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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por ele

rabiscado pela Gaffe, em 30.11.17

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Dormes e eu fico.
Na asa do nariz tomba a pena pluma da pestana.
Dormes e eu fico a velar a queda.
Depois já é manhã.

 

Foto - Ata Kandó

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Gavetas:

A Gaffe errada

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.17

Erro

 

A propósito do deslize cantante referido no post anterior, em que se anota a flexibilidade oportuna do acto de se ser solidário quando aliada ao jogo onde a carta do politicamente correcto vale mais que o Ás, recebi um comentário anónimo - que me apraz não permitir que se deposite nestas avenidas, tendo em conta que de cocós por apanhar já anda o mundo exausto -, exercendo sobre as minhas débeis e diáfanas vestes, uma violência digna de carrasco de Revolução Francesa - ou bolchevique, que não sou esquisita.

 

O douto conjunto de parágrafos recebidos informa-me que os erros são humanos.

Nada a opor.

Errar é humano. Às vezes até é divertido. Volta Tony, que estás perdoado.

 

No entanto, a versada anónima - refere-se no feminino - reporta-se aos erros semânticos, morfológicos e sintácticos que, como declara sapiente, são comuns aos grandes génios da literatura universal, apanágio do cânone literário, acervo da Grande Biblioteca e comuns, banais, vulgares em cada página que folheamos, não raros em Camilo, Eça, Nobre ou Pessoa, passando por Saramago ou Agustina e lobrigando os outros com o tamanho do que avistam.

 

Aqui - e sem qualquer remoque à condição da comentadora - é que a porca torce o rabo.

 

É evidente que toda a gente sabe que os manuscritos de Pessoa estão pejados de erros ortográficos, que existem incongruências na obra de Agustina, que Saramago desobedece a normas gramaticais, ou que Lindley Cintra tem uma apoplexia na frente dos erros de Lobo Antunes e de outros tantos génios literários.

O que os distingue é exactamente esta última palavrita. A genialidade. Os autores referidos - e outros que se omitem por preguiça -, usam as palavras usadas, gastas, velhas, carcomidas, quotidianas, banais e corriqueiras, na construção de frases nunca ouvidas, nunca lidas, maravilhando-nos com a força descomunal com que conseguem mudar-nos a vida. Operam milagres com a palavra. A arrogância, a teimosia, a inflexibilidade do ne varietur, a displicência com que o erro é acolhido, a insolência com que brindam a falha cometida, o desprezo com que embebem toda a correcção, são diluídos pelo demonstrado e comprovado conhecimento profundo da língua, das suas potencialidades semânticas, do seu acervo vocabular, das suas produções passadas e sobretudo da consciência da grandeza da obra que nos entregam. Não deixam de ser erros, não deixam de ser desvios ou transgressões à norma gramatical em vigor, mas, nestes casos, para lá da língua, existem constelações, galáxias, universos inteiros de personagens, de espaços, de tempos e de acções que de tão densos e incontáveis e perfeitos lhes entregam a possibilidade de ruptura com a regra e que nos exigem a humildade de nos calarmos perante o que não sabemos.

As opções linguísticas, as voluntárias escolhas de fonemas e de grafemas, as infracções às regras, ou as transgressões metalinguísticas ou paralinguísticas destes génios, não nos permitem a ousadia e a falta de vergonha de nos ilibarmos dos erros que vamos grafando, não nos justificam as calinadas, não nos autorizam a espalhar cocós naquilo que tentamos rabiscar. Não nos ilibam. Não nos abrigam.

 

Sei que provavelmente vou causar um desgosto imenso a todo o planeta, mas sinto-me na obrigação de dizer que não sou perfeita.

Dou erros.

Comprovo-o, para acalmar os que duvidam:

Uma mulher qualquer, há tempos que já lá vão, num blog entretanto falecido, transcreveu na integra um rabisco meu assinalando a vermelho - como mandam as regras do bom mestre-escola -, os erros que tinha cometido.

