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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem milagres

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.18

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Quando caminhamos sobre as águas, há sempre alguém que diz que é porque não sabemos nadar.

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A Gaffe sem estatísticas

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.18

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Gavetas:

A Gaffe estampada

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.18

Sophie Malgat Litvak, Photo by Philippe Pottier, 1950.jpg

Quando a Gaffe vai visitar os pobrezinhos, protege-se imenso. Há aglomerações de bactérias muito resistentes nos montes onde esta população habita e uma rapariga de boas famílias arrisca-se a ficar doente. Pelo sim, pelo não, a Gaffe procura agasalhar-se o mais possível, tendo em consideração que esta gente espirra e tosse sem sequer ter o cuidado de colocar a mão à frente da boca. Apesar de suja e repleta de micróbios e de terra, uma manápula a servir de barreira entre nós e a porcaria, é aconselhável. Não bastam as galochas. Um casaco de peles é de acrescentar, pois que os pobres – que nunca se depilam - acreditam que somos iguais e desinteressam-se. Podemos ser caridosas sem receios.

 

Convém, contudo, não exagerar na restante indumentária.

É de considerar não esfarrapar o maravilhoso capital simbólico que detemos com um lapso de outfit. Uma rapariga esperta sabe que é desagradável ir acompanhada por Letízia de Espanha numa visitinha rápida aos migrantes que Roma não conseguiu receber dada a época de veraneio que esgota toda a oferta hoteleira, com uma t-shirt com o Italians do it better - e os deuses sabem que é verdade - estampado nas mamas. Reconhece também que não é de todo conveniente ter o  They don’t give a fuck about you cravado na carteira trash-chic Prada quando se vai ouvir o Guterres discursar a favor dos pobres que agora decidiram atravessar o Saara sem protector solar.

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A Gaffe admite a existência de códigos de vestuário muito maçadores que não devem ser quebrados, a não ser que queiramos provar que se fundiram todas as nossas ligações sinápicas na longa e penosa procura de alguém capaz de nos oferecer o casaco de peles com que nos protegemos dos pobrezinhos, ou que, contradizendo os maldizentes, somos no fundo - ou nas costas -, realmente muito genuínas, muito verdadeiras, e não estamos cá para enganar ninguém, embora tenhamos perdido por completo toda e qualquer noção do que andamos a fazer.

 

Apesar de na esmagadora maioria das vezes não ser aconselhável vestir aquilo que pensamos, a Gaffe não é apologista do abandono completo dos dizeres estampados naquilo que se usa - seria um encanto ler o ternurento Não matem os velhinhos  bordado a ponto de cruz na pachemina.

 

Há que reconhecer que acima de tudo um slogan não passa de uma tolice e, se for uma tontice bem pensada, pode coadjuvar da melhor forma possível uma aventura casual e inconsequente.

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O resto, tudo o que é usado sem critério, é só mau gosto.

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Gavetas:

A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.18

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A vida é assim:

Os tapetes de Arraiolos são lindíssimos, até veres um do Irão.

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A Gaffe apaziguada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.18

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O calor desabou.

 

Há duas semanas que sentia que poderia se me calasse passar despercebida e escapar às labaredas.

Sentava-se num dos bancos de pedra que rodeiam a cisterna e ficava quieta a ouvir a sombra a trepar pelas árvores frias. Começava a erguer-se do chão, tingindo-o de cinzento. Alastrava até encher a água de chumbo picotado pelo vermelho das carpas asfixiadas que vinham abrir a boca à superfície. Depois, como bicho insidioso, a sombra enlaçava os troncos dos teixos. Sentia o barulho rumorejante desse trepar irreversível.

As mãos da sombra são frias. Tocavam-me nos pés, nas mãos, na boca, e imobilizavam as palavras e os gestos e mesmo o toque ínfimo do fio de água que alimenta a cisterna se estilhaçava na pele líquida com a invisibilidade da finitude. Mergulhava nesta descoloração com a beatitude dos que desistem, com a aceitação dos suicidas e deixava que a consciência da minha morte crescesse indolor.

 

Dentro de mim, a morte vai crescendo igual à sombra da cisterna e a placidez deste facto tranquiliza-me, como me apazigua a sombra a crescer nos teixos frios.   

   

Agora o calor desabou e um pavão destrói a obscuridade com o grito de jóias estridentes.  

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A Gaffe laçada

rabiscado pela Gaffe, em 04.06.18

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 No corpete de Maria Antonieta, Rainha dos franceses, existiam laços que, pecaminosos, tinham nomes consequentes das posições que ocupavam no tecido e nas varetas que sufocavam Sua Majestade.

As fitas que nos mamilos da Rainha se laçavam, eram os pequenos contentamentos e aquelas que desciam ao encontro do início da púbis, sem a tocar, apenas aflorando o caminho doce que a ela chega, a chave da felicidade.

 

Os laços e os nós são, na lingerie, a essência da feminilidade, imprescindíveis no jogo de sedução e do prazer e contribui de forma decisiva para que sejamos donas do universo em que o erotismo deixa marca.

São o modo como tecemos a teia e o primeiro vibrar anunciador da queda da presa.

 

Maria Antonieta, Rainha decapitada de uma França já perdida, reconhecia o poderoso apelo das laçadas mais íntimas. Sejamos pois absolutas soberanas no reino onde sabemos dominar.   

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Gavetas:

A Gaffe em Cooper's Hill

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.18

A Gaffe, de forma a tornar mais assertiva e consensual a eleição dos membros das - pelo menos estas -, centenas de comissões de inquéritos fundeadas no Parlamento, recomenda a adopção do método usado pelos queridos de Gloucestershire. É tudo muitíssimo mais democrático quando ficam demonstradas desta forma, e seja em que circunstância for, a perícia e a competência dos representantes do povo, assim com é certo e sabido que os escolhidos resistem a todo o tipo de pressão e força de bloqueio - sobretudo a centrifuga e a da gravidade.

 

De sublinhar que esta proposta acolhe a anuência de figuras de todos os quadrantes sociais e políticos. Temos, à laia de exemplo, ao minuto 0.35, António Costa - que de tão optimista, perde a cabela -, e logo atrás o Batman (1.43), seguido de Salvador Sobral que fazem questão de nos mostrar como são particiativos e, ao minuto 2.07, Rui Rio exibe toda a sua pujança. Reportamos também imensos adeptos, quer do Sporting, quer do Benfica, a Cinha Jardim (2.40) seguida por Sócrates (2.50), por Jerónimo de Sousa - a tentar salvar o gorro russo - ao minuto 2.30, pelo padre Borga (3.22) e por Catarina Martins (logo ali ao minuto 4.55). 

 

A Gaffe não pode deixar de destacar, no entanto, Assunção Cristas que, ao minuto 5.15, nos prova como é possível chegar rapidamente a resultados altamente positivos se as almofadas - económicas ou outras -, estiverem em condições de enfrentar qualquer tipo de embate e se o outfit for apropriado.

 

 

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