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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num voo

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.18

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Regresso finalmente à luz da superficie plana que fora de mim suporta o que de frio tem a vida inteira, como que chegada a um corpo numa manhã de tronco nu.

Regresso ao corpo da manhã de tronco nu. À curvatura do peitoral esquerdo onde lateja com mais força o coração. Batida certa, compassada e branda.

Regresso ao corpo de Paris como quem se perde, como quem espera num porto o marinheiro que se quebrou no mar, ou dentro da orquídea da nuvem sobre as ondas, e abro as mãos despidas sobre a pele até a pele doer devagarinho, até sentir os peixes dentro dela, retorcendo escamas, reflectindo a lua e mordendo a água que é suor e pedra.

 

Lá fora a minha Avenida passa por mim e entra no meu peito.

Desenho no vidro da partida a saudade que chegou precipitada. Sempre adiantada, a saudade em mim! 

 

Durante todo este tempo de interregno, um tempo da Avenida com um nome tropical, um tempo de Ribeira Negra e gritos de gaivotas, esperei sem destino ou marca, quieta e obediente, que dentro de mim se rasgasse uma janela que perdesse o que fui, quase consciente da minha vacuidade e da inutilidade dos meus olhos. Durante o tempo da Avenida não fiz perguntas a não ser por dentro, sem nunca me esquecer por um instante que a alma não responde ao ritmo do bater do coração da dúvida.

 

Olho agora este meu Porto quieto e percebo o modo como se fechou cobrindo em mim aqueles que passavam. Um imenso cão de guarda de sentinela a um berço.

 

É tempo de me entregar a outra luz e nenhuma outra luz me lavou o corpo como a de Paris.

Paris dentro da chuva, solta nas ruas, presa nos telhados, procura a minha alma para se abrigar e vai encontrar a minha Avenida coberta de mar agarrado às pedras e um Porto inseguro com sabor a vento.

 

Espera-me a madrugada de Paris sobe os telhados que doura a saudade do Douro no meu peito. Cachos de janelas, parras de cortinas e a quietude dos socalcos dos andares onde canso os olhos na subida. Paris despovoada na Avenida e um rio no voo do pardal. A concertina num cesto de vindimas e o meu corpo nu na valsa de calcário.

 

Cet air qui m'obsède tour et nuit
Cet air n'est pas né d'aujourd'hui
Il vient d'aussi loin que je viens
Traîné par cent mille musiciens
Un jour cet air me rendra folle
Cent fois j'ai voulu dire pourquoi
Mais il m'a coupé la parole
Il parle toujours avant moi
Et sa voix, couvre ma voix

 

Padam, padam, padam…

 

 

Il arrive en courrant derrière moi,
Padam, padam, padam, il me fait le coup de «souviens-toi»
Padam, padam, padam, c'est un air qui me montre du doigt
Et je traîne après moi comme une drôle d'erreur
Cet air qui sait tout par cœur.
Il dit rappelle-toi tes amours
Rappelle-toi puisque c'est ton tour
Il n'y a pas de raison pour que tu ne pleures pas
Avec tes souvenirs sous le bras
Et moi, je revois ce qui reste
Mes vingt ans font battre tambour
Je vois s'entrebattre des gestes
Toute la comédie des amours

 

Padam, padam, padam, des «je t'aime» de quatorze juillet
Padam, padam, padam, des «toujours» qu'on achète au rabais
Padam, padam, padam, des «veux-tu, en voilà» par paquets

 

Et tout ça pour tomber juste au coin de la rue
Sur l'air qui m'a reconnue
Ecoutez le chaout qu'il me fait
Comme si tout mon passé défilait
Faut garder du chagrin pour après
J'en ait tout un solfège sur cet air qui bat, 
Qui bat comme un cœur de bois.

 

Piaf (1951)

Música - Norbert Glanzberg

Letra - Henri Contet 

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Gavetas:

A Gaffe sombria

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Via-os passar iluminados pelo calor.

Ficava parada a observar-lhes as sombras que se contorciam nas pedras, mais maleáveis ainda que os corpos que as deixavam escapar. Sempre me pareceram mais frescas, as sombras, mas talvez fosse dos vidros frios onde me fechava para as ver atravessar. Talvez a dependência da luz as arrefecesse. Talvez a percepção da inexistência daquelas manchas na ausência do brilho gerador, me fizesse acreditar que não me afligiam, escaldando como os corpos.

Inspiravam-me confiança, aquelas sombras.

 

Dependo de sombras.

Dependo demasiado daqueles que me asseguram um frio de abrigo quando a luz se enfurece.


As ausências da minha irmã e do meu irmão provocam-me uma sensação de desabrigo e de falta de ar que controlo mal.
O meu irmão tem olhos com paisagens retiradas do rio, mas tem também obscuridades de fúria e desalmamento que se estendem pelas ruas como negritudes. Os abismos da sua alma, que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem, dão-me a sensação angustiante de queda e de abandono, mas, em simultâneo, abrigam-me e turvam ameaças.
A minha irmã tem alma veneziana. Canais de pedras húmidas e praças sombreadas. Há gôndolas e palácios de claridades entrançadas, mas o escuro afunda os alicerces e é neles que encontro o meu esconderijo.