Apesar de não consubstanciarem descalabros, pois que se relacionavam com concordâncias mal efectuadas – do rapariga, ou do estações -, não deixavam de ser erros. Humildemente, pacatamente, envergonhadamente, corrigi. Não tive a coragem e a hombridade do meu querido amigo que ao se dar conta, semanas passadas, que tinha escrito iminência no título de um post, apagou irreversivelmente o blog, mas temi pela minha sanidade intelectual e corei de embaraço. Não me justifiquei com a sombra da ilusão patética de ser livre de amarras como Saramago, ou de ter o privilégio de adaptar grafias como Lobo Antunes. Tenho consciência da minha irrisória pequenez e sei, com a certeza da morte, que é vil e mesquinho o que vou debitando, unindo palavras. Não tive a desvergonha imbecil de me aproximar dos pés dos génios, clamando e reivindicando a liberdade criativa, a disrrupção linguística, a transgressão ortográfica, que os seus desmesurados talentos ousam permitir.

 

Limitemo-nos a cuidar com desvelo e atenção, o melhor que soubermos, do quintalzito que nos coube em sorte, porque declarar - do alto de um post muito baixinho - que os nossos erros ortográficos se abrigam debaixo do mesmo telhado daquela liberdade que é apanágio da genialidade literária, é o mesmo que ter um burrito a zurrar até ensurdecer, apenas porque ouviu nas torres do palácio, no meio das orquestras, um Dó menor a mais.

 

Meu caro anónimo, o Memorial do Convento não é um post.*

 

Pode não se validar o contrário.

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A Gaffe com um sonho de menino

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.17

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Há homens que nos apetece muito enfiar na mala de um carro e deixar numa esquina de um sítio qualquer. Num lugar pardo, abrir a porta e com toda a força dar-lhe um empurrão. Depois acelerar, fugir, deixá-los ali ao frio e à fome.

Encontrá-los meses depois desfeitos em cançonetas, com um passarito ao lado, aos pulinhos, debicando as mais doces e as mais inúteis, envenenado de uma forma lenta, necrófago minúsculo, paradoxo de penas lambuzadas.

 

Há homens assim e passaritos também.

 

Surge um deles embrulhado na oferta de vinte mil euros às vítimas dos incêndios se em contrapartida lhe forem retiradas as acusações de plágio que lhe pesam no repertório, evitando desta forma o julgamento. Questionado acerca da insidiosa, enviesada e sacana proposta, declara que a solidariedade sempre foi sua marca distintiva, que sempre fez o bem quando em causa estavam os mais necessitados.

 

- Fiz e farei-o de novo - afirma com garra.

 

Um homem que fala assim, não plagia.

 

Ilustração - Peter de Sève

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A Gaffe migrante

rabiscado pela Gaffe, em 27.11.17

e agora sei lá

 

Maravilho-me sempre que leio as memórias da MJ.

 

A serra, o frio, a alma nas mãos de quem amou na lonjura do tempo, os bichos pequenos, os bichos mui grandes, o grito do galo a acordar a manhã, a lareira, o quente, os livros, a tristeza bordada a felicidade, um gato gordo, a luz da vela, o medo do escuro, a lua, a chuva, o caminho que vai até à infância, o ermo, o grito do grilo no meio do nada e a insegurança de uma menina que desconhecia que ao crescer me entregaria o orgulho de saber que gosta de mim.

 

Foram estas encantatórias narrativas de infância que me fizeram acreditar que, mesmo raparigunha perdida e pequenina, a MJ era a única menina que conhecia o trilho dos mágicos. O caminho por onde passa a caravana da magia, a insustentável leveza do feitiço do Natal das criaturas mais secretas do Universo, os minúsculos cristais de neve que tombam na ternura e que a transformam em palavras nas margens da memória.

 

A M.J. sabia do trilho dos mágicos. De outra forma não me saberia desvendar a marca dos passos das migrações da vida.

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A Gaffe com Manhattan nos pés

rabiscado pela Gaffe, em 27.11.17

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Esmaguem-me, chamem-me retro, acusem-me de anacronismos, atirem-me à fogueira das vaidades, enfiem-me numa cela de convento, mas não me digam que não matavam, minhas queridas, para ter nos pés estes sapatos e aos nossos pés assim calçados, esta Manhattan de outros tempos.

 

Manhattan - Novembro de 1950

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A Gaffe activista

rabiscado pela Gaffe, em 24.11.17

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É tão engraçado, muito para além de se tentar entender a insanidade com que o Black Friday é brindado, descobrir que a origem deste esgrouviado comportamento consumista teve lugar exactamente no seu oposto - Buy Nothing Day, ou Occupy Xmas.

