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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe também desiste

rabiscado pela Gaffe, em 28.02.18

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E pronto!

Foi-se.

 

Depois do Salvador, vem o Janeiro.

Para o ano, aprofundando estas pisadas, a Gaffe aconselha que Portugal se faça representar pelo emplastro a assobiar qualquer coisita simples.

 

O júri - composto por gente tão talentosa - Olá, Luísa! Olá, Sarita! Olá, crítico embrulhado nos anos 60! -  e tão capaz de tornar vencedor um hino da IURD - que como sabemos é um jorrar de música de qualidade insofismável - nem precisa de obedecer aos ditames das editoras discográficas.

ARRASAMOS outra vez.

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Gavetas:

A Gaffe imperiosa

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.18

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Todas as mulheres possuem um desenvolvidíssimo espírito científico, pese embora apenas algumas o usem para tentar dissecar a alma alheia. Por norma os instrumentos usados não incluem a inteligência, posto que para a operação fica aquém do esperado e, no máximo, o que se obtém é a pele do observado, que fica sempre bem no soalho de madeira.

 

Há no entanto casos em que é possível tentar chegar a resultados interessantes, se o analisado for um conceito.

As mulheres são peritas em elaborar pareceres, a formular noções e a construir máximas que os homens gostam de usar depois. São Piçarras e Tonys das nossas melodias e chegam aos festivais já vencedores. Deixamos, porque não importa o resultado do júri. O que nos dá gozo é a certeza do engano dos jurados que se revelam ainda mais tontos do que na realidade são.

 

Os conceitos que nós, mulheres, fazemos florir são como papoilas. Surgem às centenas, em campos magníficos e dão ramalhetes perfeitos, porque efémeros. É lógico que cada uma de nós escolhe a papoila que mais condiz com o seu tom de pele, com a cor do blush, com a cor do dia do decote, ou com a forma que lhe parece próxima da perfeição sonhada.

 

Malgré tout, é sempre uma papoila que é escolhida.

 

Esta inteligentíssima, - apesar de modesta que sou, devo assumir -,  introdução, chega a propósito dos conceitos de elegância feminina que provocaram um olhar bucólico sobre este campo plano e tão singelo onde pulula, aqui e ali, o escarlate das florinhas.

Há que pegar no bisturi.

 

A elegância - a Elegância -, pode ser analisada com objectividade científica. É possível arrancá-la do somatório dos distintos conceitos que são construídos por cada uma de nós e tornados de certo modo distintos uns dos outros. Há a elegância da mulher magra e alta, esguia como a haste de um lírio. Há a elegância da que veste sem ser vestida por Valentino. Há a elegância construída pela fleuma gélida perante incêndios de barracão. Há a elegância da maturidade que constrói castelos de reserva e discrição e há outras que não se dizem por exaustão.

Por norma, alia-se, mesmo inconscientemente, a elegância de uma mulher à sua biografia. No entanto, a Elegância pode ser isolada, pode ser objectivada, pode ser detectada sem as interferências usuais e sem as premissas que habitualmente nos levam a resultados viciados.

Uma mulher pode ser Elegante independentemente do mundo que a olha, para além de si, para além da sua história ou da sua voz. Neste pressuposto, pode ser Elegante uma psicopata, uma assassina, uma inócua dona de casa, uma apaixonada pelo funk, uma vendedora do Bolhão - estas são quase todas, quando calmas! -, ou uma candidata a Prémio Nobel da Paz.

 

A Elegância é um palimpsesto. Talvez exista uma facilidade relativa em separar camadas, desagregar substratos, definindo-os como eleitos na subjectivização do conceito, mas no final - e afinal -, o somatório torna-se indistinto, quase invisível, quase mistério, porque, diz o aviador, o que realmente importa não se vê.

 

A Elegância não é portanto uma projecção do olhar do Outro. É o reconhecimento do Outro da existência imperiosa e única de alguém.

 

Sentimos a Elegância, somos Elegantes, porque somos, nós também, palimpsestos, mas nesse aglomerar, nesse sedimentar de histórias que são nossas - apenas nossas e sem domínio algum sobre o olhar dos outros - existe um elemento essencial que atravessa cada substrato, solidificando o todo.

 

A inteligência.

