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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem Alma

rabiscado pela Gaffe, em 08.10.18

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Subiam e desciam a ladeira lentos e lassos, de manhã e ao entardecer. Ele vinha sempre à frente, porque era mais novo, porque tinha mais força. Ambos velhos como o tempo que demorava a galgar o esforço.

Durante cinco anos vi-os passar da minha janela. Quatro vezes por dia. Nunca quis saber se tinham dono. Estavam bem nutridos e bem tratados, embora a cadela mostrasse por vezes sinais de maleita, raspando o dorso nas pedras dos muros até à ferida. Nunca lhes soube os nomes. Nunca quis saber.

 

- Ela é arraçada d’alma. Ele é um pastor.

 

Bastava. Ter um pedaço d’alma guiado por um pastor, é muito mais do que por vezes temos.

Não creio que fossem corajosos. Eram assustadiços. Tímidos, ensimesmados, de uma fragilidade comovedora que afastava os homens por respeito.

Quando a Alma se atrasava, o Pastor – dei-lhes eu os nomes -, voltava-se para trás e ladrava. Ela ouvia e vinha. Os dois caminhavam. Cambaleavam. Nunca os vi isolados. Amavam-se com uma simplicidade digna, com uma inevitabilidade eterna.

 

Há dias, o Pastor ladrou de modo inusual. Um ladrar insistente. Forçado, zangado.

Fui ver.

Estava sozinho.

Não completou o passeio habitual. Voltou para trás.

Voltei a vê-lo, depois e várias vezes. Sozinho. Não tinha Alma.

Passava devagar. Sozinho. Não ladrava. Gania baixinho.

 

Deixei de o ver.

Não sei se me sentiu chorar.

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Gavetas:



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