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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe czarina

rabiscado pela Gaffe, em 10.06.16

Clement-Chabernaud-Vogue Hommes International.jpgA Gaffe, como seria de esperar, é demasiado exigente com a beleza masculina. A exterior, que a outra, outras paragens requer.

Aguarda, nos rostos e nos corpos dos homens, histórias que a levem e que a pasmem. Espera por cenários e por palcos, por cortinas e fossos de teatro, por soluços de palavras ou de risos, por ofuscantes brilhos ou por baços e tristonhos traços de tragédia.

Belíssimo é o homem que lhe desperta histórias, que lhe oferece de forma impoluta e clara e inocente, pássaros de ópera ou de burlesco, que a leva para dentro de outro espaço apenas por olhar, ou por andar, ou por mover os dedos, por sorrir ou por trazer nos olhos personagens de densos argumentos de romance.

 

Tomemos o homem de quem tem saudades como exemplo.

 

É demasiado alto e tem olhos de chuva e anoitecer, de acidulado negro, como quando o frio queima a cor de árvores secas. Tem mãos morenas e demasiado grandes, boca desenhada por compassos e tem no corpo o ondular dos tigres.

Há quem se atreva e diga que talvez este homem seja bonito apenas!

Mas arrasta com ele histórias russas. Paisagens de czares a lançarem no chão nevado as capas de veludo e zibelina e cúpulas de bronze e luas de oiro puro. Faz lembrar as noites de São Petersburgo, quando oficiais do império russo retinham as carruagens geladas às portas dos palácios e silvavam tiros e punhais de regicídios. O resguardado, o que está oculto, erguendo a lenda de príncipes das estepes sem memória.

É avassalador. Belíssimo!

 

A beleza masculina conta sempre histórias. A da mulher pode bem ser muda. 

 

No entanto, A Gaffe não desdenha os que lhe recordam figuras de cordel. Basta que os fios que os prendem tenham nós que, cegos, se cruzem e baralhem nos seus dedos.

 

Na foto - Clement Chabernaud

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A Gaffe de esticão

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.16

O calor abrasa!

 

O desejo de mar começa a refrescar os destemidos, mas praia e ruivas são duas entidades incompatíveis.

A pele das segundas é atingida pelo sol da primeira e as sardas, essas pintas amaldiçoadas, afloram à flor da dita pintalgando-a e enferrujando-a.

 

É evidente que a Gaffe jamais conseguirá apresentar o deslumbrante bronzeado de capa de revista. Talvez por isso se dedique, à sombra de uma esplanada qualquer, beberricando o calor e a indolência, à observação dos garbosos rapazes que mergulham nas excelsas ondas do seu tédio.

É curioso vê-los sair do mar, como tritões aflitos, tentando afastar da pilinha - ou da pilona, dependendo a escolha do substantivo do tamanho do tritão - os calções que, de molhados, se colam despudoradamente às suas pudicas reservas.

 

Esta manigância apudorada repete-se com as meninas que, fora da praia e em qualquer estância, usam umas saias microscópicas, normalmente demasiado justas, geralmente inúmeros números abaixo do aconselhável. Levantam-se esplendorosas e, com um movimento de braços pouco subtil, arrastam a bainha para os joelhos correndo o risco, tamanha a força do esticão, de arrancar também o soutien.

 

Não é de todo agradável.

Não é sequer muito feminista.

 

Compreende-se a sensatez e o acanhamento do rapaz que tenta impedir que toda a gente conheça os contornos das suas mais íntimas e ensopadas quinquilharias, mas é irritante o gesto da menina cujo objectivo é o de exibir as suas bugigangas, óbvia e declaradamente.

 

Raparigas, a única peça que devemos puxar como se viesse o demo atrás de nós, é aquela que se solta, destruindo-nos a pose por completo, quando tentamos imitar a sereia dos cânticos mais quentes. É aquela que a Gaffe sentiu nos tornozelos a esbardanhar-lhe os passos sobre a areia breve, depois de um mergulho arriscado na maré mais brava: a parte de cima do biquíni, o famigerado soutien.