 

Nenhuma mulher é Elegante se não for inteligente e logicamente madura (aos dezoito anos escolhemos sempre o perfume errado).  

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A Gaffe eliminada

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.18

Dolce & Gabanna - Out/Inv, 2018

 

Numa eliminatória dominada por completo pela dentadura de Sónia Araújo, aconteceu o previsto.

A influência dos manos Sobral é faca de dois gumes e se na primeira fase o lado benéfico se fez sentir amenamente, nesta segunda etapa foi desastrosa e cortou a eito, incutindo, sobretudo nas intérpretes, a tendência para nos arrepiar com uma qualquer trapalhada vestida que podia passar por um embrulho de Ferrero Roche - Rita Ruivo; dar um voltinha no baú da avó e retirar o que cheirava menos a naftalina - Lili; roubar a combinação da tia viúva - Cláudia Pascoal; surripiar o fato velho do casamento do pai - Dora Fidalgo, ou revisitar a tralha deslavada dos anos noventa e deixar o cabelo ao natural - Susana Travassos.

Valia tudo, desde que fosse mau e desde que nos invocasse a imagem desleixada de Salvador Sobral que tocou fundo nas protagonistas desta 2ª eliminatória.

Dos rapazes não reza a história. Todos muito pouco.

 

Para agravar o cenário, Luísa Sobral, de lábios roxos e um cilindro de cabelo, aponta como decisiva para a escolha do júri a ligação do intérprete com a canção. O elevado sentimento. Salvador foi um precursor nesta modalidade.

Seguindo o trilho, apanhamos com uma choramingas de jardim, de cabelo rosa, lavada em lágrimas, provavelmente porque sentado de costas para o público, enfiado numa camisa que me pareceu de forças, havia no palco um boneco que me levou a crer que vinha dali performance. Afinal, não. Era a compositora que quis dar o seu arzinho um bocadinho andrógino, um bocadinho inútil.

Apanhamos com as sobrancelhas desbravadas e cuidadas de Diogo Piçarra - que acredita piamente que ficou mais bonito depois de ter abandonado o sacerdócio, ou pelo menos deixado de querer que se abram os olhos para ver Cristo, embora continue a cantar a mesma coisa -, a arrancar o sentimento de tanto bater no peito donde se escapou a mais popó e mais totó letra da noite - a original também não ajudava.

Apanhamos com um bando de cegonhas mais ou menos estridentes disfarçadas de senhora da agonia.

Apanhamos com o patati-patata de duas patetas vagamente Carmen Miranda na cabeça - o toucado não comportava bananas por motivos óbvios.

Apanhamos com a Tamin, a Onís e a Sequin que deviam servir de isco a qualquer coisa em extinção, para a liquidar de vez.

Apanhamos com um Pessoa que, como o nome indica e é seu fado passará despercebido enquanto vivo, e com um Zaratustra de subúrbio, a insultar o velho amante de Andreas-Salomé.

Finalmente apanhamos com um mocinho – nada mau! - que quer muito tocar nas suas raízes portuguesas, sobretudo as que cantam em inglês.

Façamos de conta que Tito Paris também lá esteve para acudir ao que pôde.

 

Depois destes estragos, a Gaffe pede encarecidamente que espreitem, por instantes, a colecção Dolce & Gabanna, Outono/inverno 2018. Está lá tudo. Sempre escapamos às meladas e choronas melodias com propensão para o despojado, lavando os olhos com exageros certos.    

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Gavetas:

A Gaffe das Josefinas

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.18

roseleslie_josefinas_t.jpgMeninas!

É dado o alarme. Nenhuma, depois de o ouvir, pode afirmar que não encontra o refúgio certo para salvar e resguardar os pés das explosões de péssimo gosto que grassam por este vale de lágrimas e de lojas.

 

É imprescindível visitar este lugarÉ impossível deixar de calçar, pelo menos, as estupendas botas manufacturadas com um desvelo antigo - e adornadas com pérolas verdadeiras -, que chegam em caixas maravilhosas, com um porta-chaves dentro para encerrar o luxo, longe do olhar de cobiça e de inveja das pindéricas que não acompanham, por exemplo, Rose Leslie - Downton Abbey e Game of Thrones -, e não sabem pisar como nós e como ela - que somos todas fabulosas -, os soalhos dos bailados mais perfeitos.

