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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe muitíssimo inconveniente

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.18

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Não me retires do corpo o que é pecado.

Deixa-o religiosamente ficar.

Deixa-o beato.

 

Quero espoliar-me nua nos veludos cardinal, adivinhar incenso nos brancos das rendas já rasgadas, amarfanhar toalhas com bordados e gargalhar nas roxas faixas da Páscoa do teu corpo.

Quero amarrotar os panos da cinta do teu Cristo. Não ser pagã. Pecar como proscrita. Excomungada, nua, espoliada e bicho.

Quero báculos de prata e jóias raras, cálices de nádegas, hóstias de pele, pontas de dedos, paramentos.

Quero morder o corpo do Senhor, beber-lhe a baba e desfazer altares de missa em sol maior.

Quero pecar, esconjurada, renegada por santos sacrossantos e enredar batinas e ensarilhar os mantos, escaldar as preces dos bem-aventurados e depois nua, desfeita em cânticos, fazer jorrar na mesa a tua ceia.

 

Foto - Katia Chausheva

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Gavetas:

A Gaffe tempestuosa

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.18

YD

 

Meus queridos, tenham sempre presente que a velocidade com que nós dizemos:

 

- Está tudo bem!

 

É directamente proporcional à severidade da tempestade de horrores que está prestes a começar.

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A Gaffe contabilista

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.18

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Somos por natureza quantificadores e por, muito que o neguemos, os números e a sua placidez, ou palidez ordenada, vão-se tornando facilitadores dos julgamentos que fazemos de nós e dos outros. Tornam-se traves mestras sem as quais nenhum edifício interior pode sobreviver e mesmo que pintemos os muros que somos com motivos florais, acabamos a contabilizar o número de pétalas que colorimos, para oferecer alguma harmonia mesmo ao terror.

 

Medimos o bebé, contamos os tostões, contabilizamos acidentes, medimos a tensão arterial, calculamos o défice, numeramos as casas, somamos desgostos, subtraímos esperanças, multiplicamos terrores, dividimos solidariedades por grupos contados pelos dedos, somos corajosos ao som do um-dois-três e fugimos quando não há ninguém a ver, porque às vezes somos zero.

 

Não incomoda este matematizar da vida, pois que é intrínseco a ela.

Não nos apercebemos da quase instintiva força que tenta escapar ao Caos, empurrando o que somos para os trilhos da Ordem que supomos encontrar na tentativa inata de quantificarmos o Universo.

Somos ordenados dentro desta confiança tranquilizadora, porque mesma a dor, a mais estrepitante, aquela a que atribuímos o número um, numa escala que vai do coração à morte, pode ser passível de baixar de nível à medida que o tempo passa e se acumula.

Medimos o que somos sobretudo com as escalas dos outros.

Somos pequenos, invariavelmente pequenos e contamos cada milímetro que nos fazem sonhar com maior altura. Inflacionamos o que obtemos, pois que tão pouco amor e tão curta a vida. Atiramos a primeira pedra àquele que finalizou em último a corrida dos metros que nunca foram dele e gastamos as métricas de todos os versos, porque temos dez dedos apenas para numerar as sílabas.

O meu amor é maior que o dele. A tua dor é menor que a minha. A felicidade é sempre pequena. A fracção de segundos é sempre uma vida e acabamos debaixo de sete palmos de terra, porque afinal os homens não se medem aos palmos, nem se medem às palmas.

 

Talvez os homens se calculem apenas na ausência da ordem dos compassos dos outros, quando sozinhos olham a própria cegueira e se apercebem que o Nada é bem melhor que o Zero.            

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A Gaffe de Pessoa

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Admito que uma das razões que me afasta irremediavelmente de um blog - já não menciono uma página do facebook, porque neste caso fico com rinite aguda e urticária - é a proficuidade com que sou bombardeada por saudações ao mês que se inicia, pela quantidade de santinhos que nos abençoam, pelas máximas atribuídas a gente morta - há imensas que são creditadas erradamente -, por passarinhos e gatinhos que pretendem motivar-nos e pelo sol poente encimado por uma qualquer patacoada relacionada com o mindfulness.