Quando este maldito se descai, não adianta disfarçar o embaraço. Ou trazemos do mar umas algas coladas às maminhas ou apanharemos um cavalheiro qualquer a separar os calções do seu sargaço comprometedor.

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A Gaffe patareca

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.16

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Donald Fauntleroy Duck faz hoje 82 anos.

(Convém ir visitá-lo. Afinal, nem todos os velhinhos são para esquecer.)

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Gavetas:

A Gaffe fofinha

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.16

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De modo a que jamais se diga que estas Avenidas não consubstanciam um blog fofinho, doce, repleto de minúcias ternurentas, a Gaffe decide publicar o seu primeiro gatinho.

Vá.                     

Já podem dizer agora que a ternura também nos chega de lugares inesperados.

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A Gaffe ruminante

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.16

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A Gaffe está confusa!

Para que esta rapariga fique em tal estado é necessário que os pequerruchos cataclismos que acontecem estejam dispostos a abrir brechas no quotidiano organizado desta estrela.

 

Foram três os momentos que a deixaram perplexa e que, de certo modo, se entrelaçam.

 

Escalpelizemos.

 

Um hotel no belíssimo Minho - não esquecer que o rapagão brotou desta província - interdita o alojamento a uma quantidade de pessoas provavelmente fáceis de identificar. Entre os párias, encontram-se os adeptos de futebol e os casais do mesmo sexo.

 

Proibir a entrada a adeptos do nobre jogo, a Gaffe não entende e não aceita. São moços que ajudam imenso na redecoração dos espaços por onde passam. São uma espécie de Querido, mudei a casa sem a parte final - que também não é digna de registo.  

Contudo, depois de ter visto a foto do pobre Passos Coelho com um sorriso roxo, ladeado pelo Lorenzo e pelo Pedro, esgrouviados e tresloucados, contaminados por uma alegria pipilante originada pela proximidade deste paladino da causa gay, acredita que também não os deixava entrar em lugar que possuísse.

A Gaffe compreende que Passos Coelho se tivesse sentido na obrigação de satisfazer o desiderato dos dois rapazinhos, tendo em conta que são os únicos, para além dele, a acreditar que é Primeiro-Ministro, mas já não consegue esforçar-se quando lhe é proposta a desculpa dos moçoilos. Nada de jornais, nada de TV, nada de informação escusada. O Youtube preenche-lhes as vidas e estão a remodelar a cozinha. Ou seja, eles é mais bolos.  

 

 A Gaffe vai citar os petizes:

 

Nós estamos a construir uma nova cozinha, gravamos vídeos todos os dias, estamos a desenvolver novas receitas e estamos a preparar vídeos com organizações mundiais sobre igualdade e direitos LGBT. Nós não vemos televisão, não ouvimos rádio e, acima de tudo, não lemos jornais. Eu sei que devíamos, pelos menos, saber quem é o nosso primeiro-ministro, mas, honestamente, nós somos dois miúdos com 26 anos, somos estúpidos, somos malucos e não temos estado informados sobre o o nosso país e sobre as políticas. Pedimos logo a seguir desculpas a todas as pessoas.

 

A Gaffe aplaude neste caso o senhor que é dono do hotel minhoto. Não aplaude de pé, porque existe aquele problemazito dos adeptos da bola equiparados a estes dois burgessos. Os amantes do rectângulo verde, como diria Ribeiro Cristovão, são ‘ssoas - Olá, minha querida amiga! - que não hesitam! Manifestam de forma clara as suas convicções e são capazes de destruir ruas e tabernas, nunca descurando a vertente educacional, civilizacional, destas acções. Não são, de todo, como o senhor armado em choca que desatou a despir a t-shirt numa arena onde se enfrentam e massacram animais belíssimos, quando há pouca coragem para enfrentar na vida os bichos menos magníficos das nossas outras fraquezas e inseguranças. Há que sublimar! Tenhamos presente que é igualmente mauzinho obrigar os toureiros a usar o traje de luces que lhes esmagam sem dó as naturezas mortas. Um adepto da bola quando invade o campo, despe as cuecas também e é por norma muito mais musculado. Uma alegria ver, sobretudo sabendo que não vai ser colhido depois por vários tractores e outras escavadoras vestidos de Ordem e Lei.

