradas.
São iguais. As persianas brancas e cerradas todo o dia nas janelas iguais umas às outras.
Quase a terminar a rua existe uma casa com persianas cor de chumbo.
A casa, sem orquídeas tristes e ressequidas na varanda e de desenho minimal, geométrico e austero, retalha o uniforme novo-rico da rua sossegada.
Ontem, fui comprar pão de manhãzinha onde me tratam por menina e cheira a forno antigo.
Ao descer, estavam erguidas as persianas cor de chumbo. Vi o homem a atravessavar o quarto, de tronco nu e toalha vermelha nas mãos. Corei. Senti-me coscuvilheira e intrometida.
Quando me apercebi do portão da garagem a abrir, já assumida e vergonhosamente bisbilhoteira, corri e descobri que o homem é atraente, sozinho, que usa óculos de massa que não lhe ficam bem, barba rasa de dois dias e cabelo negro e muito curto.
À noite, na casa de persianas cor de chumbo, consigo ver a luz intermitente da televisão, coada por cortinas. Fico parada e encostada à parede da varanda da casa onde me escondo destes dias tristes e invento histórias para aquele homem que não vejo.
É pacífica, simples, lógica, fácil e evidente a solidão da luz intermitente, como se nada houvesse mais para viver; como se tudo de tão previsível, ordeiro, tranquilo e mais sereno, fosse o banal, o inevitável sintoma de haver Paz; como se a solidão não existisse ou existisse apenas para quem olha as luzes intermitentes coadas por cortinas que chegam da vida de quem se desconhece.
É fácil apaixonar-me pela luz que vem coada por cortinas na noite em que me encosto à intermitência nua da varanda.
Sempre fomos atraídos por aquilo que nos outros se assemelha à Paz, quando dentro de nós o mesmo, exactamente o mesmo, nos faz sentir que teremos apenas a luz intermitente que escapa da nossa desabitada espera sem cortinas.