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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe já escrita

rabiscado pela Gaffe, em 15.05.18

MJ

 

O quarto ao lado do meu ficou deserto.  

Sobre a cama foi deixada a colcha tricotada a cores.  
As lâmpadas quebram lentamente os filamentos sem que ninguém as venha substituir.  
Através da porta de ligação chega um frio e um escuro inusuais. O silêncio torna os dias mais desprotegidos.  
O pó avança lento do quarto vazio quando a casa se fecha e adormece.  

 

Tantas vezes ali estive. Tantas vezes fiquei parada perante o brilho, de olhos a arder por não o ter, que acabava por olhar mais atentamente para as rotas de outras vidas que são como derivas nos mapas das estradas que se perdem.

Era nesses desvios que me fixava, nesses pontos de luz que me deitava.  

Entrava nestes trilhos devagar e às vezes saía de mansinho quando a vontade de chorar se começava a fazer ríspida na garganta.

Às vezes sorria.

 

As raízes do riso e do choro pertencem agora ao silêncio. Emaranhadas, acabarão por se tornar impossíveis de destrinçar. Ficarão de tal modo unidas que uma simbiose secreta impedirá o esquecimento mútuo.

É certo que de raízes pouco ou nada há no meu jardim deserto. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido e agora pouco mais.  

A minha casa inteira entardece devagar. 

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Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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