 

A Gaffe fica sempre confusa quando dá conta da quantidade de indispostos que grassam por esta aldeia dentro a propósito destes pormenores, porque, meus caros, indignações destas são como as chocas: sentam-se a ruminar nos rectângulos verdes das nossas vidinhas umas ervitas arrancadas ao facebook.

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A Gaffe esclarecedora

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.16

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A Gaffe pensa que quando um político esclarece uma declaração anterior, isso geralmente significa que o público a entendeu bem demais.

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe ceramista

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.16

A cerâmica portuguesa tem pequenas manigâncias que deixam a Gaffe perplexa.

 

Na cozinha antiga, nas paredes de pedra, há anos velhos que existe um prato vidrado, de bordo florido de azul-cobalto, onde sempre se leu:

 

Não fiques com tanta mágoa

Que tu por casar não ficas!
Segue o conselho: bebe água

Na fonte das duas bicas.

 

A Gaffe confessa que sempre considerou a mimosa quadra um bocadinho perversa. Um incitamento à uma loucura bastante condenável na época que deu brilho à redonda insinuação e, simultaneamente, uma belíssima demonstração de abertura e de uma certa lassidão de costumes, sem os preconceitos em vigor.

 

Poderá, em contrapartida, ser de uma inocência filosófica incapaz de penetrar na endurecida marotice desta rapariga destravada, embora a hipótese se torne vaga perante o piscar de olho travesso da velha e sabida cozinheira.

 

Seja como for, a Gaffe nunca compreendeu de modo claro o alcance do conselho azul e pérola e talvez por isso sempre a tenha irritado o duvidoso alvitre.

 

Decidiu portanto remodelar a decoração, cravando na parede o que nos tempos que correm significa basicamente o mesmo.

 

Uma rapariga tem de acompanhar o século em que vive.

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Gavetas:

A Gaffe com os seus botões

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.16

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Creio que todos temos na alma um pequeno botão - imagino-o vermelho, - que se tocado faz iniciar a nossa muito particular autodestruição. Desconhecemos onde está situado e por isso tacteamos quase cegos tentando que os nossos dedos não encontrem a imperceptível pressão que nos levará ao fundo ou a implodir desfeitos em poeira.

 

Somos assustados resistentes sem a consciência da ameaça, mas atentos, instintivamente atentos, à procura da sobrevivência.

 

Se tocado, o botão desencadeia o abismo.

 

Esbracejamos como náufragos e como náufragos agarramos a fúria de pensar que fomos e estamos inocentes. Tentamos respirar através da culpabilização dos outros. É o nosso pedaço de madeira a flutuar.

 

Só os Grandes, os que não trazem medida, os que não usam conta-gotas na alma, se apercebem do início do precipício e assumem a consciência do próprio pecado. Sabem que são os únicos responsáveis pela derrocada e retiram os outros das falésias antes de morrer. Ilibam os outros.

 

Desfazem-se depois, mas sem poeira.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe sem correntes

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.16

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Informam-se as criaturas que me mandam por mail as chamadas correntes que não devo quebrar reenviando-as para uma data de amigos, que ainda não me caiu a vida em pleno palco por as ter apagado a todas. Gostava que soubessem que não adianta muito terem o incómodo e a boa intenção de me fazer feliz se reencaminhar a balela a dez inocentes e que não há gente desempregada ou que não é surpreendido pela fortuna só porque quebro desavergonhadamente estas coisas, sim?

 

Não mandem mais! É uma pena atirar as pérolas a esta rapariga. A menina não gosta de bolinhas de plástico.

Por agora é tudo.

 

Não metam também o dedo no nariz enquanto passam por aqui para ler estas inutilidades, porque se percebe logo que andais a vaguear por sítios esconsos em vez de reler o Eça.

 

Vá.

Avisem dez amigos. 

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A Gaffe amuada

rabiscado pela Gaffe, em 03.06.16

René Gruau.jpgA Gaffe está profunda e soberanamente furiosa.

De modo profundo, porque a superficialidade nestes casos, e por estes lados, só serve para fazer sombra aos Prada e aos Valentino da mana.