Desisto de imediato e viro a página.

 

Há no entanto uma pequena beliscadura que me deixa a sangrar de irritação nestas paisagens.

 

Como quem arranca um dente sem anestesia, há gente que estrafega uma frase alheia, isolando-a, torcendo-a e distorcendo-a de modo a que sirva os seus intentos. Normalmente bondosos. Se por estas bandas largas nos é fácil amortecer a dor, ou mesmo evitá-la, usando um clique milagroso, na vida, na real, não nos é permitido tal façanha. Somos de boas famílias e nadas em berço de oiro, portanto noblesse oblige.

 

É particularmente penoso ter de arriscar a minha saúde em nome da polidez e da civilidade com que é ouvido um amontoado de lugares comuns, de tolices hipócritas, de lantejoulas literárias coladas com saliva a pretensas boas intenções.

Nunca tive coragem para pulverizar conversetas deste teor e passo horrores a tentar entrar em piloto automático.

 

Esta deficiência arrasta consigo outras anomalias. A inveja, por exemplo.

 

Tenho imensa inveja da capacidade detida pela minha irmã de fazer explodir no meio de uma colecção de violinos, uma daquelas bombas que só deixam vivas as ervinhas - e os sapatos dos interlocutores para memória futura.

Morro de inveja quando no encadear de um discurso pio, doce, amoroso, terno, de bandeira branca desfraldada e empunhada pela senhora pia, doce, amorosa e terna, se ouve, fechando-o com chave doirada, a desgraçada e arrancada a ferros:

 

- O melhor do mundo são as crianças.

 

Com uma seriedade assustadora, com um sinistro brilhozinho nos olhos, com uma quietude muito pouco cristã e com lâminas nos dentes, a minha irmã fustiga:

 

- E o melhor das crianças são aqueles pespontos perfeitos nas carteiras Hermès.

 

Pode não ser bonito ouvir, mas aniquila instantaneamente o cor-de-rosa bebé.  

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A Gaffe dadora

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.18

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Whatever you do

always give

100%

 

A não ser, meus queridos, que estejam a dar sangue.

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Gavetas:

A Gaffe em rodopio

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.18

rodopio

 

Fazes da minha cama o amanhecer.

Agora consigo vislumbrar a tua pele.
Agora entendo a migração das águas.
Tenho o teu corpo em sépia e em dourado, a transformar-me em onda nesta manhã de areias esmagadas.

Estás adormecido e o espanto de tu estares assim, nu e quieto, prolonga a luz nas sombras e acidula os objectos.

Não sei mesmo se sonho ou se acordada te vejo a dormir.

Os lugares onde me perco estão toldados e misturo as vozes de tempos diferentes. A minha realidade é um mar aberto. Separadas as metades, deixo de saber em que lugar fico.

Não sei se em ti habito e deixei de ter lugar em mim.

 

E rodopio.

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Gavetas:

A Gaffe modificadora

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.18

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Morrer de amor é sempre um plágio.

Ninguém, depois de Romeu, morre de amor de forma original.

 

Matar - literalmente - por amor, é ocorrência que não existe. As motivações dos assassinos são sempre distintas do nobre sentimento, embora inquérito recente e bastante fiável, nos tenha revelado que uma assustadora percentagem das nossas jovens universitárias admite, aceita e normaliza, uma dose de violência no namoro que exclui aquelas tolices de Mr. Gray. É mesmo pancada sem glamour ou pitada de pimenta.

 

Resta-nos um matar metafórico que consiste nas sucessivas tentativas de levar ao suicídio a personalidade de quem amamos.

 

Somos peritas a tombar de amor por rapagões que colapsam ao nosso encanto, que perto de nós tremelicam, que cavalgam perigos e desbravam mato mesmo sem ordem da Protecção Civil, que esfolam a alma nas esquinas dos nossos desejos, que nos colocam brilhantes no dedo apenso à noiva que somos mesmo sem saber e que aceitam estoicamente os dias em que acordamos desgrenhadas.

