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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ao sol

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.16

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É incontestável. As ruivas jamais conseguirão o mais ténue bronzeado. Não há melanina que suba à superfície da pele de uma ruiva e lhe entregue uma amostra, minúscula que seja, da aparente saúde de uma pele tisnada.

Consola-me saber que este tostado que invejo não é mais do que o sintoma de uma pele que tenta defender-se de uma agressão externa, por mais solar que seja.

 

Posto isto, é lógico concluir que sempre atravessei a areia apenas para fazer deslizar o olhar pelos espécimes estirados nas toalhas fatelas depois de mergulhos muito pouco olímpicos nas águas de um mar que de tão manso assusta - o canalha mais sinistro é o mais simpático.

 

É curioso como se pode com relativa facilidade traçar acanhados círculos onde se encaixam os homens de um Verão junto do mar. Reconheci alguns destes pequenos nichos. Sem me maçar muito, destacarei três.

 

I

O círculo insuflável

Inclui homens que parecem ter sido insuflados. Lembram os balões que nas festas infantis os palhaços moldam para gáudio dos petizes. São homens absolutamente gigantescos, autênticos reservatórios de esteróides e anabolizantes  - Anabolic Androgenic Steroids, só para os amigos. Trazem os bíceps tatuados com imagens ranhosas de tigres e dragões, que não serão jamais, de um tamanho oceânico para provar que tudo tem lugar na extensão da musculatura; usam exíguas, e ligeiramente repugnantes, tangas que desafiam a capacidade do elastano em reter as misérias que protegem e são invariavelmente acompanhados por mulheres que sempre me pareceram esticadas por forças estranhas de modo a que a barriga se cole às costas e os mamilos sejam capazes de cegar o nadador-salvador mesmo sem afogamento à vista; trazem carrapitos na cabeça e nails, onde se destacam meias-luas brancas no lugar daquilo que deveria ser cortado e olham sempre em frente, como que hipnotizadas por um ponto qualquer no perdido horizonte, como que à procura de quem as liberte do orgulho patético que sentem por marchar ao lado do insuflável obcecado em transformar todos os banhistas em voyeurs pasmados, presos pelo fio que nos seus corpos hiperbolizados não consegue permanecer à superfície das nádegas.

 

II

O círculo de esperanças

Um nicho em claríssima ascensão composto por jovens rapazes de guelras vermelhas que, de calções com um tamanho lamentável, um misto de bermudas e coloridos saiotes, apresentam uma despreocupada gravidez de quatro meses e que insinuam que nem só o sexo oposto é digno de ostentar umas mamocas Playboy. Jogam uma espécie de badmington gelatinoso e, gordurosamente suados, encharcam as ondas de adiposos mergulhos desconexos. São normalmente vistos com telemóveis com raparigas acopladas.

Apesar de se apresentarem de esperanças são desesperançadas imagens de futuros maduros repletos de inchaços e balofas redundâncias.

 

III

O círculo do abdominal

De parco preenchimento. Os rapazes que se apresentam com um torso - neste caso específico é de evitar referir a palavra tronco, - devidamente modelado, sem exageros insufláveis ou rabiscados de forma irreversível e lamentável, acabam com umas pernas anorécticas e geralmente apresentam tendência para desfilar a patetice que os caracteriza com o à-vontade de quem está seguro da qualidade do produto que tentam vender. Sabemos, por experiência antiga, que estar Seguro nem sempre convence o eleitor. O grupo do abdominal pode desfilar em excelente forma física, mas o vento que se faz sentir constitui um perigo penetrante, provocando zumbidos e assobios no desértico espaço entre as orelhas. Apesar deste contratempo, o pequeno número de elementos que povoa este círculo é o que mais diverte as raparigas espertas que não exigem que se conheça Proust para perder o tempo imprescindível a procuras menos literárias.

