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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe recepcionista

rabiscado pela Gaffe, em 07.02.18

ha! ah! ah!Está na minha frente, sentado de perna cruzada e tronco balofo e atarracado.

Bate com o maço de tabaco, acabado de comprar, na palma da mão. Vira-o e volta a desancar. Repete a actividade até perceber que me irrita, porque não consigo deixar de olhar para aquele movimento seco que me parece inútil.

Oferece-me um cigarro depois de cuidadoso ter rasgado um lado e ter puxado um deles que aparece erguido sobre os outros, como se tivesse havido uma eleição.

Não fumo.

- Mas havemos de beber um copo juntos - promete enquanto procura no bolso o isqueiro de plástico.

Não bebo.

Torna-se sinistro. Olha de soslaio e sibila, manhoso:

- Aposto que aquela, com um corpinho daqueles, faz o que falta dizer.

Sorrio e deixo escapar uma centelha de suspeição propositada que lhe aflora e queima a superfície da atenção.

Desconfia. Semicerra os olhos. A primeira baforada do cigarro, preso nos anéis, tolda-lhe os contornos da cara e fá-lo tossir de forma seca.

- Oh! Com aquela figura não acredito que sinta muita a falta de aquecimento central - escalda o homem e arrepia.

- Toda alta, toda fria, toda elegante e de nariz empinado, já aqueceu muitas noitinhas…  - escancara num sorriso nicotina. 

A ilusão do Poder, quando alimentada por estranhos, transforma-se em areia movediça, por isso não o paro. Começo a acalentar a esperança de sentir a atarracada criatura esfumar-me no que se vislumbra por entre a névoa do engano.

 

Espero.

 

Digo-lhe que será recebido por ela. Sou apenas um percalço. Um erro de casting. Uma gaffe na recepção.

- Que venha a mulher! - arreganha os dentes já babados - mesmo com aquele tamanho, posso bem com ela. É magrita. Domesticam-se bem, as magritas - desta vez a alarvidade traz o riso.

 

E ela entra.

 

- Tenho a certeza que não se conhecem. - Sou tão amável! - A minha irmã. - Apresento e tenho um orgasmo mui discreto. Continuo:

- Este senhor acaba de me confessar que te acha muito elegante. Creio que entre os dois se vão estabelecer óptimas relações.
O homem baba enquanto aperta a mão esguia, prolongamento do sorriso claro e do olhar atento que detecta o proibido prazer do que mantenho oculto.

- Sou muito empática - rosna a minha irmã.

- Mas magrita. És um potro, um puro-sangue, mas fácil de domar - esquiço e espero os olhinhos do homem que se abrem em franqueado embaraço.

A minha irmã estanca. Detectou o jogo e a mesa onde é lançado o dado.

- Hipismo é no teu departamento. - Faíscas e setas no meu peito, Sebastião no feminino, nem Santa e já sem reino.

- Esqueceram-se de o informar que é apenas a minha irmã que se diverte com as cavalgaduras - acrescenta.

Entala-se o homem com fumo e aperto.

- Mas, maninha, este senhor é um jockey.

- Tenho a certeza que sim. Não se quer sentar?! - Pergunta tenebrosa, porque o achatado já está sentado.

- Vamos então tratar do seu estábulo - ordena a minha irmã já com a segurança de um projecto ganho.

 

Os erros cometidos pelos outros, contra nós, dos mais banais aos mais sofisticados, devem ser usados para reverter situações adversas, transmutando o desacerto em arma a usar contra aquele que falhou.

A falta cometida pelo incauto, transforma-se nas mãos da minha irmã em forja que subverte o que lhe desagrada e que convence o imprudente a acatar, sem discussão possível, o que este puro-sangue decidir.

 

Eu?! Oh!, eu só me divirto, pacífica, a olhar um punhal cravado na testa do anão.

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