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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de 2019

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.18

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A Gaffe está extenuada. Passou estes dias a tentar perceber como é possível ser tido como simpático as famílias no poder - as reais e as outras - se prostrarem frente a uma câmera e considerando BCBG os votos de Feliz 2019 que vão grasnando mais ou menos constrangidas.

 

A única família lindíssima com um pai atraentíssimo, imbecil e arrogantemente estúpido, capaz de o fazer com um maravilhoso glamour, com vestidos de bom corte, tecidos airosos e aspecto absolutamente imperial, sem pechisbeques ao pescoço, sem árvores de Natal pindéricas, sem lareiras de plástico, sem tampas de caixas de chocolate a fazer de quadros, sem tapetes de Arraiolos de trezentos  aos pés, sem floreiras com pinhas pintadas e velinhas encaixadas pousadas na mesa de jantar de toalha estendida com coroas e bonecos de neve estampados - em suma, sem parecer possidónia -, é a dos Romanov.

 

A Gaffe e os Romanov, esperando que ninguém se entale com uma ou outra passa mais revolucionária, desejam–vos, portanto, um 

 

FELIZ 2019

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Gavetas:

A Gaffe em Astoria

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.18

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Apesar do aparato do costume, é sempre reconfortante saber que a minha irmã chegou em segurança a NY.

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Gavetas:

A Gaffe aos trinta

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.18

Trintona.jpgEm Abril de 2019, a Gaffe atinge os trinta e muito poucos anos, iniciando o seu percurso balzaquiano.

Não que a preocupe o génio com que o francês de eterno roupão descreve as mulheres que vão observando a subtileza com que se riscam as rugas, mas confessa que a intriga a distância e os pedregulhos que vão crescendo e surgindo entre ela e as que há uma década antes dela viram a luz do dia.

 

Esta distância é pedestre. Pode atingir todas as superfícies, mas começa indubitavelmente pelos pés.

 

A Gaffe não consegue deixar de sentir uma aversão descomunal em relação aos brutais penedos que as meninas jovens decidiram calçar e tornar o denominador comum das suas andanças. Um must, o pico do Everest, o orgasmo. A textura, o aspecto do plástico e as cores primárias aliadas ao preto e ao branco luzidios que acentuam as trombas grossas que fornecem aos pés, deixam a Gaffe próxima da revolta e pronta a enfrentar ataques terroristas.

 

Passada a indignação, a Gaffe desiste de sentir o cérebro quando apanha com os monumentais tacões, grossos troncos com uma base ondulada, que são compensados por uma plataforma igualmente embondeiro e com uma base também às ondinhas. A Gaffe não entende como é que estas raparigas não se apercebem que ao contrário do que se pensa, aquilo lhes aproxima os pés das ancas, fazendo-as parecer um dos carrinhos anões com pneus gigantescos que divertem imenso os americanos trepando e esmagando uma fila de sucata. Presos a eles, as leggings que deixam os tornozelos desnudos e quase obscenos a surgir daquele amontoado de plástico e os calções de couro que soltam a barriga apertada por lycras zebradas, fazem a Gaffe acreditar que o Apocalipse já anda à solta pelas avenidas.

Esta imagem feminina dá razão àquele que diz que uma jovem mulher é como a salcicha: pode ser boa, mas é preferível nunca saber como se arranja.

 

Outro sinal, este mais agradável, que os trinta e muito poucos anos da Gaffe estão no activo é o facto de já conseguir cruzar as pernas.

 

Não é de todo fácil.

Cruzar as pernas é das operações mais complexas que uma mulher realiza e a perfeição é atingida apenas com o tempo. Uma perna é colocada em cima da outra que, inclinada, constrói um ângulo agudo com o chão, e o mimoso pé da perna que se eleva vai prender-se na barriga da perna em sossego enquanto o tronco permanece numa vertical inatacável e se beberrica o chá.

As tentativas imaturas da Gaffe fizeram-na tombar, Torre de Pisa, e esbardalhar-se no sofá, suplicando auxílio para desencravar o pé e com a bebida derramada no colo dos brocados. Hoje, trintona, consegue contorcer-se na perfeição e acrescenta a este notável número de equilibrismo a bolacha de chocolate, duas gotas de leite no chá e um sorriso Charlene de Mónaco.

 

Ter trinta e muito poucos anos deve ser isto. Perceber finalmente que a idade também não está na cabeça, mas nos pés.

