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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos génios

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.18

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Às vezes, a vida parece uma pulseira. Uma fiada de miúdas contas que se prendem ao pulso com um imperceptível estalido do fecho minúsculo. Nada mais do que isto. Tudo é pequeno, simples, capaz de se explicar como uma conta de nada. Num dia morremos, no seguinte acordamos sem morte por perto. Num dia a nossa espantosa incompreensão adquire grandezas incomensuráveis, no dia a seguir encontramo-nos na frente das razões diminutas que clarificam e transformam em planície todas as nossas inventadas montanhas.

Apercebemo-nos da luminosidade invisível das coisas pequenas, compreendemos que no mais breve momento, no mais ínfimo gesto, ou na mais despercebida queda de uma pétala, o elo que nos liga ao entendimento do inexplicável está preso a nós que não o vemos. Vedamos tantas vezes o acesso à claridade do banal, acreditamos tanto que nos destinaram a olhar apenas os palácios e que somente o que é maior é importante, que perdemos ou negamos a capacidade de entender que o Tudo tem o centro gerador na ausência de matéria, no Nada que existe em cada passo dado, e que esta ligação que nos escapa, produz a tranquilidade, a pacífica ordem do entendimento e a claridade oriunda do que nunca deixou de nos pertencer e que, embora cegos, nos faz andar pelos trilhos estreitos que escolhemos.

 

Estas minhas últimas semanas foram escuras, incompreensíveis, quase doentes. Corri e parei em todo o lado, com pedras de desentendimento pousadas nos olhos para evitar as lágrimas. Foram dias, uns atrás dos outros, em que tentei escapar aos muros que na minha frente, grandes, ameaçavam crescer de forma bruta. Tentei enganar-me, dissertando de modo patético, certamente hipócrita, sobre assuntos que nunca me foram importantes - sempre me foi indiferente a compra e venda, exploração e abuso, de crianças em blogs ou em rubricas televisivas -, tentei desviar os leitos dos rios, usando os diques da indignação e da revolta contra assédios, mesmo suspeitando dos que estão minados pela mesquinhez do despique e esbracejei com A Mística de Putin de Anna Arutunyan, em discussões acaloradas à lareira.

 

Fui quase tudo, por não entender nada.

 

Ontem à noite as minhas tão elaboradas artimanhas, desabaram. Inesperadamente.

A vida, criatura ínvia, traidora e pervertida, mas capaz de benéficas e benévolas entregas, fez com que uma paragem breve e de maior sossêgo se tornasse o toque da banalidade que faltava para que eu chorasse de emoção e de entendimento.

 

Vi - e é imprescindível que vejam -, preparada para encetar batalhas e defender bandeiras que não me pertencem ou que nunca me importaram -, um documentário sobre o extraordinário pianista David Helfgott.

 

Conhecia-lhe o som, um dos melhores do planeta, mas desconhecia o homem.

 

Australiano, com pais polacos, foge aos dezassete anos para aprender piano em Londres. Aos vinte e sete tem um esgotamento nervoso e é internado, em asilo psiquiátrico, durante onze anos. Durante onze anos Helfgott não tocou e não contou. É resgatado por Gillian, que pede em casamento no dia a seguir ao primeiro encontro, e torna-se um dos mais inacreditáveis e geniais interpretes de todos os tempos, capaz com uma facilidade espantosa, e sempre sem pauta, de encarnar o som de, por exemplo, Rachmaninoff, tão limitativo e quase impossível a pianistas mais débeis, menos hábeis e sobretudo menos longos, embora igualmente geniais.

 

Não sou psiquiatra. Acompanho com modéstia a perplexidade dos vários que o observaram que não arriscam qualquer diagnóstico - Asperger? -, tendo em conta o percurso de Helfgott e a sua queda em asilo, mas sei que não me é, de forma alguma, estranho o comportamento deste génio capaz de gerir música com a ordem, a organização, o pensamento matemático, o rigor, a coesão e a concentração que ela exige, e que longe do piano é - usando as normativas em vigor - caótico, sem o mínimo controlo das emoções, sem a percepção do espaço alheio, sem a menor capacidade de elaborar jogos corteses, sem réstia de entendimento de regras sociais estipuladas, sem nenhum conceito sólido relativo a elementos básicos e quotidianos que o confrontam - fala em dinheiro, apenas porque se apercebe que é importante para os outros -, sem atribuir a mínima importância às fórmulas que regem o comum, sem nenhum conceito - ou preconceito - capaz de o tornar vaga pertença do mundo que o rodeia.

David Helfgott é irresponsável, terno, doce, tímido, brando, afável, empático, egoísta como uma criança, gosta de chá e de banhos, de roubar o que lhe agrada - só porque encontrou ali e gostou tanto -, de beijar maestros e de afagar as mãos que o aplaudem, de descer do palco a sorrir e pronto a estender os braços, de abraçar a orquestra inteira antes do início, de a abraçar no fim, de cantarolar concertos e de interpelar desconhecidos apenas para os estreitar e afirmar que o melhor está para vir, que basta ter confiança.

 

David Helfgott talvez seja só inexplicável quando nos sagra ao piano.

 

Desabei em lágrimas. Imbecil que sou.

 

As contas da minha banalidade quotidiana tocaram-se e fecharam a pulseira em redor do meu pulso. O meu entendimento foi desperto e apercebi-me de súbito do extraordinário ser que eu conheço e que causou as minhas últimas semanas de angústia e medo já ultrapassados.

Oposto a David Helfgott na entrega sem limites a tudo o que se move, este meu rapaz é hirto, mau, gelado, socialmente isolado, insuportável, barricado, associal, distante e incapaz de tocar ou ser tocado, mudo, intransigente, implacável, inflexível, medonho quando irado, nunca terno, mas genial, inexplicavelmente genial, numa só batalha igualmente capaz de nos sagrar a vida.

Nunca abraçou ninguém e nunca disse que o melhor está para vir - não tem confiança -, mas percebi, na irrisória banalidade deste meu tempo de sossêgo, que o melhor chega sempre que ele chega.

 

A vida é tão pequena e simples como os génios.                                                         

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