 

Neste contra-ataque, o participante tem apenas de passear pelas montras, empurrar carrinhos de compras vazios - os passeios zombies -, destruir cartões de crédito em público e em festa, ou mesmo caminhar pelas avenidas do dinheiro gasto outrora com crianças e balões e fitas coloridas. Tudo muito mimoso. 

Nada se pode comprar.

O dinheiro é anulado e substituído pela liberdade que é não se ser impelido a gastar.

 

A iniciativa partiu de Ted Dave, do Canadá, em 1992 e torna-se viral - sou moderna! – a partir do momento em que a revista Adbusters Magazine a promove.

A reacção não se fez esperar.

É evidente que os críticos ridicularizam a comemoração deste apelo ao não consumo, classificando-o como uma espécie de gesto vazio, um modo enviesado de se fazer com que os consumidores mais pobrezinhos não se sintam mal, não tendo qualquer impacto discernível na economia global ou no sentimento do consumidor tido como um todo, provocando mesmo um acentuar das clivagens de classes, tendo em conta que o consumidor mais poderoso não irá, no dia seguinte, deixar de comprar o que deseja com ainda mais vigor e motivação, arrastando e denunciando a notória distância que o separa dos que com menos poder de compra tornam o Buy Nothing Day uma constante.

 

Admito que não simpatizo com qualquer uma das iniciativas, embora esteja mais inclinada para desandar hoje pela rua de balão na mão, sem olhar a montras, mascarada de activista do não consumo. 

 

Uma rapariga esperta sabe que o melhor dia para se comprar nos saldos, é a véspera.

 

Na foto - consumidores envergando o uniforme Black Friday - porta do El Corte inglês

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A Gaffe de M&M

rabiscado pela Gaffe, em 24.11.17

 

Uma mulher pode parecer escandalosamente ingénua e sensual ao mesmo tempo, basta que também pareça que acabou de sair de uma batalha. Então, como diria Mae West - uma rapariga esperta e experiente -, será excessivamente boa e ser-se boa em demasia é maravilhoso.

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A Gaffe de Monet

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.17

F. Vicente

Li, há tempos que já lá vão, um Tratado do Riso.

 

Um livrinho que não me despertou especial interesse e que não deixou rasto do autor. Não era com certeza um dos clássicos que sobre o riso deixam tombar a negritude pesada das suas reflexões, porque recordo que o considerei passível de ser lido enquanto se espera pelo avião.

Apesar do facto, a obra não deixava de ser curiosa, enumerando com algum afinco, segundo o autor, as razões que originam o riso, apontando - entre tantas e muitas -, o engano, a desconformidade, a deformidade, a dissonância, a desarticulação do real, o equívoco, as ocorrências que se deslocam da norma a que obedecemos e as situações que embora dissemelhantes são assimiladas como idênticas e lidas como consequentes, ocasionando o mal-entendido.

 

Admito que nunca me aproximei das razões que originam o riso. Prefiro vivê-lo sem razão. No entanto, a fantástica rapariga aqui ao lado espicaçou-me a curiosidade, provocando o meu encontro com a maldade que é sempre susceptível de provocar o riso.

 

Rimo-nos sobretudo do mal. Invariavelmente. Do mal feito, do mal acabado, do mal compreendido, do mal formado, do mal comportado, do mal educado, do mal elaborado, do mal explicado, do mal controlado, do mal conduzido e de todos os males que a vida produz. Rimo-nos de nós, que estamos errados. Suponho que o riso funciona em todos estes casos como escudo protector e mesmo o reconhecimento - risível, ele também - do erro, seja ele qual for, é capaz de nos couraçar de gargalhadas, evitando um provável colapso.

Rimo-nos, porque procuramos incessantemente o equilíbrio, a estabilidade, a normalidade, a transversalidade e a certeza de que estamos integrados num sistema coeso que rege uma panóplia de roldanas que fazem mover o quotidiano seguro, perceptível e inteligível. É ameaçadora a eventualidade que abala, afronta ou desconexa a nossa leitura comum do real e, talvez por isso, uma gargalhada se transforme tantas vezes num murro.

Perante a desordem, que deixa o não racional abalar as conexões que temos com o real normalizado, atamos o riso às margens do lógico e esperamos estar seguros do outro lado do que sentimos errado.