        

Fiquemos por aqui, que três é número que Deus fez e que acusado foi pela chorosa Princesa inglesa de ter sido responsável pelo fim de um casamento e porque temo que por esta altura eu própria tenha já perdido os meus três - pacientes leitores. A síntese exigida a recantos como este, não é compatível com divagações e derivações arquivistas, mas uma rapariga esperta às vezes não se entretém com pouco.

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Gavetas:

A Gaffe manipuladora

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.16
 
Todas as raparigas espertas possuem a maquiavélica capacidade de manipular o desejo dos homens.
 

Não está facilitada esta potencialidade. Todas temos um limite de manipulações estabelecido de acordo com o espécime que temos na frente e desconhecemos o número exacto que nos cabe em cada caso, mas, se não nos distrairmos com os pormenores mais atraentes, conseguimos reconhecer os nossos limites e esperar que o tempo faça um reset na predisposição do rapaz para que o vejamos de novo aceitar uma dose renovada de subtis submissões aos nossos caprichos mais tontinhos.

 

Nesta deliciosa manipulação, importa a perspicácia e a inteligência de nos mantermos alerta a todo o sinal de saturação que chispa nos olhos da nossa vítima tão querida. O vislumbre de um franzir de sobrancelhas pode constituir um aviso de perigo e uma queda fatal na nossa actividade criminosa. Nestes casos é importante saber contornar as esquinas mais abruptas e angulosas.

 

O essencial em todas as manipulações que se querem bem sucedidas é reconhecermos que é sempre útil fazer acreditar que são eles que nos oferecem sempre o que é do nosso desejo, mesmo quando sabemos que fomos nós as artesãs da oferta.

 

O sim dos rapazes nunca foi difícil de obter. O problema está sempre no modo como formulamos a pergunta.  

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A Gaffe veraneante

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.16

Anita Loos, e Cecil Beaton,1930.jpgO facto de ultimamente ter considerado interessante apenas a equipa encarregada da campanha promocional da Shiseido, não augura nada de bom.

 

É deprimente e anuncia aquilo que se receava: o início do Verão.
Nunca me foi favorável esta estação que entra com passos febris.  
Faz oscilar o meu humor e destabiliza toda a minha estrutura emocional, queimando promessas tolas de Primavera ida.  
Altera-me e provoca largos e penosos conflitos entre a minha lucidez e a minha desgraçada tendência para atenuar, ou mesmo liquidar, a mais tímida forma de pensamento estruturado.


Depois há O aniversário.

 

Em Junho a minha irmã, que só não se transformou ainda numa criatura insuportável, porque é demasiado inteligente e reconhece que ter a alma azeda é apenas uma forma mais de fracassar, comemora o seu feliz aniversário exigindo dos outros as oferendas proporcionais ao seu extenso ego.  

 

Depois há a solidão que aumenta.


Em Junho desaparece a minha prima que retorna a Paris para ocupar o lugar que dela sempre foi no centro da vida.

- Não fiques triste! Eu volto, caso-me e partilhamos todos os amantes.  

 

Em Junho não faz sentido nenhum ser-se inteligente.  

 

Na foto - Anita Loos e Cecil Beaton, 1930

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Gavetas:

A Gaffe com Shiseido

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.16

 

Não consegue ultrapassar a imagem de Marilyn a dormir nua, tocada apenas pelo n.º 5, da Chanel, mas prova que com Shiseido qualquer um pode ser bonita.

 

 

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Gavetas:

A Gaffe na fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.16

Feinstein.jpgUm dos grandes desgostos da Gaffe - para além do facto de não ter a pose das raparigas que desfilam pelos corredores das Casas de alta-costura, com um ar de indiferença abismal e de distância quase transcendente ou como se tivessem injectado botox no cérebro, - consiste em não saber fotografar.

 

As fotografias que tira aos amigos fazem-nos parecidos com aquelas que figuram no Cartão do Cidadão ou, em alternativa, que foram possuídos pelo Demo e que a qualquer momento vão rodar a cabeça e cuspir-nos coisas esverdeadas - o que não dista muito das do Cartão referido.