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A Gaffe em equipa

rabiscado pela Gaffe, em 27.12.18

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A Gaffe descobriu que uma equipa ideal é constituída por duas, quatro ou mais pessoas sem tempo nenhum para fazer o que quer que seja e uma que gosta de fazer as coisas à sua maneira.

 

Ilustração - Slava Shults

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A Gaffe dos enfermeiros

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.18

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A Gaffe acha lamentável os enfermeiros - e as enfermeiras, pois que esta menina é politicamente correcta - terem cancelado a greve de dia 26, 27 e 28 do corrente.

Não é bonito terem perdido a oportunidade de ultrapassar a velocidade de cruzeiro os 100 – cem! – dias de greve num ano. Um record que se perde sem apelo nem agravo. Os deuses sabem o quanto este país é parco em nomes no Guiness.

 

É evidente que a Gaffe reconhece como válidas e justas as reivindicações destes profissionais, mesmo não as tendo aprofundado. Estão fartos de ser maltratados, agora também através dos esforços hercúleos e um bocadinho constrangedores de Marta Temido que não estabelece conversações com criminosos, mas que revela que lhe foi proposto pagar quinhentos euros por hora a um anestesista - o que é obsceno, por ser verdade. Neste lugar à beira charco, qualquer reivindicação é justa e de atender, tendo em consideração o lamaçal e a água putrefacta que foi e vai inundando o areal que desde D. Sebastião continua à espera de messias.

 

A Gaffe aplaude a classe dos enfermeiros e a sua Ordem - que se comporta como um Sindicato, raramente limitando as suas acções aos motivos que a originaram e às normas que a regem e liderada por uma senhora que não parece fiável, tendo em consideração a manobra que lhe aumentou brutalmente o ordenado - quando declaram que apenas as cirurgias programadas foram proteladas. As urgentes, são sempre realizadas, afirmam.

 

A Gaffe não entende muito bem como se consegue, num país em que as listas de espera entopem as entradas dos blocos operatórios, distinguir com clareza uma cirurgia programada por não haver lugar ou espaço para a efectivar nos dias posteriores à detecção do problema, de uma cirurgia capaz de aguardar longos meses a sua vez de ver a luz em virtude do paciente poder aguentar - e aguenta, aguenta - o mal pela raiz, até chegar ao caule ou atingir a flor e o fruto.

 

Seja como for, é curioso verificar que uma cirurgia - programada por não ser premente e depois adiada por apanhar no bloco a greve dos instrumentistas -, pode num curtíssimo espaço de tempo transformar-se numa cirurgia de carácter urgente.

Nessa altura, atestam, o paciente é operado.

Provavelmente, sim. Acreditamos que sim. No entanto a intervenção tornou-se então muitíssimo mais complexa, mais perigosa, com maior risco, mais longa e mais exigente, o pós-operatório adquire elevada perigosidade, e a qualidade de vida do indivíduo é abalada e diminuída drasticamente.

 

A Gaffe considera que, ante de mais, é a qualidade de vida dos pacientes que as greves dos enfermeiros, que a juraram preservar, cuidar e defender, estão despudorada e imoralmente a menosprezar e a desprezar, embora se alvitre, com uma certeza bastante asséptica, que com um número tão elevado de intervenções adiadas, casos de extrema gravidade que colocam em risco a vida das gentes – a curto, a médio e a longo prazo -, possam e devam estar a ocorrer.

 

Usar como comprovativo de poder e de força as millhares de cirurgias adiadas - não é possível deixar passar em branco o efeito dominó que estas situações vão provocar -, é apenas usar uma pequena parcela do acontecido. Falta contabilizar os milhares de pacientes que, por exemplo, deixaram de ser apoiados nas mais básicas tarefas e necessidades quotidianas - estamos não só a referir os cuidados de higiene geral, mas também a falar de WC, de fraldas, de algálias ou drenos vigiados com insistência de forma a evitar propagação de infecção, tratamento de feridas, substituição de pensos, ou até mesmo de deslocação ao domicílio do doente, ou da deambulação do paciente com apoio especializado - que deixaram de ser realizadas.

 

A qualidade de vida dos doentes hospitalizados baixa tenebrosamente.

