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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe russa

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.18

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A esmagadora percepção da minha absurda leviandade, da minha tonta irresponsabilidade, do meu fútil viver e da minha vazia insignificância, chega de repente e deixa-me sozinha, inútil.

 

Tenho na mão o fino livro que retirei do móvel e a tempestade desabou, sem freio, destelhando a choupana que habito, rainha destronada de mim, senhora exilada de timbre no envelope, princesa imbecil de poentes desenhados.

A implacável certeza da minha incapacidade de me elevar ao patamar destas mulheres. Uma depois de outra, há tanto tempo.

 

O livro que se espera - pois que se olhou para os outros -, reflexos do pensado por senhores, perucas brancas empoadas e alma desbravadas de poeiras, varandas debruçadas sobre iluminismos, saltitos de gazela sobre palcos, sonetos de intricados versos ou tão somente a história de algum santo - tudo francês -, é a subliminar mensagem que - estou certa - se destina a mim, que gracejo, zombo e escarneço do que é meu, profundamente meu, sem eu saber, sem eu cuidar, sem eu de joelhos respeitar.

 

La mort de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

A estilhaçar a redoma de certezas do meu mundo.  

 

Imagem - Carolus-Duran

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