 

Quando a minha prima, pela Avenida Brasil - numa das suas raríssimas incursões pelo pensamento, travava comigo uma pequeniníssima batalha no campo de guerra dos Impressionistas atacando com o pincel do rímel todo o sol levante -, tropeçou numa beata de cigarro - uma rapariga de boas famílias comporta-se como a princesa ervilha, de quem, aliás, é descendente directa - saiu disparada no meio de um das meus eloquentes argumentos a favor de Monet - que ficaram, Monet e argumento, parvos e suspensos, na ausência repentina de interlocutora -, projectando com uma velocidade estonteante um dos Manolo Blahnik que atingiu um olho do Homem do Leme; provando à plateia que tinha um gosto irrepreensível na escolha das cuecas; entregando ao espectador a certeza de que era merecedora da medalha de ouro em voo em comprimento e demonstrando, para além de tudo, ser possuidora de um talento imenso como imitadora de gaivotas esgrouviadas, confesso que só depois de a ver aterrar alguns metros depois e já com a carteira nos dentes e colar enrolado nas orelhas, consegui controlar o riso, travando a quase asfixia que me vinha assolando deste o exacto instante da descolagem da pobre esbardalhada.

 

Seja como for, e pese embora toda esta inútil teoria, depois de se erguer, a rapariga fez como o sol em Monet. Levantou-se e brilhou.

O riso uniu os opostos. 

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe castanha

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.17

Ana C.

As mãos do velho Domingos que agora seguram o abanador de palha com que espevita as brasas que assam castanhas, são as mesmas que me guiaram no caminho das nogueiras, dos álamos, dos plátanos e dos áceres, com os pés molhados de folhas mortas e céu coberto por estilhaços de bronze, escarlate, doirado e castanho, para ver o carvalho plantado pela primeira mulher desta casa.

 

Lembro-me da textura de tronco de videira das mãos do Domingos, de sentir que era o Outono que me segurava os dedos, de ter a certeza que cheirava a pão e a frio, a mantas e a cães. Lembro-me dos sons do quebrar do chão como uma porta que range e temos medo. Lembro-me do trigo da luz nos braços de uma poeira extenuada. Lembro-me da lonjura do caminho e de ter sentido que a terra tinha recolhido o choro das árvores e de o enferrujar com o suor caído dos homens. Lembro-me de ter adivinhado no meio dos gritos queimados da luz por entre ramos, a negrura animalesca do carvalho na sombra pousada no caminho que estalava. Lembro-me de ter tido medo do retorcido casco, dos braços de cotovelos pousados na terra, do latejar do monstro que enfurecido emudecia o latir das folhas e da ardência que dos meus olhos tocava as margens das palavras. Lembro-me das labaredas cegas e negras que de lume a lume, de gume a lança, golpeavam o espaço com adagas de troncos que desciam pela entristecida solidão da árvore. Lembro-me das agulhas do sol amortecidas a picar os pássaros parados, da luz cansada de ferro que se espetava nos ninhos.

 

Um golpe no pulso da terra. Uma cicatriz de espera. A árvore a pesar como uma chaga.

 

Havia ferrugem nos cabelos. Roxos de frio.

 

As mãos do velho Domingos seguram agora o abanador de palha com que atiça o lume a assar castanhas, e eu queimo as feridas da memória com os dedos do silêncio até tudo parecer polido como os lagos impolutos da inocência.

 

O Outono é esta árvore e tem a alma em sépia.  

 

Foto - Ana Ciolaçu

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A Gaffe de pisca-pisca

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.17

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 A Gaffe, em viagem, não se importa de ser parada pela polícia.

 

É evidente que há pormenores que a preocupam nestas ocasiões.

Receia que lhe perguntem pela caixa negra, porque sabe que o modelo que guia é de bom gosto, não possuindo apetrechos que violam a privacidade de pessoas de berço. Para além disso, garantiram-lhe que o paralelepípedo colocado ao lado de imenso fios, era a bateria, o que muito a desiludiu. Supera este embaraço, assumindo uma pose de quem está quase a desmaiar de nojo por ter sido incomodada. Resulta, se fixarmos um ponto na nossa frente - convém que seja imóvel, pois de contrário andamos de cá para lá com as órbitas tornando tudo bastante suspeito -, baixarmos os cantos da boca, como D. Clemente a avisar que não quer forrobodó nos seminários, e entregarmos a papelada com a ponta dos dedos, tendo o cuidado de não fornecermos as cópias que usamos para apanhar o cocó do caniche dos comentários anónimos nos blogs.