Também não tem sorte a fixar paisagens. A única que captou em condições foi a de umas ruínas e, mesmo assim, depois de ter corrido esbaforida de orgulho exibindo a obra, foi cilindrada com a pergunta:

- Mas o que era isto antes de o teres fotografado?

 

A Gaffe tem uma Nikon D200. Um objecto assustador. Repleto de luzinhas que se acendem à mínima pressão, com um monitor enxameado de símbolos, botões e manivelas, rebentos, borbulhas, verrugas, manípulos, sinais, filtros, objectivas monstruosas e pesadas que fazem a Gaffe tombar desequilibrada e um flash automático que se ergue subitamente com um click fazendo pensar que foi accionado um qualquer dispositivo atómico e que vamos morrer todos ali.

 

A Gaffe tem de madrugar se quer captar um pôr-do-sol.

 

A verdade é que esta rapariga esperta consegue ultrapassar a sua tragédia fotográfica rodeando-se de gente - bom dia, Christophe! bom dia, Pyotr! - que é capaz de obter uma boa fotografia mesmo tendo o Cláudio Ramos por modelo. Fica com as mãos livres para pressionar outras coisas, fixar outras paisagens e captar outros movimentos.

Esta procura, muitas vezes obsessiva, do para mais tarde recordar é portanto a causadora de urticária numa rapariga propensa a maleitas psicossomáticas.

A Gaffe decidiu há muito tempo abandonar este desgosto fotogénico e recorrer a virtuosos do click que vão fixando em condições aquilo que a apaixona ou a deslumbra.

A exibição da obra produzida pela nossa incipiente experiência e debilitado saber tem demasiadas vezes tendência a ser sobrevalorizada. Acreditamos, ingénuos, que somos geniais ou que pelo menos conseguimos fazer equiparar o que executamos, com confrangedora incapacidade, à mais poderosa obra de um perito na matéria.

 

O erro desta valorização está, por exemplo, esbardalhado em qualquer página do Facebook onde milhões de fotos clamam a nossa atenção para as maminhas que se mostram ou que se insinuam descontraídas em férias com amigos e que, por muito que custe à portadora, parecem dois - há casos em que mais - melões de Almeirim ou duas azeitonas perdidas por uma mirrada oliveira onde nem a Senhora pousaria, mesmo correndo o risco de não comparecer à reunião agendada com os pastorinhos.

 

Somos Sebastião Salgado dos gatinhos fofinhos, das festas em família com a velha tia centenária, dos trilhos de viagem com vacas a sorrir, das colunas de mosteiros com rosáceas, das bases dos fontanários de uma aldeia, do primeiro dente do bebé, dos folhos repolhudos da noiva que é a prima, do prato com salada contaminada no campo, do mergulho na piscina de plástico, da unhaca envernizada, depilação já feita, do enfrascar até ao coma do grupo de Sexta-feira à noite e das poses de matadores playboys pindéricos e de patéticas playmates de pacotilha.

Tudo o que existe para mais tarde recordar sorri no facebook e é exibido como susceptível de ser partilhado com o mundo circular de uma qualquer rede social.

 

A Gaffe é limitada. Não faz a mínima ideia de como se capta uma fotografia capaz de se aproximar do pasmo que sente pelas coisas da vida. Deixa que os mestres fixem o deslumbre que não sabe reter na memória da Nikon.

 

Faz click com o coração.

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Gavetas:

A Gaffe de Stravinsky

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.16

Stravinsky.jpgNasceu hoje!

É um Andaluz com um nome que não vou mudar.

A mãe amotinou a crina ondulada e encapelou o espaço todo, como uma quimera. 

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Gavetas:

A Gaffe num delito

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.16

Creio que é importantíssimo lermos com redobrada atenção, porque nos ajuda a ter uma visão mais lúcida, mais limpa, mais crítica e muito mais esclarecida e esclarecedora acerca de um assunto que tem vindo a ser desbaratado e usado com demasiada facilidade e muito pouca objectividade.