Soberanamente, porque é sempre aconselhável manter visível o lado aristocrático da fúria.
Tudo porque foi picada por uma abelha tresloucada, no ombro esquerdo!

 

O monstro entrou zunindo no seu gabinete e aproveitando a sua mais inocente distracção penetrou-lhe na blusa aberta, revistou-lhe o soutien e decidiu, já com a Gaffe aos pinchos, depositar veneno no início do ombro claro e perfeito.

 

Morreu. Ninguém até hoje picou esta rapariga impunemente. 

 

É claro que ganiu! É evidente que se foi queixar! É lógico que ameaçou despedir-me! É mais que sabido que pediu uma ambulância e é coisa assente que só podia ser tratada pelo rapaz da manutenção!

O moço chegou, esfregou nas calças de sarja a aliança que trazia no dedo anelar esquerdo e, com ela quente - a aliança, - encostou-a àquilo que seria uma eventual chaga medonha e dolorosa no ombro de alabastro da magoada.
Saiu depois com um sorriso fresco.

 

Como é evidente, estes acidentes e incidentes enfurecem.

Como se não bastasse ser picada, também tinha que descobrir que o rapaz se casou sem a Gaffe saber primeiro e antes de o ter convencido a provar o mel doutras paragens.

 

A Gaffe decidiu ficar amuada o resto do dia.

 

Ilustração - René Gurau

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Gavetas:

A Gaffe de Junho

rabiscado pela Gaffe, em 02.06.16

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Um Horror!

Anda uma rapariga completamente convencida que entrou no mês de Junho e chega-lhe de tudo quanto é blog prestável e prazenteiro a informação de que estamos no mês de Junho.

 

Uma criatura já não pode confiar no calendário!

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Gavetas:

A Gaffe ocupada

rabiscado pela Gaffe, em 02.06.16

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Depois de cirandar por todo o lado, a Gaffe decidiu trabalhar um bocadinho.
Um martírio, tendo em conta que quem ambiciona mostrar a folha preenchida à custa do esforço alheio tem usar uma ou outra artimanha.

 

A Gaffe explica:

 

Se não gostamos, temos de ter o cuidado de arrasar por completo aquilo sobre o que opinamos. Com meia dúzias de frases que só com um dicionário, várias enciclopédias e muita paciência se conseguem decifrar. Temos de dar o ar de que não valeu a pena perder tempo com aquilo, que sentimos que ficou muito por dizer e, claro, que o que é dito e o que foi omisso, já nós o sabemos há imensos anos. Um ar amargo, azedo, cheio de referências eruditas e de algumas citações, não fica mal e convence.

 

Se gostamos, é tudo um bocado mais complicado. Temos de primeiro arranjar matéria para odiarmos e passar ao ataque com os métodos que já referi. No meio, enfiamos um ou outro elogio ao que nos agradou, mas sem exageros, para ninguém pensar que nos babamos com as surpresas ou com o talento alheio.

 

Não nos podemos é esquecer que tudo tem de ser áspero, amargo e se possível revoltado com a ignorância do povo. Funciona sempre e há sempre uma data de idiotas a achar que somos intelectuais amarguradas que comunicamos com deus e não achamos grande piada ao tipo, muito simplista e adepto do maniqueísmo.

 

Funciona muito bem, sobretudo quando somos um catedrático saponificado que supervisiona uma rapariga esperta, mas sem paciência para o aturar.

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A Gaffe de Assunção Cristas

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.16

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A Gaffe, ao contrário do esperado, não se vai pronunciar acerca das declarações de José Cid, não só porque pensava que o senhor já tinha falecido, mas também porque foram proferidas há tanto tempo que os transmontanos atingidos já se foram todos desta para melhor, sendo possivelmente substituídos por garbosos jovens com dentaduras intactas. O rapaz não tem culpa de apenas agora ter chegado a informação ao lugarejo.

O meu querido José Cid devia arejar de quando em vez a careca, dando descanso ao rato morto que a encima. Ficava tudo resolvido.

 

No entanto, o que traz aqui a Gaffe é também uma outra boca infeliz.

