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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos cinco sentidos

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.18

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 I

 

Tacteio a fina camada de pó no parapeito da janela. Tem a consistência do corpo despido no meio da cama, adormecido, ignorante, num abandono de poeira. Os dedos traçam na superfície da madeira duas estradas finas, convergentes, como riscaram na noite anterior ao pó do parapeito da janela, a minuciosa caminhada na pele do homem despido. Toco nos vidros com os dedos e deixo o rasto do remorso de não saber o nome das coisas adormecidas que as minhas mãos foram tocando, tacteando, fazendo arder as palmas de encontro a pele. Lá fora, uma mulher acaricia um cão.

II

 

Vejo a fina camada de poeira no parapeito do peito do homem. Olho o adormecido corpo que foi visto na noite anterior à poeira pousada nos meus dedos. No fundo dos olhos fechados do homem que dorme tenho a minha pele gravada como tatuagem ou como um lírio a rebentar de carne. Olhar um corpo nu, por descobrir o interior, cegueira para mim, faz do remorso, ou da tristeza, o olhar parado das varandas. O parapeito das janelas onde se vê o pó pousado à espera dos meus dedos. Lá fora, um cão olha para o mar e deixa que a dona o veja a olhar.

 

III

 

Ouço os meus dedos riscar o parapeito da janela. Ouço o respirar do homem que está nu na minha cama e desconheço as noites anteriores em que o respirar não foi comigo. Ouço na memória os gemidos da pele e o ruído do entrecruzar de corpos e a poeira a tombar na pele do parapeito da janela com o barulho das pedras lançadas ao mar pela mulher que ouve o cão ladrar. A surdez do homem a dormir na cama é como labareda de tristeza. Incendeia o mundo.

 

IV

 

O cheiro da pele do homem mistura-se com o mar que entra como bicho insidioso pelas frestas. Os vidros não impedem que ele chegue, como nada impediu o meu corpo de adormecer aquela nudez na minha cama. Mistura-se o mar com os lençóis e há poeira no dormir do aroma da pele suada que se mistura ao que vem do mar. O quarto cheira a corpos e a ondas e um peixe atravessa os vidros misturando o que lá fora passa e que o cá dentro está parado. A manhã da mulher com o cão cheira a maresia e a suor. O cão ergue o focinho e fareja o espaço e eu ergo a cabeça e sorvo os cheiros do corpo e do pesar, ambos suados.

 

V

 

O sabor dos dedos levados à boca com o pó do parapeito da janela é igual ao da carne suada que me raspou os lábios na noite anterior à do cão que lambe as mãos à dona, lá fora, onde a avenida acaba no palato das ondas. O travo da tristeza que me engole mal amanhece, esmaga-me na luz que é o chão onde mordi as ervas e os lírios macerados no corpo daquele homem no meu leito, feito almofariz, o corpo, o leito, de pedra ou de marfim ou só de jade. A manhã traz na boca a memória da carne mastigada e das gotas de água já bebida.

 

E eu adormeço.

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