 

Morro de amores por estes laços portugueses!

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A Gaffe das bloggers

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.18

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Encontrei nestas minhas andanças pela blogosfera uma preciosa peça que listava os blogs mais potentes deste vale de posts. Enumerados por ordem alfabética, tornava-se quase apetitoso visitar cada um deles, pela facilidade de acesso e pelo pouco esforço que um clique nos exige.

Não resisti.

Foram sobrevoados, um por um, nas asas abertas de alguns minutos e há que registar que nestes fugazes voos rasantes encontrei matéria para reflectir - e só Deus sabe o pouco que tal movimento vê a luz.

 

Confesso que ignorei os primeiros, pois que sempre fui indiferente aos panfletos do Pingo-Doce ou do Continente, embora tenha o vício de folhear os catálogos fininhos, que encontro mortos na caixa do correio, com fotografias e elogios sucintos aos mais inesperados e surpreendentes produtos - desde esfregonas a pilhas a vibradores para os dentes, passando por detergentes para higiene íntima e acabando em material didáctico destinado a pedófilos frustrados que se excitam a ver macaquinhos de peluche que chiam se apertados. Tudo a preços módicos.

 

Os seguintes vendiam crianças. Provavelmente os filhos das curadoras, porque me pareceu tudo muito maternal.

Admito que já esgotei a pouca capacidade de abrir a boca de espanto e de indignação que destinava ao assunto. Tendo em consideração que agora só abro a boca por motivos maiores e de maior idade, mantive a pose e fui passando indiferente pelas esquinas por onde aquela petizada trabalhava. Não encontrei nenhuma criança que me perturbasse. Todas saudáveis, felizes, fofinhas e rentáveis. Nada a necessitar de intervenção ou de petição para assinar. Confesso o famigerado quero saber.

 

Cheguei ao último e fiquei perplexa.

 

Encontrei uma mulher bonita, com um travo sofisticado que me agradou, com muito bom gosto, revelando que é cúmplice da câmera que a vai fotografando ao lado da filharada - uma adorável prole, comme il faut -, capaz de fazer com que se não perceba de imediato que está a fazer pela vida vendendo o que lhe cabe em parceria, posando de modo quase profissional e afastando-se claramente da imbecilidade do sorriso maroto, olhar marosca, perninha erguida, com o pequenino pé esquerdo logo ali à frente do direito e mãozinha na cinta de verniz por estalar.

Não me cansou e admito que perdi mais tempo do que o previsto a passear nas avenidas limpas, e mesmo agradáveis, da senhora. Vendia o sonho, o idílico, o desejado, o cor-de-rosa brando, incutia o desejo do inútil, incitava o consumidor de forma relativamente discreta e promovia o cliente que a subornava, sem nunca parecer patética, parola e pateta.

 

Gostei da senhora.

 

No entanto, fiquei perplexa ao perceber que, apesar das características que a diferenciavam das outras banais companheiras de folguedos, havia um borrão naquela paisagem quase perfeita.

A ausência da Elegância.

A senhora era desprovida do imperceptível toque da Elegância - mais danoso ainda do que nos casos anteriores em que esta inexistência é já prevista -, que aproxima as mulheres do imaterial, do abstracto, do mistério denso e longo e tantas vezes escuro e impenetrável, capaz de tornar incontornável a presença do silêncio que perto dela, em seu redor, a toda a volta, se vai impondo aos mais banais, até que o fascínio se torne proprietário do desejo.

Faltava a Elegância e essa ausência tornava a senhora bonita, não a vendedeira do costume - pelas razões apensas às parceiras -, mas uma vendedora doutorada.

 

Talvez por isso tenha percebido que não basta, de modo nenhum, parecermos cool.

Há que ser mulher de César.

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A Gaffe das duas moedas

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.18

 

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Deparamo-nos por vezes com imagens que nos surpreendem, porque acabam por ilustrar uma das partículas de que somos feitas.

Esta é sem dúvida uma delas.