 

A verdade é que não existe qualquer razão - que não se torne um atentado aos direitos do cidadão -  para retirar aos enfermeiros - ou aos médicos, já agora leva-se tudo a eito, que tudo está à mão de semear - o direito à greve. No entanto, seria amoroso que esta classe profissional repleta de justezas e com mais que rectas reivindicações, encetasse outro tipo de luta que não colocasse em causa a qualidade de vida dos indivíduos doentes a necessitar de cuidados especializados.

A mobilização maciça da sociedade civil, por exemplo, seria alternativa viável, bastando para tal que os profissionais em causa se dispusessem a esclarecer, a alertar, a despertar, a motivar, a solicitar o apoio, a solidariedade e a compreensão dos que sabem, porque sentem na pele e no resto do corpo – seu ou do muito próximo - que um doente é exemplarmente cuidado pelos enfermeiros nos Hospitais portugueses adstritos ao Serviço Nacional de Saúde - com exepção dos serviços de ortopedia, onde todos parecem brutamontes saídos do Hades, credo!

 

Parece evidente que esta mobilização solidária embate com o enraizado quem quer que se cuide e não colhe frutos quando está em causa a causa dita alheia, mesmo quando essa causa nos toca por motivos trágicos, mas de través.  

 

Era mimoso ver na rua de cartaz ao peito, palavras de ordem na estrada, a lutar pelos enfermeiros, todos os familiares dos doentes internados, com a certeza de que os seus sofredores continuavam a ser cuidados com a qualidade extraordinária que é característica da esmagadora maioria dos sofridos pelos quais se manifestam.  

 

Era bonito. Cheirava a Timor mais pequenino.

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A Gaffe do Aniversariante

rabiscado pela Gaffe, em 24.12.18

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Gavetas:

A Gaffe a postos

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.18

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Está tudo pronto.

 

Sinto-me finalmente tranquila e capaz de me deliciar com o único rasgo de talento publicitário que me seduziu. Longe de historietas de ratazanas, longe de narrativas de famílias felizes e de duendes de pacotilha, deixo-me seduzir pelo anúncio de um carro. Um Mercedes escarlate que segue na cauda de um leque de tantos outros prateados, guiado pelo Pai Natal que trava a comitiva para que um dos presentes, um cachorrinho, possa pudicamente levantar a patita atrás de uma árvore. Uma ternura narrada de forma excelente e capaz de tocar todos os públicos.

 

Finalmente sou capaz de serenar.  

 

Está tudo pronto.

As decorações de Natal restringiram-se ao máximo. Nas jarras há troncos belíssimos de azevinho cortados da árvore que endoideceu e se agigantou encostada à parede da casa. O presépio pousado de novo no móvel de laca preta e a coroa de Natal, poderosa, a pesar toneladas, a encabeçar a lareira da sala onde se jantará. Foi necessário usar o prego fortíssimo que sustinha o espelho. É uma coroa maciça de porcelana branca, enorme, construída de pinhas e de folhas de carvalho entrelaçadas. Disseram-me que os dois elementos representavam as Boas-vindas e a Fidelidade. Nem sempre estão unidos. A parede nacarada atenua-lhe o impacto, mas sei que o fogo, mais tarde, lhe entregará reflexos dourados, ruivos e azulados.

 

A ementa preparou-a a Jacinta. Ninguém - jamais - se atreve a invadir-lhe as decisões culinárias.

 

Na minha frente, o meu Amigo lê.

Tem pousado no braço do cadeirão um volume grosso que vai consultando à medida que o livro que vai folheando origina dúvidas.
Mancha sempre o soalho de madeira com as botas sujas de jardim. Deixei de lhe pedir para ter cuidado. Ouço-o sempre pedir desculpa e arrancar a esfregona das mãos de quem limpa para envergonhado suprimir a falha. Vai voltar a sujar tudo de novo e vai voltar a suplicar perdão agarrado àquilo. Comporta-se como o Natal. Entra e macula com as botas o soalho da casa, senta-se depois na minha frente e entrega-me a mais surpreendente das serenidades, apaziguando o espaço preso nas folhas. Nas folhas de uma coroa de porcelana branca.

 

Começaram a chegar desde ontem.

A casa está em sossego, apesar de tudo.

 

A minha irmã chegará mais tarde. Minutos antes da ceia.

Travará o carro, abrirá a porta e deixará o perfume sair para alçar a pata na árvore endoidecida de azevinho.  