 

Quando for grande quero dizer o que penso desta forma.

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A Gaffe sem forças

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.16

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A noite madrugou numa toalha de sardinheiras derramadas.
Encosto o corpo às pedras. A casa é fria e branca de fantasma.
Se eu tivesse mãos e olhos transparentes. Se eu tivesse um barco a resvalar na terra ou uma trepadeira de maresia e espuma.

Se eu tivesse força!

- Venha, menina, que está para nascer e é valente, o cavalito!

Vou. Desço a minha vida.
A madrugada ergueu-se de dentro do meu sono e dentro dos meus braços há cansaço. 

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Gavetas:

A Gaffe aprendiz

rabiscado pela Gaffe, em 15.06.16

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A Gaffe en passant  - faz imenso  disto -  ouviu uma expressão que a encantou sobremaneira:

 

Pessoas que não sabem estar na vida

 

A Gaffe entende a existência de gentinha que não sabe estar numa recepção, que assarapanta os talheres e mistura copos, que confunde a obra de Giacometti com arte africana, que bebe a água com limão do final da mariscada, que escreve destastas-o  e gosta de Cagaleiro, que inventa cabalas para cheirar a peixe ou até mesmo que ignora por completo que cuspir na cara de alguém não é o mesmo que se ser frontal - muito menos quando se cospe nas costas do dito. São pequeninas vírgulas mal colocadas no texto que a vida vai ditando. Tornam a leitura intragável, mas pelo menos acabamos a perceber quem foi o autor.

 

O que não entende é que haja gente que sabe estar na vida.

 

A Gaffe sempre achou que toda a gente faz o que pode para não morrer e que esse é a única sabedoria que se exige, tendo em conta que a árvore do saber restante não é de todo a mesma da felicidade.

Saber estar na vida não é conhecimento que nos seja facultado, mas acaba por se tornar instinto à flor da pele que não permite mais do que sobreviver.

 

O episódio que originou tão profunda reflexão é contado num pé só.

 

Depois de bater na esquina da secretária e ter espetado a canela – uma peça anatómica que serve para que encontremos os móveis no escuro - na perna da cadeira, a Gaffe procura aprumar-se e suster o grito de dor que se quer soltar desenfreado. Devagar, de olhos semicerrados, salta do gabinete para o corredor.  


- Pela tua cara, vejo que já sabes - murmura-lhe a interna de pasta nos braços e malícia nos olhos.   

- Referes-te? – eis saber viver! O instinto diz-nos que um segredo é uma coisa que se conta a uma só pessoa de cada vez.  
- Refiro-me ao acidente do chefe de serviço! A mulher espetou-lhe o x-acto na mão. Discutiram. Descobriu que o homem tinha uma amante - e continua num sussurro - vai-te dizer que se cortou no vidro da porta. Empurrou-a, pensando que estava aberta, e feriu a mão quando aquilo se estilhaçou. Parece que o chefe empurra as portas com as costas da mão – e termina num suspiro - não entendo como a pobre foi capaz. Há pessoas que não sabem como estar na vida.

 

Saber estar na vida é afinal desconhecer ou então fazer de conta não saber de nada.

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A Gaffe de Rui M. Pêgo

rabiscado pela Gaffe, em 15.06.16

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A Gaffe está preocupadíssima com as declarações de Rui Maria Pêgo que com certeza o levarão à prisão.

 

Esta rapariga ainda tem presente o choque que foi ver os arguidos da Casa Pia - nunca tendo admitido os crimes de que foram acusados, - condenados a penas horrorosas, e depara-se com esta revelação absolutamente arrepiante.

Rui Maria, num emotivo depoimento relacionado com o acto bárbaro de um bipolar, diz - e a Gaffe vai transcrever porque não consegue escrevê-lo com palavras suas:

 

Coincide gostar de meninos.