Apaixonamo-nos por sacanas, por patifes, por rufias, por génios, por heróis, por deuses que passeiam pela brisa da tarde, por anjos, por demónios e por coisas BOAS - podem não existir coincidências entre as categorias referidas e esta última -, exactamente porque são aquilo que vemos.

No amor, temos sempre a consciência do erro quando o cometemos. Sabemos com clareza que aquela barba estupenda esconde a cicatriz do mafioso, ou que aquela careca é evidente repercussão de santidade franciscana.

 

Matamo-los com amor.

 

O nosso primeiro instinto assassino é aproximar o pobre bicho do animal de estimação com que sonhamos desde a tenra infância enquanto, vestidas de princesas ou de fadas, massacrávamos o pobre rapazinho de folguedos pueris, ao perceber que a varinha de condão não funcionava - a dele, pois que era cedo, embora nos tentem convencer  depois que interessa apenas a magia.

Somos capazes de obter um gatinho a partir de um tigre e um tiranossauro a partir da porcaria do peluche que nos coube em sorte. Conseguida a proeza, o homem por quem nos tínhamos apaixonado, já está morto.

 

O nosso amor, neste fenómeno específico, é uma arma poderosíssima e se a mansidão, a sedução, a manipulação amorosa, ou a nossa nudez esplendorosa - e o que não se diz, por ser secreto -, não funcionam, encontramos sempre os alfinetes em brasa para acabar com a treta.

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A Gaffe silenciada

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.18

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Olham-se e continuam a trespassar com os dedos o corpo um do outro e a fingir que é amor a dor dessa vertigem.
De olhos sem sentidos, a disparar palavras sobre a carne.

É trágico quando o que faz falta ao nosso silêncio, para que o silêncio do outro seja completo, é que até a solidão se torne muda.

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A Gaffe lembrete

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.18

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Agora, minhas queridas, que já comentaram todos os vestidos dos Óscares, não se esqueçam no trabalho do vosso casaquinho dos saldos da Zara.

À noite arrefece imenso.  

 

Foto - Erwin Blumenfeld, 1954

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Gavetas:

A Gaffe mal acorda

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.18

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É usual ouvir amaldiçoar as Segundas-feiras. Há canções que dedicam acordes e palavras a castigar o primeiro dia da semana.

Confesso que nunca percebi a razão deste ódio ruidoso. Nunca senti a nostalgia a invadir-me no anoitecer de um Domingo, nunca me senti invadida pela depressão que por norma chega apensa a uma despedida dolorosa e nunca adormeci, na véspera de um início, revoltada com a quebra da tranquilidade e do laissez faire laissez passer dos dias de descanso.

Acordo sempre intragável, seja em que dia for.

Sou solidária com criaturas que cegam com a luz matinal. Apoio o não movimento. Dou a mão aos sonolentos caracóis que se arrastam até ao suicídio que é abrir as janelas e deixar o mundo entrar.

Sempre gostei e sempre acreditei nas pessoas que se parecem comigo.

Não é de todo necessário que sejam minhas sósias. Não é preciso que as situações caiam no exagero, pois é bizarro encontrar a Teresa Salgueiro na voz da Susana Travassos, mas é reconfortante perceber que não estamos sós neste planeta muito pouco azul por onde voam as cegonhas.

 

Posto isto - e sublinhando o facto de não ser premente que haja gente com particularidades iguais às minhas -, devo confessar que fiquei abismada, siderada, chocada, arrepiada e todos os superlativos que se consigam encontrar, quando, hoje de manhã, abro o pequeno aparelho que me coloca em contacto com o universo e dou de caras com uma criatura que traz o meu cabelo, caracol por caracol, curvinha por curvinha, corzinha por corzinha, colado à cabeça, tudo juntinho e com o mesmíssimo corte!

Um plágio.

Fiquei em estado comatoso quando reparo que é um homem!

Antes a Jessica Rabbit.

