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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe rapidinha

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.18

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Entranhada em superficialidade, encharcada em futilidade, embebida em inutilidade, a Gaffe pousa um preclaro pé calçado com o ordenado de um professor português, no granito da sua saudosa Avenida portuense. O outro ordenado cumpre o que planeou. Sempre que o mar se avistar da sua janela, a Gaffe afastará cortinas digitais e afogará saudades espalhando palavras no allure tonto deste lugar abandonado.

 

A Gaffe chega diferente.

 

Sem amigos - um amigo de uma mulher é sempre um maçador amante visto de perfil - e certa de que a sua única amiga, que permanecerá fiel toda a vida, é a sua carteira Louis Vuitton, a Gaffe faz esvoaçar o seu novíssimo penteado que permite que as labaredas dos caracóis atinjam as copas da liberdade ruiva controlada apenas pela mão esguia da dona onde sobressai um Cartier em pérolas. Chega formosa e segura, atirando Leonor pela ribanceira dos camonianos amores, e em Dior pálido - contrapartida às temperaturas exaltadas do seu Porto. Atravessará durante uma semana inteira os lusos corredores ribeirinhos dos olhares copiosos que chicoteará com a indiferença de quem usa óculos escuros para não se ofuscar com o próprio brilho.

 

A Gaffe saracoteia revistas aéreas. Dedica-se há algum tempo aos valiosos temas que as preenchem e sente uma atrasada compreensão e, apesar disso, uma intemporal solidariedade, perante a dor de uma rapariga esperta que identifica a sua partida d’algures com a morte de um elemento da realeza britânica. A Gaffe entende, pois que o seu próprio afastamento se assemelha à morte de Grace de Mónaco. São ocorrências com notórias semelhanças. Diana de Gales, esperta, não dista grande coisa da rapariga, esperta, que agora foi para outro lado. Ambas foram fabricadas pelas câmaras, ambas as usaram com uma eficácia a toda a prova, ambas distraíram e retardaram públicos, ambas foram fotografadas com pobrezinhos ao colo no centro de estudos de luz e ângulos selecionados atá á exaustão e desistência dos ditos e ambas deixaram órfãos que, segundo se vê, medram lindamente. O Goucha e o outro petiz continuam robustos e os príncipes estão felizes com as raparigas espertas que encontraram depois. Nenhuma abala ou abalou o planeta onde se extinguem.

 

É evidente que a escala é diferente. Uma é global, a outra é da SIC; é evidente que a princesa que se espetou contra o muro, teve a sensatez de passar a usar Moschino, Versace e Chanel, depois dos rabanetes, das couves e dos cogumelos da romaria com que se casou; é evidente que sabia murmurar, sussurrar, insinuar e alfinetar - sobretudo nas entrevistas; é evidente que adivinhava que não se cruzam as pernas até que se avistem as amígdalas nos salões onde estão as velhas; é evidente que a tiara não era tudo o que tinha na cabeça; é evidente que a tiara era mesmo de diamantes e é evidente que, nestas áreas - essenciais a quem se passa, sem a passa - os pontos passam ao lado da Serena Williams dos concursos de gritos.

 

Mas, meus amores, o resto não deixa de encaixar muito bem.      

 

Não aborreçam a Gaffe mal esta luminosa rapariga pousa dois ordenados dos professores portugueses nas pedras destas Avenidas, recordando o apelo do ternurento e fofo primeiro-ministro dos portugueses e das portuguesas que lhe garante que, se voltar definitivamente a esta floreira perdida à beira-mar, terá apoio no realojamento, pagará metade de um imposto que deixa de existir por falta de emprego e que se transformará em bruta, em parva, em retardada, em descerebrada, abandonando um salário que quintuplicou e que vai crescendo à medida que dá provas de eficiência, eficácia e dedicação.

 

Não desmotivem a Gaffe. Para desgosto já lhe basta Margarida da Dinamarca.  

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