Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de um algoritmo

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.18

David.jpg

Tento socorrer um amigo que aflito me fornece as credenciais de acesso ao seu blog que corre perigo de extinção.

 

A exportação impõe-se, mas os obstáculos colocados a este processo são inúmeros, iniciando-se com o ficheiro que é produzido pela plataforma de origem e que, aquando do download, apresenta erros vários e malware propositado que o impede de ser transferido. O processamento é interrompido e retrocede.

 

A plataforma em questão, após vários anos de total permeabilidade e permissividade a todas as formas de expressão, foi pressionada pelos patrocinadores que não querem ver os seus produtos entalados entre umas pilas e uns pipis em franca actividade lúdica. A pornografia pura e dura - sobretudo a segunda - tinha invadido o terraço, asfixiando os gatinhos fofos, as paisagens idílicas, as frases encaixilhadas e os outfits do ano.

 

É evidente que ao passear por aqueles lados se ficava ligeiramente enjoada. Os mais que explícitos Clips, samples, pics – tudo estrangeiro -, não poderiam nunca deixar de figurar na estante do porno mais puxado e ficariam lindamente a decorar qualquer sexshop mais ranhosa. Num vislumbre rápido, qualquer incauto visitante poderia supor que se tinha enfiado num site obscuro onde a mais inocente das imagens expostas, permitiria canonizar a Cicciolina - e os deuses sabem como me merece respeito esta menina.   

 

Parece aceitável que a plataforma, pressionada pelos patrocinadores, tenha decidido impor regras, abolindo publicações de cariz sexual, embora tenham permanecido intocáveis - em nome da liberdade de expressão -, os blogs de propaganda nazi, os racistas e os xenófobos que por lá pululam.

 

Seria usado um algoritmo que varreria todas as publicações, alertando os usurários para o imediato apagar de … mamilos. Depois se vassourariam as restantes ocorrências anatómicas mais desnudas.

 

O meu querido amigo tinha há cerca de quatro anos um blog onde recolhia ilustrações, pintura, desenho, BD, colagens e todas as outras formas de manifestação artística ao seu dispor, executadas em duas dimensões - excluindo-se, portanto, as provenientes da escultura. O leitmotiv era o Homem. Nu ou vestido.

 

O algoritmo varreu, de uma assentada, as representações de guerreiros e de atletas gregos antigos em frisos onde a pilinha de um espreitava por entre as dobras de um vago tecido; as iluminuras medievais onde se insinuavam as ceroulas do camponês com avantajado conteúdo; os mamilos de S. Sebastião ilustrado pelos maiores génios da pintura universal, ao mesmo tempo que apagava, por exemplo, o Homem Vitruviano, de Leonardo, todos os valentões da Capela Sistina e o Cristo de S. João da Cruz, de Dali. Foi destruída a esmagadora maioria de imagens - de séculos idos até ao presente - de um incontável número de artistas reconhecidos universalmente ou em ascensão que, de qualquer forma, representaram o homem nu ou quase nu.

Apanhou na sanha uma imagem do rosto de Jackie O, durante o funeral do marido, provavelmente porque identificou o chapéu da primeira-dama com um preservativo usado.  

  

Este ensandecimento, esta purga, teve, portanto, um algoritmo como responsável zeloso, obrigado a reconhecer como pornográficas as obras de uma quantidade enorme de artistas que ousaram representar ou insinuar a nudez ou a seminudez masculina através do tempo.  

 

O meu pobre amigo ficou tristíssimo. Depois esqueceu. As obras permanecerão na História da Arte, dispersas pelos museus e galerias. Não importa que não estejam visíveis ali.

Se fosse minha a curadoria, o único conteúdo adulto que me apagariam seria a conta da água e da luz. 

 

Suspeito que esta necessidade de eliminar aquilo a que chamaram conteúdos adultos, atingindo nessa classificação artistas e obras de valor universal, reconhecidamente pertença da Humanidade, nada tem a ver com uma pretensa necessidade de evitar a todo o custo feridas em susceptibilidades mais sujeitas e mais frágeis. Compreende-se, apesar de tudo, que a plataforma tenha de gerir os seus recursos e as suas finanças e que se veja obrigada a obedecer a quem a paga, eliminando a pornografia que gesticula e desata aos gritos lúbricos logo ali ao lado dos biscoitos publicitados, pois que há contas que aparecem e a submissão é coisa facilitadora. O algoritmo escolhido é apenas prova da incapacidade técnica dos programadores.  

 

O que me causa perplexidade é este aparente controlo ditatorial que se quer exercer sobre o que cada um de nós pode ver e não pode ver, pode ou não pode ter, pode ou não pode ser, retirando a quase toda a gente a capacidade de decisão e de escrutínio. Aconteceu com Mapplethorpe em Serralves - alegadamente, pois que tudo o imbróglio foi gerido de forma absolutamente patega, parola e a raiar a imbecilidade.

 

A possibilidade de reerguer a Inquisição - não forçadamente neste caso específico, visto que o ultrapassa -, parece partir do princípio que existe um número restrito de eleitos, dotados, encartados e autorizados a reger o que é lícito, ou ilícito, termos ao alcance do nosso próprio discernimento e da nossa livre escolha.

A facilidade com que nos reconfortamos e conformamos com estes decisores poderosíssimos, pois que tantas vezes tornam impotente a reacção adversa às suas prepotências ou injustificadas regras, promove e acicata o controlo de poucos sobre as maiorias, alargando-o a todos os aspectos da vida que achamos que é só nossa e que, à partida, só a nós nos diz respeito.

 

Desenganemo-nos, pois, que eles chegaram e duvidemos se alguma vez partiram.

 

Não me incomodou grandemente a retirada da pornografia da plataforma, mesmo apesar de consubstanciar uma regra introduzida a meio do campeonato. Existem sites destinados exclusivamente ao assunto e não parece legítimo reivindicar-se a obrigatoriedade de determinado sítio, patrocinado por empresas que vendem fraldas, carros e pastilhas, acolher pilas e pipis indiscriminadamente, tudo ao monte e fé sabem os deuses em quem, só porque sim e em nome da liberdade de expressão. No entanto, reconheço que é irritante a purga ter sido levada a cabo por um algoritmo que censurou em simultâneo um acervo considerável de obras de arte.

 

A leviandade e a irresponsabilidade com que foi escolhida e usada a ferramenta informática foi extraordinariamente superior ao uso que ali se fazia das ferramentas apagadas.  

 

Nada se conseguiu fazer.

Quem pode, manda e manda em tudo, que há de tudo como no velho boticário. Pelo que se vê, não manda quem pode com a grafia antiga usada em Farmácia.  

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:




  Pesquisar no Blog

Gui