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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da trisavó

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.18

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A sala está à desamão. Talvez por isso tenha lesmado incólume.

 

A situação não é a mais favorável - como se habitar fosse conjuntura -, cravada num recanto da casa que ninguém pisa, voltada para um jardim que ninguém quer e que se vai matando em castanhos queimados de folhas inúteis. Duas árvores por servilizar arranham os vidros com os pregos dos troncos retorcidos e existe - já ninguém sabe onde - a imagem de pedra de um fauno que por trepadeiro pudor foi resguardado com mantos de silvas.

As portas nunca se fecharam, porque ninguém as quis abertas. Permaneceram todo o tempo numa espécie de limbo, por onde rastejava a pouca luz que emagrecia nas janelas entreabertas.

É uma sala feia que, embora espaçosa, parece mirrada pela quantidade de acicates, manigâncias e minúcias que retém e que nos confundem.    

 

Era a sala da minha trisavó.

 

Existe numa das paredes, condenado, um retrato de meio corpo da senhora, da autoria de um pintor menor, francês, sem história de arte, de provável metro e meio - o quadro, que do pintor não resta medição. O tempo fez estalar na tela arredondadas e distorcidas células, unindo-as num tecido invasor de um exército maldoso de linhas estrategas.

 

A retratada usa um vestido de saia de seda pesada escura esverdeada, corpo de mangas estreitas, com punhos de renda bege que lhe tocam as falanges e gola subida no mesmo entretecido. Uma mantilha azul enegrecido, bordada em tons de cobre, espalha-se no regaço. É uma mulher de cerca de trinta anos, de rosto redondo, olhos cinzentos, plácidos, amortecidos pela inabilidade do artista e cabeleira ruiva, densa, presa por adereços, ganchos e travessas que lhe escravizam os caracóis. Dizem que sou assustadoramente parecida com ela e talvez por isso a mantenham prisioneira na sala que ninguém quer ver ou habitar. Não consigo julgar.

 

Fomos eu e o meu Amigo, invadir - porque o meu gigante descobriu que a pequena biblioteca da sala se mantinha inviolada desde o desaparecimento da dona - a sonolência do espaço eivado de detalhes femininos, que sobrevoam a escolha dos móveis, pequenos, trabalhados, minuciosos, pormenorizados, quase rocambolescos, até ao poiso nos ramos de desbotadas flores que murcham nos padrões das almofadas e estofos de cadeiras.

A senhora olhou-nos e voltei a pasmar perante a clareza com que me atrevo a parecer-me com ela. Se o pobre e esquecido pintor me tivesse como modelo, no presente, ganharia alguns cobres livres de canseira, pois que podia exibir o retrato antigo, clamando ser o meu.  

Estupefacto, o meu bom Amigo petrifica.

- És tu. Até as mãos são as tuas!  

 

A mão esquerda maculada pelos dedos da raiz do envelhecer da tela toca o colo espartilhado e aflora o colar de pérolas que pertence à minha irmã, agora. A direita, pousado no regaço, segura um livro pequeno de capa de couro. A página está marcada por um dedo anelado e por, ao mesmo tempo, um marcador em ouro, punhal pequeno e fino que serviria para rasgar as folhas ainda unidas. Uma dobra da seda do vestido esconde parte do título do que lia. Livro de Horas, uma hagiografia, um romance permitido às senhoras mais letradas?

 

Mais do que esperado, foi o livro pintado o foco de toda a atenção do meu Gigante. Que livro seria? O que lia aquela mulher? Que obra escolheu para ser incluída no retrato? Foi escolha aleatória, ou teve propósito?

 

A lombada do livro estava escondida por uma onda de seda do vestido e a tela tinha estalado no lugar que provavelmente nos indicaria a pista mais certa, mas se o realismo do retrato tivesse sido completo, como assim se fez com o cenário que identifica a sala, a exígua biblioteca privada da senhora guardaria ainda a obra retratada.

O móvel vidrado contém um número de obras limitado, mas muito heterogéneo. Os livros foram claramente eleitos usando-se o critério traçado pelo coração.   

Os sonetos de Petrarca, os de Camões. Os de Shakespeare. Os sermões do Padre António Vieira. A Odisseia. Ovídio. Virgílio. Madame de Staël. Molière, Racine e Diderot ao lado de vários romances franceses sem qualquer valor e pouco mais, que ler era para homens.

A obra retratada estava ali. Minúscula e sufocada entre Encyclopédie de d’Alembert e Voltaire, Rousseau, e Montesquieu que deitados se sobrepunham.

 

O punhal, apenas de lata, sinaliza ainda a página que marcava no quadro.  

 

Eis a escolha da minha trisavó, com a lombada voltada para a madeira.

 

Durante todo o fim-de-semana procuramos a chave que abre a pequena biblioteca.

Encontramo-la ontem, já noite cerrada, numa das gavetas da secretária da biblioteca do meu avô, presa a uma etiqueta em papel amarelecido onde está escrito, em letra velha e gasta, apenas um nome: Claire.

 

Hoje, vamos abrir o que foi escurecido.

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Gavetas:




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