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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe duplicada

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.18

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Nestes derradeiros dias chuva, aproximo-me mais vezes da janela.

Gosto de ver a água a serpentear nos vidros, mas nunca aliei qualquer emoção à paisagem encharcada que avisto. Sempre foi apenas chuva. Sigo com os olhos, com os dedos, os trajectos das gotas.

Nada mais.

Sei que são semelhantes aos que percorria em Paris. Olhava as ruas desfocadas e procurava dentro das gotas as deformações que provocavam nos edifícios, como pequenos e redondos espelhos de circo. Ficava durante demasiado tempo a tentar entrar nas gotículas que fugiam num rasto de serpentinas transparentes.

 

Se olhar agora pelas janelas de chuva que agora vivo, não procuro mais do que via outrora. As ruas estão encharcadas e há edifícios que tremem dentro da água que toca e desliza pelos vidros. Não existem diferenças de maior. A chuva uniformiza as paisagens envidraçadas.

Estranho é sentir que quem olha esta duplicação alagada das ruas talvez seja outra em cada paisagem.

As escolhas que fiz em cada avistamento, alteraram o desenho e a rota da gota da minha vida tombando na superfície das coisas. A paisagem ficou impune no exterior, similar em todos os lugares, mas os dedos que percorrem agora a face seca do interior de onde avisto o inalterado, são outros dedos. Diferentes dos que nunca vi e meus mesmo assim.

Ao longe, demasiado esbatidos, há dedos que seguem gotas de chuva nos vidros que não aceitei. São dedos que não conheço, mas que são meus em paradoxo.

Os que acompanham a descida da água pelo vidro de agora, são apenas as tempestades que escolhi.

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Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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