 

Não se faz!

Provocou-me o mesmo efeito que o erguer das persianas.

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Gavetas:

Redacção da semana: O Festival deste ano

rabiscado pela Gaffe, em 02.03.18

A minha tia diz que nunca mais vê o Festival da Canção porque o cantor Piaçaba foi embora. Se ele ficasse era a a minha prima que nunca mais via porque o Paiçaba fez um págino que é uma página do Bolco de Equerda. A canção do Piaçaba era a melhor e até nem sai da cabeça da minha tia porque já cantou aquilo num coro muito bonito da goldexpele chamada Maranatá Savará que é da Igreja onde os bispos andam a caçar os filhos para os salvar. É assim como o cabelo do senhor José Cide que só sai para ir à lavandaria porque tem um tocolante que se prega à moleirinha. A gente a bem dizer fica com muitas coisas coladas à cabeça que não se soltam. Eu por exemplo quando ouvi o cantor Piaçaba lembrei-me do senhor padre Borga põe a mão na mão do teu senhor e aleluia põe a mão na mão do teu senhor e aleleuia põe a mão na mão do teu senhor e aleleuia. Não sei o resto mas isto fica. Andei quase dois meses à rasca porque me disseram que os cachopos que se metem na mão dos senhores ficam vítimas dos podologistas. As coisas que a gente não consegue tirar da cabeça ocupam muito lugar e não deixam que entrem coisas novas. A minha mãe diz que é do tempo da Maria do Inô que cantava ao piano uma coisa muito bonita com muita gente toda calada. Eu não sei quem é a Maria do Inô mas se for a da caixa é uma puta que me deu uma chapada quando trinquei um caramelo porque pensava que aquilo era uma oferta dos pontos tocolantes que a minha avó juntava num papel. Mas só davam os copos vazios que os rebuçados eram para enfeitar. É como o festival. Há muitos copos vazios com caramelos dentro mas só a Dina é que pode trincar morder e meter na cesta ai meu amor d’água fresca que tanto tem faltado no Alentejo e nas vacas por causa das alterações clítoricas. Eu desta vez gostei mais ou menos das liminantónias do Festival da Canção. Aquilo foi muito pobre. Nem parece que já saímos da crise do senhor Passos que dá na Quaresma. Toda a gente veio com uns trapos de merda. Aquilo estava tudo roto. Só tinha desculpa uma mocinha que andou no circo e foi atacada por um tigre que lá há e ficou assim rasgadinha. Das músicas gostei. Gostei de todas. Nem sabia para onde me havia de virar. Fiquei quietinho para não haver coisa que eu já sabia que vinha trampa quando o Jerónimo comeu uma banana quando há gente a passar tanta fome no mundo. A minha prima até teve um ataque de nervos que ela sofre muito deles e colou o dedo do meio à televisão a gritar come esta ó morcão pensas que estás em tua casa. O meu pai disse que aquilo era já efeito do acordo ontrográfico. Agora as pessoas fazem o que lhes apetece. No tempo dele onde já se viu a Senhora Dona Simone a mamar fruta na televisão. Vem o acordo e é tudo um regafofe. A mim só me deu fome. A minha professora já disse que temos de escrever com o acordo ontrográfico porque nos parte os dentes um por um se usarmos as coisas velhas que não se soltam da cabeça assim como o cabelo do Senhor José Cide para dar um exemplo. Temos de ser arejados como os brasileiros. Ai de nós se cantamos como o senhor José Cide ou a Dona Anabela que são antigos e não adoptam as antrografias modernas. Mete-nos em phila e pumba. É sempre a eito. Agora acho que estou cansado. Vou ver a Haide que dá na televisão memória. A Haide tem sempre músicas muito simples como a do Piaçaba. Devia ganhar. 

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A Gaffe de William Hamilton

rabiscado pela Gaffe, em 02.03.18

Maria Antonieta levada para ao cadafalso - William Hamilton

E toda a malta gritou

Até o padre ajudou

Aperta, aperta com ela

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Gavetas:

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Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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