 

Uma questão se coloca, logo após um Valium:

Qual é a coincidência entre a perigosíssima revelação do catraio e o massacre causado pelo psicopata?

É bem verdade que Malato escapou ao atentado de Paris porque a tinha visitado na véspera e já lá não gargalhava. É certo que Catarina Furtado não faleceu logo ali, porque teve a sorte de estar a centenas de Kms do local. É exacto que Rita Pereira não explodiu, porque se encontrava algures a preparar a forma de mostrar o rabo e a Gaffe, em pessoa, não morreu no local, apenas porque estava a cozer um polvo no Douro. São coincidências estranhas, mas palpáveis apesar de tudo. Agora gostar de meninos só pode coincidir - e mesmo assim ao longe, porque estas coisas causam imenso medo - com as buscas da PJ aos computadores suspeitos de pedofilia.

 

Rui Maria, querido, o menino devia chamar os bois pelo nome e não recorrer aos vitelinhos. O menino gosta é de homens e embora seja um facto que leva a Gaffe a trocadilhos foleiros - o menino é gay e eu cagay - fazer coincidir esta pequenina privacidade com o massacre psicopata no Pulse é ligeiramente imbecil, não é, meu amor?

 

Vá, Rui Maria, porte-se como um homem.

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A Gaffe sonhada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.16

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Como adormecem os sonhos quando não há histórias de embalar para lhes domar a vigília? 


Será que pousam a cabeça no meu colo e se deixam tocar pelos meus dedos, ou, com o meu sono nos braços, mordiscam o cansaço de se ser eterno e cabeceiam a eternidade que é apenas a avenida lançada sobre mim, que acabo sempre no começo da espera? 


Adormecer com sonhos é como ter o mar dentro da cama. Não basta ter navios. É preciso que saibamos onde estão os portos e os exactos lugares onde chorar é forma de prender amarras.
Depois, é só unir a bússola às estrelas e transformar as lágrimas em velas.

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A Gaffe perneta

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.16

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A minha irmã afasta do olhar uma madeixa de cabelo e brinca com o brinco.  
Observa-me em silêncio. Um silêncio de pernas cruzadas e baloiçar de pé. Depois dispara. 
- Vais jantar comigo, hoje. Quero saber tudo… 
Não há nada de novo ao Sul do Equador! Apenas cansaço.
- Minha pobre menina  - cicia, - nunca tentes esconder geografias aos autores dos mapas.  
Não tento. Sou um ponto invisível marcado nas cartas abertas na mesa.  


A minha irmã não é pontual. Cuida dessa melíflua característica como se ela fosse apanágio das mulheres mundanas e, quando se vislumbra a possibilidade de chegar a horas, a minha irmã arranja modo de retocar pestanas, o que, como é sabido, atrasa os aviões.  


Entro sozinha no apartamento asséptico.  
Uma jarra vazia e sofás desertos. Branco e platina. Cinza e metal e a palidez das coisas que ficam sozinhas, que dormem o sono do que me parece o não habitado.  
Procuro a cadeira mais desconfortável. Não quero adormecer dentro de universos que não são afáveis e se me afogar nas almofadas grandes, exausta, desmaio.  
A cadeira que escolho deve ter um nome. Quase todos os móveis ali o possuem. É um desconforto de espaldar erguido e assento que cede quando lá me sento.  
Pouso os cotovelos nos joelhos, seguro a cabeça com as mãos e não penso em nada. Às vezes sou muda cá dentro e sou cega e sou surda.  
Sinto o meu tronco tombar para a frente sem dono e sem dó.

 

E adormeço.


