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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos deuses

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.18

Aurelio Monge.jpg

 

O papel de José António Saraiva não me assenta bem, no entanto é aberta esta excepção, pois que é admissível que estas nuances escuras aqui sejam visíveis por nobre causa e por força de argumento.

 

É curioso verificar como somos capazes de idolatrar os autores de obras-de-arte ao ponto de quase os aproximarmos dos deuses, rendendo-lhes homenagens pirosas expressas em rectângulos floridos onde cintilam frases descontextualizadas, ou imagens fenomenais cortadas onde nos convém, muito ao nosso contento e ao nosso intento.

Muitas vezes rendemo-nos de joelhos.

A adoração que lhes entregamos não é de todo, ou totalmente, descabida. São singulares criadores. Criaturas de excepção.

 

Há no entanto, o esquecimento, provavelmente deslumbrado, da existência do homem - e da mulher - para lá da obra que produz e nem sempre o que se nos depara é digno de respeito.

Retiremos ao acaso, saraivadamente, de forma caótica e sem qualquer lógica, da caixinha desta Pandora de subúrbio:

Caravaggio, um assassino e um celerado;

Michelangelo, um ladrão e um defraudador;

Ezra Pound, um anti-semita convicto e perigoso;

Proust pagava a rapazinhos para se masturbarem enquanto roía os lençóis, enfiado até aos dentes na cama que raramente abandonava;

Virgínia Woolf considerava que as criadas estavam num patamar inferior ao dos seus cães de companhia;

Céline, um nazi;

Enid Blyton desprezava e ignorava os filhos, maltratando-os;

Bukowski, um misógino asqueroso;

Elia Kazan traiu companheiros denunciando-os ao governo americano anti-comunista;

Vargas Llosa escreveu que o assassinato de jornalistas mexicanos é da responsabilidade da liberdade de imprensa e - caso me considerem digna de perdão por incluir uma minhoca nesta minúscula listagem - Cat Stevens assinou a fatwa contra Salman Rushide.

 

A obra, quando fenomenal, assemelha-se à morte no processo de reabilitação daquele que a produz.

Iliba, explica ou apaga as chagas que se foram abrindo nos outros por aqueles que explodiram em talento, honrando e alargando, inovando e dignificando, áreas diversas de forma irrepetível.

 

É evidente que as privadas posições de Proust - um desconforto! -, as canalhices de Michaelangelo ou a presunção imbecil de Virgínia Woolf, são absolutamente independentes das obras que os imortalizaram.

Caravaggio continua a ser um dos mais fascinantes manipuladores da luz, provavelmente igualado - se tais ousadias comparativas nos fossem permitidas - apenas por Renoir e provavelmente superado por Monet; Virgínia Woolf mantém Mrs. Dalloway como um dos mais impressionantes romances da literatura universal e as crónicas de Vargas Llosa continuam a siderar leitores.

A criatura térrea que produz a obra-prima não parece interferir na construção dessa galáxia. E no entanto, existe e é capaz de assassinar, de condescender com o massacre de judeus, de justificar o homicídio de jornalistas, de olhar alguns como criaturas de segunda mão ou de perverter, sinistro, adolescentes.

 

Se estes dados interferem com a leitura que se faz da obra, é duvidoso, apesar de eu - pobre de mim que não conto -, não conseguir tocar num livro de Luiz Pacheco, porque o penso porco, pedófilo, rufia e asqueroso, nauseabundo, manipulador e nojento. Desconheço se no acto de nos apoderarmos de determinada obra, estes factores que - é imprescindível sublinhar - pertencem exclusivamente à esfera do privado do homem ou da mulher que a produziu, atingem e trespassam a apreciação que dela, da obra, se faz, adquirindo peso suficiente para tornar difícil a extracção das vivências escolhidas pelo autor - sobretudo as que nos são repulsivas -, da qualidade quase sobrenatural do que nos é entregue.

 

Seja como for, reconhecer o barro nos pés de cada deus é sempre uma forma de partilhar com eles a mortalidade.        

 

Foto - Aurelio Monge

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