Dependo destas sombras de praças deitadas sobre a luz que passa.


A minha irmã e o meu irmão e a sombra das águas quando os dois se juntam para me abrigar.

Nada mais é meu. 

 

Fotografia - Alair Gomes

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Gavetas:

A Gaffe carnívora

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.18

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Gosto de comer, mas sou carnívora. 


Gosto de sentir os dentes a afundar em carne tenra e suculenta, de sentir os molhos aromatizados a banhar-me a boca.

Gosto de lamber nacos de carne para lhes sentir o sabor das ervas que lhes deram alma.

Gosto de lamber a alma da carne. 
Gosto de sentir os ossos a estalar, quebrados pelos dentes, de sucos de carnes frescas assadas com ramos de alecrim.

Gosto de morder enchidos até espalhar todos os sabores por toda a boca, misturando-os em orgias de saliva. 

Gosto de trincar, morder, dilacerar, esmagar, cortar, ferrar, mascar e misturar em carnavais de sabor e baba as carnes suculentas que afago com a língua até me enfurecer.

Gosto de sentir correr pelo queixo os fios de saliva e molho e de lamber os dedos.

 

Com as sobremesas sou mais sofisticada.

 

Ilustração - Ricardo Martinez

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A Gaffe inquirida

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.18

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Pequeno Caso Sério provocou.

A menina sabe que a Gaffe não gosta destes jogos, que os contorna sem vergonha e que não respeita as regras quando percebe que não consegue escapar por entre as gotas das palavras, usando o guarda-chuva da tontice. Neste caso, e apenas porque o desafio partiu desta maravilhosa tresloucada, sabe que não quer esquivar-se.

Tem de encimar as respostas com uma imagem fofinha. A Gaffe escolheu uma fotografia de vários bichinhos absolutamente amorosos, do mais fofo que há, e com a vantagem de se poderem vestir.

 

Preparem-se então para o massacre.

 

 Sou muito...   

… ruiva. Tão ruiva que não me canso de arranjar lenha para me queimar.  

Não suporto... 

… ostras e caviar. Quando provei, senti que estava a mastigar a pila do Cavaco Silva.

Eu nunca...

… comi bichos que olham estarrecidos para mim depois de cozinhados.  

Eu já... 

… dei o contacto da minha irmã a um nadador-salvador que me convidou para jantar quando piquei o dedinho do pé na alforreca do cérebro do rapaz. O infeliz passou a sofrer de stress pós-traumático de guerra.

Quando era criança...

… descobri que um par de estalos de deixar queimado o cérebro, esturricava a língua dos meninos que me chamavam fósforo.   

Neste exacto momento...

… tenho saudades dos meninos que me chamavam fósforo. Uma rapariga tem de queimar calorias, mesmo que sejam as dos outros.   

Eu morro de medo...  

… de baratas e de morcegos. As primeiras, porque me disseram que sobrevivem sem cabeça e a uma guerra nuclear, os segundos, porque me disseram que se enredam nos cabelos. Podem ser só boatos, mas, pelo sim, pelo não, os outros que experimentem.      

Eu sempre gostei ...

… de barbas. Obrigava o meu irmão a colar ao queixo os pêlos que cortava da cauda da cadela das nossas infâncias. Eramos crianças muito criativas.

Se eu pudesse...  

… acabava com a pobreza no planeta. Os pobres têm mau hálito e imensos filhos que trepam a todo o lado. São tão maçadores! Também havia Paz no planeta e tudo, e tudo, e tudo. 

Fico feliz...  

… quando revejo Cavaco Silva, porque me faz lembrar que tenho um amigo arqueólogo que é taxidermista nas horas vagas - pormenor que prefiro esquecer amiúde.  

Se pudesse voltar no tempo...  

… apanhava qualquer coisa com rodas que me levasse ao futuro, ou casava com Júlio César e seduzia Marco António - brutamontes morenos, suados, musculados e de mini-saias com tiras de couro, são sempre atraentes seja em que época for -, só para torcer o nariz a Cleópatra.   

Adoro... 

… a gastronomia do Norte de Portugal. Como como uma psicopata criminosa encarcerada e agradeço que seja na solitária.

Quero muito ir... 

… à merda. Há imensa gente que me aconselha este destino. Parece que gostaram de lá estar.

Eu preciso...

de férias. Colei na parede do meu gabinete um poster da Jamaica e pedi que me atassem uma rede de descanso ao bengaleiro e ao puxador do armário. Estou quase lá!  

Não gosto de ir…

... a marisqueiras. Os bichos mortos ficam a olhar para mim todos esbugalhados e há sempre a pila de Cavaco Silva no menu.

 

Vá, não se irritem. Já acabou. A Gaffe fica sempre muito feliz por poder partilhar uns pedacinhos da sua alma convosco, embora, valha a verdade, se borrife para quem a seguir vai pegar no desafio.

Um monstro, esta mulher!

 

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Gavetas:




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