 

Tomadas estas precauções, a Gaffe fica deliciada quando um matulão alto e espadaúdo, com um rabo apertado numas calças que devem ser milagre, ou que o fazem pela certa, a aborda e lhe pede a papelada.

 

Apesar disso, da última vez que tal ocorreu, não correu bem.

 

A Gaffe viajava com a prima, uma sósia de Rita Hayworth e a quem se exige a compostura que não teve. A Gaffe de soslaio, para não se afastar muito do ponto que fixava, ficou mesmo assim quase cega pelo brilho dos olhos esbugalhados da mulher que chispavam de cobiça e suspeitou que a baba que começava a escorrer doa boca aberta da prima, não era consequência de AVC, porque a mulher continuava sem nada torto - a maldita!

 

Compreendeu quando seguiu - uma vez não conta -, a direcção do olhar da petrificada cintilante e quase espetou os Valentino que protegiam o seu mavioso olhar, na piloca do polícia - que se tinha erguido - o polícia, não a piloca, embora connosco haja razões de sobra para elevações diversas -, para separar o que lhe interessava do resto dos tickets das compras -, ali na frente, toda desenhadinha no tecido das calças.

Um milagre, uma aparição, nunca é exagero repetir. A Gaffe não entende como D. Clemente não ergue uns santuários pela estrada fora. Uma falta de empreendedorismo muito pouco católica.      

 

Este enorme percalço - sublinha-se enorme, para encorpar o tecido do texto -, não invalida o gosto que a Gaffe tem quando é mandada parar por agentes muito pouco informados que cometem deslizes engraçadíssimos que resultam, como é evidente, do desconhecimento da mecânica de uma mulher, e que apenas encontra equivalente na ignorância dos homens das garagens.

 

- A menina precisa de mudar os calços.

Como se os nossos sapatos tivessem mais de duas semanas.

- A menina qualquer dia fica sem travões!

Como se alguma vez os tivéssemos.

- A menina tem de mudar o óleo.

Como se não usássemos o da Cartier. Que tontos! Tão cómicos!

 

- A menina tem de ir à revisão.

Enfim. Há também casos de assédio.

 

O que a Gaffe não entende são os sinais de luzes que avisam os condutores da presença esconsa da polícia nas esquinas da multa.

 

Vai uma pessoa apressada a enviar SMS ao senhor que segue no carro ao lado e que tem a amabilidade de lhe oferecer umas amostras irrisórias do imenso que traz na mala da viatura, e é encadeada pelo pisca-pisca dos faróis do irresponsável que surge na frente e que não entende que pode provocar um acidente quando o cavalheiro das amostras guina de súbito para inverter direcções.

 

Vai uma pessoa interessadíssima por suspeitar que, no camião que segue, segue um psicopata assassino com a arma disfarçada de tubo de escape e meia dúzia de porcos a estrumar as bermas espargindo cocó, e surge um pisca-pisca de luzes a obrigar o condutor a manobras doidas que podem perfeitamente fazer disparar os porcos, atingindo-nos com presuntos - toda a gente sabe que os danos que estas situações causam nos nervos dos bichos equivalem aos que ocorrem nos fumeiros.  

 

Vai uma criatura de Moët & Chandon à tiracolo e com uns binóculos invertidos cravados nos olhos, à espera de encontrar D. Sebastião por entre o nevoeiro e os vapores que entretanto se ergueram das garrafas e do hálito, e aparece um pisca-pisca pela frente a destroçar esta valorosa demanda histórica.

 

Vai uma pessoa de berço a catrapiscar a novíssima obra da Bobone, presa no volante - o livro, a Bobone só emperra na embraiagem -, e apanha com os mínimos do carro da frente a dar-a-dar. Uma afronta, pois que com a Bobone apenas os máximos são justificados.

 

Vai alguém em paz e sossego com um carrito emprestado a prazo indefinido que coadjuvou um levantamento um bocadinho explosivo no multibanco da aldeia, e é encadeado pelo pisca-pisca alheio que não tem consciência que vai perturbar os sonhos dourados do que agora é obrigado a retroceder, encetando a rota por trilhos menos nobres.    

