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Ilustração - Fernando Vicente


Redacção da semana: O casamento da Princenza

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.18

Eu por acaso não devia dizer nada disto mas sei que o meu primo Zeca vai vender o que arranjou à televisão CM e penso que é uma vergonha um cagão andar a mostrar a vida alheia na televisão como fizeram ao senhor engenheiro. Por isso antes que se saiba e a senhora dona Rainha ficar furiosa vou dizer tudo. Assim deixa de ser supresa e a senhora dona Rainha ainda me vai agradecer. Então é isto. O meu primo Zeca meteu microfones no apartamento da senhora dona Rainha. Ouve-se tudo e nem sequer é estrangeiro. Eu pensava que a senhora dona Rainha falava estrangeiro mas afinal arranha a língua de Camões como a minha professora diz e muito bem que Camões vai-lá-vai à fonte. O meu primo Zeca conseguiu aquilo porque fez um biscate de electricista ali em Tancos quando lhe pediram para montar umas coisas para vigiar os ladrões que havia muita falta de pessoal. Ficou com o material todo que ninguém percebe e quando foi ao estrangeiro compor os fusíveis a uma princenza chamada Sara Fergussa deixou aquilo ligado. A gente ouve a senhora dona Rainha a falar com a Mega Marques antes do casório e eu no fim nem digo mais nada. É assim que começa.

 

Então és tu amore que vais casar com o meu neto mainovo? Olha amore se a tua mãe vier ao casamento diz-lhe que não traga as mamas ao léu e aquelas saias de palha. A gente empresta-lhe um vestido da falecida. As rastas ainda aguento que desde que o rapaz não se case com um homem estou por tudo. Por falar em emprestar tu vai ali ao meu armário e escolhe uma bandolete. Não amore. Essa não que foi do casamento da Cátia Medleton. Há uma muito bonita que nunca mais a vi. Ora vê se não caiu lá atrás. Essa mesmo. Olha que tens de ter cuidado que isso não são Savarosquis. Isso é tudo verdadeiro que não quero que digam que não tens nada na cabeça. Depois deixas no hall. Vais como? Mostra lá o desenho. É um vestido do Gibanchi amore? É simples. Olha gosto. Mas podias levar um vestidinho teu. Levares um vestido de um homem vai dar que falar mas desde que vi as filhas da Sara Fergussa na boda da Cátia já não quero saber. Aquelas duas pareciam drogadas. Saíram à mãe que foi o mafarrico que me entrou pela porta dentro. Ela e a tua falecida sogra deram cabo desta merda toda. Cheguei a pensar que a mulher até podia ter um acidente mas depois lembrei-me que já tinha havido um e dava para desconfiar dos sítios onde eu enfiava os postes. É pena o casamento ser antes dos Golobos de Ouro da SIC. Podias ver uns modelitos e copiar que aquilo é sempre do melhor e assim como assim não precisavas de levar o vestido de um homem que nunca assenta bem nas mamas. Tu não quererás meter um cintinho com uns brilhantes à cinta? Ou assim umas flores bordadinhas em cheio no rego? Uns laços nos ombros? Uns arames no rabo para aquilo levantar? Umas rachas? É pena. Dava mais vida. Já falei com a  Cristina Ferreira e ela disse-me o mesmo e que até te emprestava um dos dela que é de gritos na passadeira. Mas pronto tu é que sabes e o casamento é teu que eu não me meto em nada. Empresto a bandolete e a quinta que parecendo que não ainda se poupam uns trocados e já mandei descongelar os rissóis que sobraram da festa da Cátia que agora é duquenza. Tu descansa que também vais ser duquenza. A duquenza de sussex por causa do assanhado do teu moço que só pensa nisso e já que se fala em assanhados tive uma boa lembrança. Tu podias era convidar o Bruno de Carvalho para fazer o discurso na missa em vez daquele padre americano muito enfuzivo que assim um pessoa sempre se ria um bocado. Há quem tenha o Raminhos e diz que fica bem logo ali à saída da banda filarmónica. Outra boa ideia era convidar o Zé Maria Richardi mais o Álvaro Sobrinho para cantar no fim que estes dois já cantaram em mais coros. Tens é de fazer de conta que não conheces o Marcelo ou vais ter de tirar uma selfes com ele que quilhas o protocolo todo. Olha filha agora vou-me que se faz tarde e ainda tenho de arranjar uma merda para vestir que dê com os semáforos que isto se uma velha se perde só lá vai com luzes.   

 

Depois aquilo desligou-se.

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A Gaffe numa história de amor

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.18
 

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Não há histórias de Amor se não forem magoadas. O Amor Feliz não tem narrativa. A Felicidade é analfabeta.

 

Sei de uma história de Amor coberta pelas sombras. Não a sei contar, porque devo ser feliz, ou porque há vendavais ensandecidos que emudecem na história de Amor que eu não sei contar, ou porque há covis onde as palavras estremecem, se acanham e definham, diante daquilo que é suposto ter palavras.

 

A história de Amor que eu não sei contar não tem começo. É como um rochedo. Nunca lhe conhecemos o início. O nosso limite está na paisagem que dele se avista e isso basta.

A história de Amor que eu conheço tem um rapaz lá dentro. Um rapaz de silêncios e penumbras que passava pelas portas quase sem abrir e que se reproduzia nas janelas, afastando pesados cortinados de veludo, para debruçar os olhos leves, indiferentes, sobre os montes pesados aos soluços. Era um rapaz breve. Passava pelas vidas tenuemente e não deixava rasto dos seus passos nas tábuas dos soalhos e das almas. Tinha saudades, diziam, da lonjura, de cidades que brilham no escuro e de jóias pintadas por flamengos. Tinha cansaço nos gestos, tédio nos olhos, enfado no sentir. Tinha promessas fatigadas de manhãs que nunca despertavam, juras afogadas no lago onde passava para dar comida aos peixes. Tinha gerânios e jarros para cuidar, na boca a textura de todos os jardins e tinha uma pérola presa por um fio, um anel de ferro e uma mulher, cega de Amor, aos pés.

 

Quando o rapaz morreu, ninguém ouviu falar da Morte. Fez-se o Silêncio.

 

O corpo veio de longe e foi fechado.

Depois cresceram árvores na mulher. Árvores que deixam o vento passar por entre os ramos de modo a que se ouça a voz do morto.

 

É uma história que eu não sei contar.

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