 

Fotografia - Niilas Nordenswan

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Gavetas:

A Gaffe amarela

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.18

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Ambrósio,

Cale-se! Hoje Apetece-me apanhar pancada da polícia.

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Gavetas:

A Gaffe trabalhista

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.18

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Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista inglês, cuspiu em surdina, em plena Câmara, um stupid woman em direcção a Theresa May. Minutos mais tarde, mente, negando o sussurro e proclama que jamais quis ser sexista ou misógino.

 

A Gaffe não considera que o honrado cavalheiro tenha sido coisa tamanha.

Não foi.

Corbyn foi apenas grosseiro e mal-educado, aliando estes mimos ao facto de não cuidar da pele e da higiene dentária.

 

Os honrados cavalheiros que a Gaffe conhece - e conhece vários -, não são sexistas, misóginos ou machistas. São educadíssimos, cultos e letrados, lavam os dentes, cuidam da barba e da pele, são donos de um capital simbólico e de um carisma incontornáveis, consequência também do facto de não possuírem rasto de Jeremy Corbyn a toldar-lhes o discernimento e de serem genuinamente elegantes.

 

O sexismo, o machismo e a misoginia são apanágio de homens pobres.

 

A Gaffe considera, no entanto, que a tríade reúne conceitos hipervalorizados.

 

Uma rapariga esperta sabe que as manifestações do grotesco masculino podem e devem ser rentabilizas e reorganizadas a seu favor.

Apoiemo-nos num exemplo simplicíssimo. Um clássico:

É uma delícia termos a possibilidade de observar um matulão, um macho, um bigodaço, convencidíssimo que somos incapazes de mudar um pneu, a suar apoplético, tentando desapertar aquelas coisas que prendem a roda ao motor. Quanto mais parvas e deslumbradas parecemos, mais o homem se esforça. Quanto mais imbecis e frágeis nos mostramos, mais o rapagão se estimula. Quanto mais estereotipadamente femininas conseguimos ser, mais o papalvo nos trata como princesas inúteis de conto de fadas, dotadas apenas para o esvoaçar etéreo do não fazer nada.

 

É evidente que desconhece que uma rapariga esperta não muda um pneu. Troca de carro.

 

Theresa May é - não duvidemos, pese embora dela possamos discordar -, uma rapariga espertíssima. O facto de ter sido apanhada a dançar para inglês ver, não o atesta, mas o sinistro ocorreu quando a moçoila tentou, infeliz, imitar os seus congéneres todos machos e muito propensos a bailar com o povo quando querem muito ser depois maestros. May perante a deselegância, a grosseria e a má educação do opositor - permitindo que o olhassem como sexista e misógino -, resolveu ler em silêncio, assistindo do meio das folhas à derrota do seu adversário. Percebeu naquele instante que o homem tinha alterado drasticamente o foco do debate onde corria perigo.

 

É que ler ajuda imenso. 

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A Gaffe da lamúria

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.18

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A Gaffe diverte-se imenso quando ouve um rapazinho bramindo ofendido que agora não se pode fazer nada a uma mulher.

 

Meus queridos, quando é que vos foi permito fazer tudo?

 

Ilustração - Celia Calle

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A Gaffe dos ...ões

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.18

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Caríssimos,

A Gaffe reconhece que se aproxima o Natal.

A Gaffe admite que esta quadra é propícia a desilusões, a frustrações, a aflições, a decepções, a apreensões, a preocupações, a inquietações e a apoquentações, pois que os rapagões nunca acertam nas escolhas que fazem.

 

A Gaffe propõe nesta data que os matulões nos ofereçam livros.

 

Podemos não os ler, por serem Trumpões, mas sempre nos distraímos a imaginar terminações.    

 

 

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A Gaffe de um algoritmo

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.18

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Tento socorrer um amigo que aflito me fornece as credenciais de acesso ao seu blog que corre perigo de extinção.

 

A exportação impõe-se, mas os obstáculos colocados a este processo são inúmeros, iniciando-se com o ficheiro que é produzido pela plataforma de origem e que, aquando do download, apresenta erros vários e malware propositado que o impede de ser transferido. O processamento é interrompido e retrocede.

 

A plataforma em questão, após vários anos de total permeabilidade e permissividade a todas as formas de expressão, foi pressionada pelos patrocinadores que não querem ver os seus produtos entalados entre umas pilas e uns pipis em franca actividade lúdica. A pornografia pura e dura - sobretudo a segunda - tinha invadido o terraço, asfixiando os gatinhos fofos, as paisagens idílicas, as frases encaixilhadas e os outfits do ano.