 

Este vício português - trafulha e patifezinho - de accionar o prevenido pisca-pisca dos faróis quando a polícia está na curva a seguir, sugerindo aos anormais que surgem pela frente a fuga discreta, caso estejam a exercer os seus talentos psicopatas conduzindo anomalias - a Gaffe suspeita que não faz sentido sugerir a fuga a carros dentro das normas estipuladas e a condutores sérios -, leva esta rapariga a congratular-se com a desgraça da amiga que, depois de se ter esbardalhado numa canseira imensa a fazer sinais de luzes ao condutor do camião das mudanças que com ela se cruzou, avisando-o que tinha a polícia logo ali à frente, chegou a casa e percebeu que os seus electrodomésticos tinham deixado de existir. Os arredores inquiridos declararam que não tinham estranhado coisa alguma e que não desconfiaram de nada quando viram uns simpáticos senhores a enfiar uma televisão e um frigorífico num camião de mudanças. Só ficaram chorosos ao perceber que iriam perder uma tão amorosa e tão prestável vizinha.   

    

A Gaffe - pelo sim, pelo não -, mal vê piscar uma luz passa a usar óculos escuros. Disfarçam imenso e impedem que as pessoas maliciosas se apercebam que esta rapariga fica sempre muito atenta ao que a autoridade lhe revela.

O único problema é a baba que teima em tombar, embaraçando-lhe a pose, embora se possa sempre justificar o percalço deslizante com a ocorrência de um AVC provocado pela visão apocalíptica de um ameaçador casse-tête.  

 

Na foto - a prima da Gaffe apanhada na situação referida

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A Gaffe sorridente

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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Às vezes, um sorriso é um terminal de frases que não se dizem porque começam e acabam dentro dele.

 

A minha irmã sorri, dissolvendo o incómodo de não se ouvir um som no cumprimento. Depois tudo se torna mais fácil. Como parece atenta, ninguém consegue perceber de imediato que ela não está a ouvir. Confunde-se então mudez com silenciosa disponibilidade, com compreensiva cumplicidade, com atenção fraterna, e desdobram-se mapas de conversas, extensas pradarias de palavras, desérticas confidências e chuvosas lamúrias, até que o sorriso se torne suspeito ou até que o enfado chegue num sussurro e a minha irmã desvende o segredo de tamanha atenção. A indiferença.

A surpresa é evidente e tem a função de a libertar no momento certo dos que a incomodam. Diverte-a este jogo.

 

O meu modo de sorrir é diferente. Alastra pela casa fora até tocar o espaço das suspensas beladonas encerradas que continuam a verter o aroma sobre mim. Nada é tão frágil, tão mortal. O desaparecer do meu sorrir, a sua morte, é para os outros um leve pousar de névoa, um ténue entardecer de tule, como se o retirassem em braços, ou em penas, de dentro de casa e o levassem para longe dos jardins suspensos. Volta para olhar para as beladonas.

 

No intervalo de tempo sem sorrisos nunca há um texto.

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A Gaffe por um fio

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.17

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Nas manhãs sem chuva, tenho medo.

Vou de pés atados pelo caminho estreito das mimosas de outrora.

A bruma regressa no retrocesso do tempo e na inversão dos pássaros que se debatem ainda nos fios da rede destes dias frios.

A sombra dos teixos a crescer nas pedras e nas tranças de água dos olhos dos peixes. Uma sombra a estilhaçar os vidros da memória.

Levo uma pedra cega de sono sobre a boca, uma clara mordida antiga de poeira branca ou luz de porcelana.

As manhãs frias parecem nomeáveis, presas pelo fio de água que tomba na cisterna, povoado de maçãs vermelhas e orvalhadas colhidas noutras manhãs cheias de frio.

 

As manhãs frias ficam só manhãs, até perder a conta, sem pele nem poros. Só com nome. Manhãs em que se veste a tristeza que na véspera havíamos dobrado e pousado nas costas da cadeira, arranjado o vinco, sacudido o pó e desfeito a prega, trocando as voltas à dor, à cor que fica bem, para que não se note muito que estamos a usar a mesma roupa de ontem.

 

Nas manhãs sem chuva, tenho medo e vou pelo peito da alvorada olhar o fio de água fria que tomba na cisterna. É dentro do frio fio da água da cisterna que há luz de linho branco, o vislumbre afogado do corpo de penas do estilhaçar das nuvens.   