O homem do carro estacionado provavelmente procura desbravar os mistérios femininos com cuidados quase florais e tenta, inútil e sem qualquer sucesso, domar os bichos que somos, enquanto que - sem esforço desmesurado -, o garanhão bruto e tatuado, sem pouso certo e sem nada que se possa rentabilizar, fica fora de nós, aguado e a desejar o objecto que acredita ser o que nos convence.

 

Ouço dizer as más-línguas que o carro que um homem escolhe é o reflexo invertido da sua piloca, que um bólide gigantesco significará, portanto, uma pilita frouxa, quase impotente e humilhantemente pequena.

A não existir um completo erro nesta afirmação. Os homens que se deslocam em carros inimagináveis e quase absurdos de tão poderosos, com preços descomunais, são todos ineptos sexualmente. O carro compensará, desta forma, os exíguos apêndices que trazem entre as pernas.

 

Penso, no entanto, que esta espécie de compensação não se prende com tamanhos ou desempenhos de índole sexual.

A questão é mais oblíqua, mais insidiosa.

Suspeito que a potência do carro se liga normalmente à insegurança do dono, na cama em que é deitado. Quanto maior for a cilindrada e o aparato do popó, mais frágil, inseguro, hesitante, manobrável e irresoluto é quem o compra.

 

Não gosto de carros, mas reconheço que é proveitoso uma rapariga não seleccionar os rapagões sem primeiro conhecer os volantes que controlam. Alguns dos melhores, andam a pé.

 

É tudo uma questão de deslocações financeiras e de mecânica do prazer.  

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A Gaffe do ramalhete

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.18

Ramalhete

 

A Gaffe sempre considerou as atitudes dos homens que são considerados românticos a maior perda de tempo do planeta.

 

Não interessam os ramos de flores que lhe oferecem se o portador não provar que as fitas que apertam o ramalhete trazem nas pontas e nas horas um Bentley agarrado - e pode ser à cocaína, pois que dessa forma uma rapariga esperta sabe que jamais ocupará o lugar do morto. 

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A Gaffe volta ao faduncho

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.18

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Aqui

os rastos desta dor são como vidro

onde resta o rosto já partido

da terra ou o das águas por findar

Aqui

tudo é previsto ter uma parede

e a cal escalda branca só de sede

na noite de uma casa sem luar

Aqui

é só na minha dor que eu estremeço

apenas nesta seda onde não teço

a madrugada dos lírios por cortar

Aqui

o dia que se verte sobre a asa

magoa esta saudade a voar rasa

no céu de uma raiz quase a chorar

Aqui

será de novo teu o que florir

a  raiz que erguer o que há-de vir

quando o meu chão doer no teu voltar

Aqui

hás-de voltar para ti

fingir que foi de outra o que eu sofri

ao lancetar a ferida que é lembrar

Aqui

eu sou a que faz falta ao teu voltar

o lanho que se esquece de sangrar

na  minha vida ferida só por ti

 

Aqui

hás-de voltar a ti

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A Gaffe ouve Paris

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.18

Hernst Haas 1955.jpg

 

Perguntam-me qual o som que me traz Paris e eu emudeço.

Nunca tive o talento de saber ouvir música. Deveria portanto, para fazer brilhar a mais do que certa resposta dos que sofrem deste tipo de surdez maldita, referir Piaf, Ferré, Brel, Brassin, Trenet – sem o colaboracionismo -,  Montand, Bécaud ou outro qualquer nome capaz de se identificar de forma inabalável com a voz de Paris, com o correr do Sena, com a nostalgia das árvores dos parques nus de concertinas, com as escadas de Montmartre descidas pela boémia já passada, com as esplanadas dos cafés lendários que entardecem tristes, com a chuva sobre as pontes desoladas e com a luz doirada a invadir as ruas.

Não consigo.

A voz que me traz Paris não é a mais excelsa, não é a mais dotada, não é favorita dos eruditos que estudam e criticam as profundezas nobres de letras e colcheias, mas é a única que me traz a longuíssima saudade dos passeios frígidos, dos risos que guardei dentro do peito, das folhas a tombar no meu cabelo, dos olhos das mulheres que são o Sena, do correr da tarde que se espalha nas sombras que anoitecem nos trilhos dos vadios, no triste emudecer das aves esculpidas nas vielas onde há cafés pequenos voltados para o frio, na doçura das mantas que guardavam os segredos partilhados em surdina e nas mãos que se cruzavam quando o entrelaçar dos dedos tinha fim.