 

É evidente que ao passear por aqueles lados se ficava ligeiramente enjoada. Os mais que explícitos Clips, samples, pics – tudo estrangeiro -, não poderiam nunca deixar de figurar na estante do porno mais puxado e ficariam lindamente a decorar qualquer sexshop mais ranhosa. Num vislumbre rápido, qualquer incauto visitante poderia supor que se tinha enfiado num site obscuro onde a mais inocente das imagens expostas, permitiria canonizar a Cicciolina - e os deuses sabem como me merece respeito esta menina.   

 

Parece aceitável que a plataforma, pressionada pelos patrocinadores, tenha decidido impor regras, abolindo publicações de cariz sexual, embora tenham permanecido intocáveis - em nome da liberdade de expressão -, os blogs de propaganda nazi, os racistas e os xenófobos que por lá pululam.

 

Seria usado um algoritmo que varreria todas as publicações, alertando os usurários para o imediato apagar de … mamilos. Depois se vassourariam as restantes ocorrências anatómicas mais desnudas.

 

O meu querido amigo tinha há cerca de quatro anos um blog onde recolhia ilustrações, pintura, desenho, BD, colagens e todas as outras formas de manifestação artística ao seu dispor, executadas em duas dimensões - excluindo-se, portanto, as provenientes da escultura. O leitmotiv era o Homem. Nu ou vestido.

 

O algoritmo varreu, de uma assentada, as representações de guerreiros e de atletas gregos antigos em frisos onde a pilinha de um espreitava por entre as dobras de um vago tecido; as iluminuras medievais onde se insinuavam as ceroulas do camponês com avantajado conteúdo; os mamilos de S. Sebastião ilustrado pelos maiores génios da pintura universal, ao mesmo tempo que apagava, por exemplo, o Homem Vitruviano, de Leonardo, todos os valentões da Capela Sistina e o Cristo de S. João da Cruz, de Dali. Foi destruída a esmagadora maioria de imagens - de séculos idos até ao presente - de um incontável número de artistas reconhecidos universalmente ou em ascensão que, de qualquer forma, representaram o homem nu ou quase nu.

Apanhou na sanha uma imagem do rosto de Jackie O, durante o funeral do marido, provavelmente porque identificou o chapéu da primeira-dama com um preservativo usado.  

  

Este ensandecimento, esta purga, teve, portanto, um algoritmo como responsável zeloso, obrigado a reconhecer como pornográficas as obras de uma quantidade enorme de artistas que ousaram representar ou insinuar a nudez ou a seminudez masculina através do tempo.  

 

O meu pobre amigo ficou tristíssimo. Depois esqueceu. As obras permanecerão na História da Arte, dispersas pelos museus e galerias. Não importa que não estejam visíveis ali.

Se fosse minha a curadoria, o único conteúdo adulto que me apagariam seria a conta da água e da luz. 

 

Suspeito que esta necessidade de eliminar aquilo a que chamaram conteúdos adultos, atingindo nessa classificação artistas e obras de valor universal, reconhecidamente pertença da Humanidade, nada tem a ver com uma pretensa necessidade de evitar a todo o custo feridas em susceptibilidades mais sujeitas e mais frágeis. Compreende-se, apesar de tudo, que a plataforma tenha de gerir os seus recursos e as suas finanças e que se veja obrigada a obedecer a quem a paga, eliminando a pornografia que gesticula e desata aos gritos lúbricos logo ali ao lado dos biscoitos publicitados, pois que há contas que aparecem e a submissão é coisa facilitadora. O algoritmo escolhido é apenas prova da incapacidade técnica dos programadores.  

 

O que me causa perplexidade é este aparente controlo ditatorial que se quer exercer sobre o que cada um de nós pode ver e não pode ver, pode ou não pode ter, pode ou não pode ser, retirando a quase toda a gente a capacidade de decisão e de escrutínio. Aconteceu com Mapplethorpe em Serralves - alegadamente, pois que tudo o imbróglio foi gerido de forma absolutamente patega, parola e a raiar a imbecilidade.