Nas manhãs frias sem chuva, volto ao cerco dos braços da cisterna e o fio de água é pulseira no meu punho, arco em meu redor, enxames de abelhas no regaço do tempo, amor pousado na cintura da cama dos sossegos mútuos, medalha de marfim no pescoço de um cego, fenda do rochedo onde apascento o rebanho dos meus dedos.

 

Cedro ou madeira de cipreste ou um ramo de açucenas pousado no meu peito.

 

Frente aos meus olhos escorre a placidez da seiva descerrada, o entrançar das arrecadas da manhã nos pingentes de prata da luz de mandrágora e no frio das folhas que tombam nas deslumbradas manhãs das conchas de água dos fios das casas que eu habito.

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A Gaffe patroa

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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Felizmente que neste planeta a estorricar de gente parola e pobre, ainda sopra a brisa do irrepreensível bom gosto e da mais refinada sofisticação.

A Gaffe exulta ao saber que por entre a imundície criada pela falta dos candelabros da educação e de berço das pessoas pobres, cintila o mais refinado dos diamantes brancos, capaz de encolher de humilhação o agora vendido por Isabel dos Santos.
A Gaffe congratula-se ao reconhecer que ao lado de Gustavo Santos - o guru das pessoas sem posses -, a figura que adquire uma dimensão de superior importância é Paula Bobone - a Anna Piaggi que o país merece.

A Gaffe admite que sempre viu Bonone como uma espécie de tola.

Enganou-se.

A Gaffe lê o que consta do anúncio da sua obra de regresso:

 

Com o passar do tempo, e até aos dias de hoje, tudo mudou e sobrevieram outras realidades. O pessoal doméstico passou a apresentar contornos totalmente diferentes e a sua ligação às casas passou a ser uma profissão.

Hoje, cabe à dona de casa imprimir o toque do seu estilo, cuja elegância deve ser marcante.

"Domesticália" é a arte de receber, de sentar e de servir. Uma narrativa interessante sobre o funcionamento da profissão dos empregados domésticos, que certamente irá valorizar e contribuir para o respeito destes profissionais.

 

Não é fabuloso?

Há gente que devia ser canonizada.

A Gaffe só espera que as imbecis que posaram para a fotografia da capa, não se atrevam a dar um empurrãozito no balde para onde a Bobone trepa mesmo quando não tem uma corda ao pescoço. Há gente pobre - pessoal doméstico, na sua maioria -, que não sabe ler e, como é evidente, vai ignorar as páginas da bíblia.

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A Gaffe dos Sapos

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.17

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A maravilhosa Magda resolveu encetar um processo que apesar de muito divertido pode encarniçar os nervos a uma quantidade significativa de gente do costume, ou seja, ao grupo de criaturas que perante uma qualquer iniciativa - sobretudo quando repleta de boa disposição - se esbardalha no sofá a roer os ossos dos cadáveres que conseguem desencantar em todas as esquinas do seu cérebro embebido em lama.

É portanto, e antes de tudo, uma iniciativa corajosa.

Depois, é possível que se torne um encontro de humor, de alegria, de festa e sobretudo de insensata e divertida tontice - o que é, como toda a gente sabe, uma das coisas mais saborosas que conseguimos descobrir na vida.

 

Não vou nomear os meus blogs favoritos nas categorias apontadas, mas vou com certeza participar, votando nos que forem seleccionados.

Basta seguir as instruções!

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Gavetas:

A Gaffe no Livro Pensamento

rabiscado pela Gaffe, em 15.11.17

O Livro PensamentoQuando a Edite me sugeriu que nos poderíamos unir para construir um novo habitat para as suas palavras, surgiram algumas dificuldades em estabilizar um layout que fosse agradável. Quando começamos - e este é um prazer sempre partilhado -, não fui capaz de responder cabalmente ao idealizado e tive dificuldade em decidir o rumo das imagens e do ambiente que acompanhariam o que se escreve.

A primeira proposta estava errada.

No entanto, bastava apenas um pequeniníssimo impulso. A Edite voava - também nas asas dos livros -, nunca perdendo de vista o lugar onde crescem os sonhos límpidos e claros de liberdade contidos nas páginas a que se vai dedicando.

Fico muito feliz por saber que a Edite gostou.

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