Paris, a voz que sinto ser desta cidade, é o som deste homem a rasgar o verso.

Basta um início para ouvir o som que eu ouço quando Paris chega.

 

Foto - Hernst Haas,1955

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Gavetas:

A Gaffe na eliminatória

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.18

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A Gaffe, não havendo nada melhor, que a vida não é sempre um corrupio, pantufas alçadas, salamandra ao rubro, e pijama irreverente em homenagem a Salvador Sobral - tem corações lilases sobre fundo rosa -, assiste à primeira eliminatória do Festival da Canção onde foi seguida a directriz salvadorenha que obriga toda a gente a vestir a maior porcaria que encontrar em casa, logo ali ao lado do saco de trapos que se vai enfiar no contentor das doações aos pobrezinhos.

 

Praticamente a babar-se, com o cérebro embatucado, vê passar um senhor que canta fada enfiado num fatito CDS-PP, um ou dois números abaixo daquele que a barriguita aconselhava; uma ou duas meninas saídas dos gloriosos anos oitenta; um rapazinho chamado Janeiro com meias de décimo terceiro mês; o Jorge Palma disfarçado de homem que canta o que Jorge Palma devia ter cantado; o José Cid a fazer de conta que não escreveu aquilo em meados do século XVII; uma fada de purpurinas encantadoras vestida com os restos dos mosquiteiros da casa da avó, mas com uma voz linda apoiada pelo maravilhoso Júlio Resende; a Anabela a cantar o habitual, porque cai a noite na cidade com um certo travo latino-americano; o J.P. Simões a provar que se consegue sobressaltar uma espectadora com uma canção epiléptica; uma moçoila a desafinar com pronúncia do Norte e mais um ou dois que não deixaram rasto.

 

A Gaffe gostou da homenagem à Dina - que ainda não morreu, mas despacha-se o assunto logo aqui -, da menina das purpurinas e da senhora dos planos estragados - uma senhora chamada Barra Vaz - a favorita da Gaffe! -, que, como toda a gente sabe, libertaram outrora em vez do Salvador -, mas acredita que se a segunda eliminatória continua a ser uma espécie de desmembradas e dispersas facetas de Salvador Sobral, é bem possível que o rapaz do décimo terceiro mês que come bananas com uma descontracção tão mimosa e tão convincente, tão no trilho do quero-lá-saber encetado e desbravado por Sobral, obrigue o quarteto de apresentadoras do certame a apresentar Portugal segurando o anúncio da figura.

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A Gaffe de Alma-Tadema

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.18

L. Alma-Tadema

- Isto é coisas qu’ele viu lá fora.

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A Gaffe nas batalhas

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.18

Laure

 

Sabendo-se que esta família caça em conjunto, fácil se torna concluir que nessa operação ela é por norma o isco, a manobra de diversão e o engodo.

 

A verdade é que nunca esse papel a incomodou, chegando mesmo a ser um deleite participar na montagem das armadilhas. Admite que não é de todo distinto ou elegante ser usada para que se atingirem objectivos que lhe são alheios, mas considera sempre divertido verificar que em todos existe uma etiqueta com um preço, que ela faz acreditar que é elevado, embora suspeite que - cada vez mais -, toda a gente é um saldo.

 

É angélica, suave, pestaneja, aparenta ser inofensiva e não tem nas patinhas as garras visíveis. É fácil fazer com que inclinem a jugular desprevenida. Depois é com os outros. A minha prima não gosta de vencidos.

 

Nunca ousou forçar uma queda, nunca se atreveu a desferir o golpe, mas não tem ilusões. Ninguém foge ao escrutínio. Todo o passageiro é revistado, mesmo que o bilhete seja apenas de ida. Tem o agradável defeito de, sempre que por si passam mortais, os pesar e repesar na balança do jogo da guerra.

 

Não é sangrenta, talvez seja apenas má pessoa.