 

A de Assunção Cristas.

 

A Gaffe assistiu, não sabe bem porquê, ao habitual debate Parlamento/António Costa e admite que se comoveu perante a visão de Passos Coelho numa versão a puxar a sardinha para a nobreza - sem se perder o aroma da dita, - de primeiro-ministro em exílio, mas tem de reconhecer que o que mais a impressionou foi ver a sua querida Cristas a deslizar como se tivesse substituído a língua por patins.

Cristas faz jus à expressão tão transmontana em cada pedra, minhoca e cada calhau que atirava tinha apenso um anelídeo de sua lavra e cuidado que António Costa tinha o prazer de lhe arremessar de volta. Cristas acabou coberta de material que chegava para adubar a lavoura do seu mimoso antecessor.

 

A Gaffe perdoa. A inexperiência é pau para toda a colher - diria Trás-os-Montes, - e a radiosa senhora ainda só teve tempo de amarrotar o tailleur no asseado carro do Partido, sendo-lhe ainda esquivo o funcionar de geringonças.  

 

Perdoada que estava e já airosa, Cristas desgosta-nos de novo alvitrando a hipótese de ver fechadas escolas públicas em vez do não financiamento das privadas ali mesmo ao lado.

 

A Gaffe não entende!

 

Então anda uma pessoa de bem, vestida de amarelo, a fazer figuras Ferrero Rocher, a segurar panos por assinar, sem costuras em condições, a andar a pé, sempre em prol da pequenada, e quem é da casa coloca a hipótese de trasladar os pretos, os ciganos, os refugiados, aqueles miúdos que ainda trazem coisas em papel, os de leste onde há imensa gente por tratar, os chineses e os indianos pobres - e os outros, aqueles que chegam de países em vias de extinção, - os magrebinos que se vestem mal, os pequenos com défice de atenção - digamos assim, porque não somos desumanas e temos imensa pena - e os piolhos, para dentro dos nossos lares?!

 

Minha queridíssima Assunção, isto não é a casa da mãe Joana como poderá ainda hoje retorquir-lhe um transmontano.

 

A boca pode ser uma armadilha, meus queridos, mas há que ter cuidado para que quem nela tomba não ser quem a constrói.

 

Ilustração - Jlillard

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A Gaffe adolescente

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.16

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Encontrei o meu olhar de anjo inocente e ingénuo que fica muito próximo, quando o vejo reflectido nos espelhos, do mais sacana dos olhares de caça, à porta do Clube Siècle em Paris. 

 

Preocupada, sabendo-o sem carro, a minha tia suplicava que fossemos esperar o reservado esposo e o acompanhássemos a casa são e salvo. O pretexto - se fosse necessário para estas incursões pela noite dentro, - seria o melhor e o mais abnegado.  


Não tínhamos permissão para entrar. Fechavam-nos cá fora. Ficávamos na rua soltas e com frio, à procura de risos e de lume. 
O jogo que encontramos para empatar a espera tinha no corpo aquela sinuosa inocência que roça levemente o que é perverso, mas que se agarra sempre à cândida ingenuidade das meninas. Escondiam-se umas das outras e uma apenas uma, encostado à noite mimava uma Lolita.

 
Esperávamos a saída dos senhores reservados e potentes como grandes e pesados animais de pântano e de charco e, muito aplicadas dentro dos papéis ou do que deles imaginávamos ser o que era o certo, jogávamos a sedução, esperando aquele que nos daria os pontos elevados e que, dizia-se, ser Bispo e muito digno. 


De todas, fui sempre eu, a mais novinha, a vencedora. Das raparigas mais adultas nenhuma chegou a reunir os instantes necessários para tal. Perdiam sempre, presas a uma ineficácia desgraçada e uma inaptidão confrangedora.  


O meu jogo era o do olhar.  


Aprendi a construir a perigosa e insondável inocência de Lolita e os meus olhos decoraram os textos do insidioso abismo da candura, adivinhando o cio paquidérmico. 


Nunca à porta do Siècle eu vislumbrei o Bispo. Com dezasseis anos acertamos de preferência nos acólitos.

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Gavetas:

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