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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ignorante

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.18

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Passei cerca de duas horas no cabeleireiro.

 

Decidi cortar o cabelo. Queria-o curto e fácil de tratar. Só entrego operações deste tipo ao Miguel que conhece o modo como me consigo enfurecer quando há deslizes capilares.

O meu querido amigo estava ocupado com uma rapariguinha que reconheci.

 

Está noiva do J., um rapagão que por sua vez esteve outrora, no antigamente das estrelas, perdido de amor pela minha prima.

 

É mais bonita do que nas fotografias. Mamalhuda e com as ancas potentes e um futuro parideiro. Tem um sobrenome do tamanho da fortuna que herdará. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses. É tradutora/intérprete na empresa da família. Tem ascendência aristocrata e raiz em Ponte de Lima. Católica praticante. Não tem filiação política. É alérgica a morangos. Sofre de enxaquecas. Vai a Londres, aos saldos, e é insolente com tudo o que sente inferior ou subordinado. O J. é o seu primeiro namorado.

Há mais duas ou três informações que não ouvi, fornecidas pelo fastio da mulher que as obteve, sem as desejar, da indiscrição de quem não é capaz de se libertar do domínio patológico de uma antiga amante.

 

Tem uma revista na mão e tagarela com o Miguel.

Não consegue decidir! O penteado!

Folheia nervosa o casamenteiro volume.

- Não faço ideia! - volta-se para mim. - Gosto deste, mas ao mesmo tempo parece-me vulgar, não acha? - crava-me a página no colo.

- O ideal é não ouvir opiniões - sorrio eu, sincera.

- Isso é verdade. Sobretudo quando as pedimos a gente que não sabe do que gosta.

 

Olhei-a pelo espelho. Tem na boquinha um sorrisinho de desdém todo florido. Deve ser aquela a expressão do inocente que desconhece que ao seu lado está sentado um serial killer e resolve mordiscar a pouca sorte.

 

Era fácil fazer-lhe explodir a revisteca nos dedos. Bastava que lhe descrevesse num sussurro grosseiro o anel de noivado - que não está a usar - que mereceu o deferimento da outra mulher quando o desiludido rapazinho lhe confessou hesitante, dias antes, que era o mesmo que tinha usado para a conquistar - o devolvido aquando da recusa; bastava que deselegante a aconselhasse a não usar lubrificantes com sabor - irritam a piloca descoberta do pobre noivo sujeito a cirurgia para resolver uma fimose dolorosa -, mas o Miguel voltou-se para mim, pronto a receber as minhas instruções.

 

Sei do que gosto?

 

Toda a minha vida procurei, esgravatei, cavei, esquadrinhei, remexi e espiolhei tudo o que o que suspeitava não poder ter. O que compensasse este sentir-me ausente do saber.

 

Sei do que gosto. Devia fazer uma lista em Excel. A que surge de repente é caótica e avulsa.

 

Gosto de Brahms, do Sabat Mater de Dvorak. Gosto de Rimsky-Korsakov, de Rachmaninoff, e de Ravel. Gosto das Variações Goldberg nas mãos de Glenn Gould. Gosto de mulheres que cantam jazz. Gosto de Nina em Nina Simone, de Aretha Franklin, de Billie Holiday e de Shirley Horn. Gosto de smooth jazz na voz dos homens. Gosto de Callas em Tosca. Gosto de Anna Netrebko e de Maria Guleghina. Gosto de Puccini. Gosto de Wagner. Gosto de Nabucco de Verdi e de Werther de Massenet. Gosto de Literatura Russa e dos clássicos franceses. Gosto de Proust, de Balzac, de Maupasssant. Gosto de Collete.

Gosto de Pablo Neruda.

Gosto do Faulkner que existe em Lobo Antunes.

Gosto de Nureyev.

Gosto de Giacometti.

Gosto de Caravaggio e de Vermeer. Gosto de Rubens. Gosto de Velásquez. Gosto de Monet e de Manet.

Gosto de Vieira da Silva. Gosto de Miguel Ângelo, de Rodin e de Brancusi.

Gosto de Corbusier, de Siza, de Koolhaas e de Niemeyer.

Gosto de Dior e de Cartier.

 

Gosto de milhões de nadas que não digo e gosto de homens que não sabem disso, assim como não sabem do único perfume que escolhi para mim - o único que sei que é meu, o único que gosto por sentir que se torna de repente a minha pele -, e que ignoram o nome daquele que devem usar para me vencer.

 

Sei do que gosto.Tenho de saber.

 

O Miguel acabou.

Olho a rapariga ainda presa à revista.

 

Não gosto do penteado que escolheu.

 

Ilustração - Bill Mayer

 

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