 

Aprendeu a sobreviver neste vale de feras, consciente disto, com um rapaz de veludo que lhe foi apresentado demasiado cedo. Foi analisado ao pormenor e concluiu-se que o rapagão pertencia ao plano estratégico de caça familiar e que nos pratos da balança pesava mais do que seria de esperar. Foi insinuado que alguém devia distrair a vítima enquanto os bastidores se movimentavam. Aceitou contente. Falar de Genet, comentar Monet, criticar Stravinsky ou acarinhar Fellini, nunca foi complexo - se não sabe, inventa. Acrescentou a estes prazeres, o facto do rapaz respirar e se sentir o mundo a tremer. Sobretudo o hemisfério sul.

 

No entanto, sofreu um revés. O padecente confidenciou-lhe, logo ali na esquina de Darwin, a sua inabalável fidelidade ao espapaçado Amor da sua vida que longe dele sofria de igual modo.

Tornou-se intocável a alma do petiz.

O amor sempre lhe inspirou um desmesurado respeito e jamais se tornaria cúmplice do espoliar de alguém apaixonado.

 

Soube, pouco tempo depois da sua recusa em fazer de conta que seduzia o triste, que aquele amor eterno e inabalável se tinha escapado por minutos e que, com os melhores cumprimentos da eternidade, tinha tentado pousar no meu irmão. Apanhou-o deitado no chão, de pés levantados e pousados no peitoril da janela e, não tão subtilmente como seria de desejar, enfiou-lhe a mão dentro das calças. Abalado, o meu pobre irmão nunca foi o mesmo, recusando aproximar os pés seja do que for. Stress pós-traumático, dizem os sábios.

 

A partir desse instante, descobriu - para além de ficar a saber que a fidelidade é uma bicha muito subjectiva -, que nada, mesmo nada, a impediria de jogar. Gosta de jogar, o que não a torna excelsa companhia.

Enfraquece resistências, afrouxa cérebros, distrai argúcias, impede análises e faz tombar as paliçadas. Pérolas e perfumes são armas que conhece em demasia. Usa-as com perícia e destemor. Depois dos muros derrubados, perde o interesse.

 

O resto é dos abutres.

 

Não se comove. Nunca se comoveu com a chacina. Os que tombam são sempre os mais idiotas, os que acreditam no Poder e desconhecem que é exactamente nele que se encontra esconsa a mais potente ameaça de derrota. Estão vencidos, porque não sabem que se trava uma batalha, porque cegaram com o brilho das próprias armaduras, ou porque não entendem que às vezes - muitas vezes - a maior vitória não exige luta.

 

Agrada-lhe sentir que pertence aqui, ao grupo dos carrascos, daqueles que executam imbecis.

 

Não é aconselhável aceitar o seu convite para o chá.

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A Gaffe escreve um fado

rabiscado pela Gaffe, em 15.02.18

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Meu amor sei-te da morte

Pelas escamas de nuvens afogadas

Pela carne em carne viva das pegadas

Que deixo no caminho à sua sorte

 

Meu amor sei que morri

No teu silêncio que tem a cor das fontes

E que entre a luz e a morte não há pontes

Nem terra a latejar dentro de ti

 

Porque eu morri

 

Meu amor sei-te de morte

No corpo contra a sombra que abandono

No cão que lambe o mar por não ter dono

Na luz de olhos fechados como um corte

 

Meu amor sei que morri

Nas crinas das raízes rasas de água

Das árvores que são pássaros de mágoa

Com asas que se despem só por ti

 

Porque eu morri

 

Meu amor sei-te da morte

Queimei a cal do peito que morreu

Na dor que tinha o nome que era o teu

E havia um ninho a abrir o vento Norte

 

Meu amor sei que morri

No pátio que erguias nos meus braços

Que agora se desfazem de tão lassos

Porque ao morreres levaste o que eu vivi

 

E eu morri

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A Gaffe de Guernico

rabiscado pela Gaffe, em 14.02.18

Guernico - S. Pietro de Verona

 

 - É que estava tudo a correr tão bem!

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A Gaffe namoradeira

rabiscado pela Gaffe, em 14.02.18

Denis Sarazhin

 

Há na alma uma sala pasmada que se fecha com estrondo, connosco lá dentro, quando descobrimos que a única carta de Amor que queremos escrever pode não ter destinatário.


Entra! Senta-te comigo. Há um lugar vago mesmo junto a mim.

Hoje podemos fingir que somos o destino um do outro.

(Não faz mal. Ninguém se importa.)

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