Acordo depois em sobressalto com a minha irmã a chamar por mim. 
Já não tenho pernas!  
Deixei de as sentir. As duas! As duas! As duas!  
Não me sei mexer. Não me sei mover. Não sinto, não controlo, não percebo, não tenho a noção das pernas que desapareceram durante o meu sono!
Não sei bem se tenho de desatar a rir ou se deva antes desfraldar o pânico, mas parece-me bem a segunda hipótese.  
Tento levantar-me e sinto formigas a trepar pelas coxas depois de já terem invadido o resto e mordido os pés, escavacado tudo, loucas, destravadas, pequenas e más. 
Tento levantar-me e as pernas não querem. Num esforço aflito impulsiono o tronco e com o aparato de torre a cair, desabo no chão.
Eis-me deposta, despojada, destronada, humilhada e abatida, de nariz no soalho a mirar sem honra os sapatos altos da minha irmã chegada.
- Devia ter-te dito que a cadeira é usada apenas para sentar os homens que quero depois rojados aos pés.

 
Há sonos que são humilhações sem pernas para andar.

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Gavetas:

A Gaffe sem palavra

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.16

703.jpgAdormeceu.  

É fascinante o modo como respira! Como um sopro de pássaro a voar rasante sobre uma planície.  
Tem a boca carnuda como um fruto de Verão e esculpida grossa e encorpada. Na nudez completa o essencial agora é o desenho desse espaço imprescindível para mim, que ignoro o corpo que resta.  


Há palavras que não dizemos, porque no silêncio as ouvimos soar dentro da alma e porque todas as sílabas nos chegam decepadas, como se no caminho que vai da alma onde soam, à boca que as diz, tudo se perca e se abram flores de carne inúteis e incompletas.  
Nunca lhe disse que o amava. Nunca! Mesmo quando na boca o sabor a mel e a pólen se vem misturar com a saliva. Mesmo quando na boca carnuda que adormece e vejo adormecida, o respirar cadenciado não é mais do que a palavra que não digo.

 

Nunca lho disse e digo-o tantas vezes em sussurro às coisas e às gentes com que cruzo!  
Dizer que o amo, seria como disparar uma armadilha, ouvir silvar as balas, quebrar ondas do mar só com os dedos, deixar que lírios tombassem sobre a cama e inocente morrer depois desprevenida e nua sobre a nudez perfeita da Verdade. 
A minha ausência de voz neste sentir possível, talvez seja a certeza do que tenho na alma a esvoaçar pairando sobre a boca adormecida e medo de a acordar e não sentir mais nada.  
Quando ele acorda e traz do sono ainda a névoa dos que sonham acordados, ouço a palavra que nunca lhe entreguei presa na boca carnuda e desenhada a prumo e acredito nela como se ela fosse terra ou mar ou um pedaço de pão pousado na toalha do meu peito, mas da minha boca apenas se desdobra um beijo.

 

Agora adormeceu e perto do desabrigo da nudez, na minha boca amadurece, sem que ele a veja, a palavra que nunca lhe direi.

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Gavetas:

A Gaffe sessentona

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.16

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Philippe Dumas tem sessenta anos e é um dos mais recentes modelos internacionais cuja carreira teve início quando - depois de nunca ter exercido advocacia e no momento em que fica desempregado em 2015, abandonando um morno caminho de publicitário, - decide deixar crescer a barba, contra todas as opiniões do seu círculo de amigos.

Surpreendentemente – ou não – Philippe Dumas é descoberto pelas agências que se movem no cerradíssimo campo de batalha dos desfiles de moda já prestigiados e é apresentado com o charme, a sedução, a elegância e a maturidade que são manifestas. Num espaço de alguns meses consegue que a Hufftington Post o considere l’homme de soixante ans le plus sexy du monde.

A Gaffe concorda.

 

É uma perfeita tolice declarar que a vida começa aos 30, aos 40 ou aos 50!

A vida começa quando decidimos e conseguimos ignorar a plateia.

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A Gaffe trágica

rabiscado pela Gaffe, em 11.06.16

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Era um homem lindo!
Depois escreveu lembrastes-te que promete-mos.

 

Foto de Philippe Halsman - Marilyn Monroe

 

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Gavetas:




Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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