 

A possibilidade de reerguer a Inquisição - não forçadamente neste caso específico, visto que o ultrapassa -, parece partir do princípio que existe um número restrito de eleitos, dotados, encartados e autorizados a reger o que é lícito, ou ilícito, termos ao alcance do nosso próprio discernimento e da nossa livre escolha.

A facilidade com que nos reconfortamos e conformamos com estes decisores poderosíssimos, pois que tantas vezes tornam impotente a reacção adversa às suas prepotências ou injustificadas regras, promove e acicata o controlo de poucos sobre as maiorias, alargando-o a todos os aspectos da vida que achamos que é só nossa e que, à partida, só a nós nos diz respeito.

 

Desenganemo-nos, pois, que eles chegaram e duvidemos se alguma vez partiram.

 

Não me incomodou grandemente a retirada da pornografia da plataforma, mesmo apesar de consubstanciar uma regra introduzida a meio do campeonato. Existem sites destinados exclusivamente ao assunto e não parece legítimo reivindicar-se a obrigatoriedade de determinado sítio, patrocinado por empresas que vendem fraldas, carros e pastilhas, acolher pilas e pipis indiscriminadamente, tudo ao monte e fé sabem os deuses em quem, só porque sim e em nome da liberdade de expressão. No entanto, reconheço que é irritante a purga ter sido levada a cabo por um algoritmo que censurou em simultâneo um acervo considerável de obras de arte.

 

A leviandade e a irresponsabilidade com que foi escolhida e usada a ferramenta informática foi extraordinariamente superior ao uso que ali se fazia das ferramentas apagadas.  

 

Nada se conseguiu fazer.

Quem pode, manda e manda em tudo, que há de tudo como no velho boticário. Pelo que se vê, não manda quem pode com a grafia antiga usada em Farmácia.  

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Gavetas:

A Gaffe do caneco

rabiscado pela Gaffe, em 14.12.18

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A Gaffe acaba de perguntar a uma senhora - parecida com Frida Kahlo, mas com bigode maior -, como consegue ela secar a roupa se chove por todo o lado.

 

Das duas, uma:

 

 - Ou o fim do mundo está próximo;

- Ou a Gaffe não devia ter bebido ontem o Carinus Est do Douro's Flavours na caneca de vinho que encontrou na cozinha.

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Gavetas:

A Gaffe espanhola

rabiscado pela Gaffe, em 13.12.18

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O queridíssimo António Lobo Antunes declarou hoje - imagine-se, logo hoje que a Gaffe está tão indisposta! -, lamentar que Portugal e Espanha não sejam o mesmo país.

 

A Gaffe culpa a Catalunha de 1640 pelo desgosto de Lobo Antunes. Não fosse a barulheira catalã - uma piolhice! - que estourou nos excelsos dedos de Filipe IV, Sua Majestade não teria de optar entre a região mais rica e a mais pindérica do reino. Atirou-se à primeira, pois que um rei não tem só a coroa para compor o outfit e os brincos, os alfinetes, as medalhas e colares já tinham deixado de crescer nas caravelas.   

 

A Gaffe acha parola a indignação dos mais que muitos.

- Lobo Antunes é um escândalo – rasgam-se livros.

- Morte ao traidor! – aproveitam os desfesnetradores.

- Mântua para rua, que o povo continua! – ou outra maçada qualquer a rimar.

 

Este complexo de inferioridade português inflama-se e incendeia as hostes patriotas, de forma tão medíocre e patega, sempre que alguém estica um fósforo de um dislate, um desconchavo de um pirolito, ou sopra à toa uma laracha mais ou menos exibicionista, ou mais ou menos provocadora, que revolve o quintal à beira-mar. 

 

António Lobo Antunes lamenta que Portugal e Espanha não sejam o mesmo país.

O facebook desata aos berros, o twitter aos gritos, os blogs aos urros e a D. Teresa estrebucha histérica no túmulo - pois que tanto lhe custou arrancar o dote à unha do pai -, sem primeiro se ter a delicadeza de resguardar Letízia da poderosa onda de choque.  

 

Se o homem queria muito que os dois países fossem um, pois que continue a alimentar desejo e dor. Não faz grande mossa.

A Gaffe, francamente, preferia ser dinamarquesa. Ou viscondessa, vá.   

Ilustração - Jean-François Segura

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A Gaffe de granito

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.18

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Hoje não chove.

Há frio como granito.

 

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

 

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

 

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.    

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Gavetas:

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