Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a desenhar

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.19

Princesa

Às vezes, sinto nas mãos a rispidez e a rugosidade que fica quando tocamos líquidos corrosivos.

 

Esta impressão existe desde muito cedo. Desde os dias em que me foram retirados os lápis coloridos com que pintava tudo.

Eram lápis de madeira morna.



Tocava-os. Cheirava-os. Mordia-os, às vezes.



As minhas horas deixaram de ser horas de ficar parada a ver surgir na cabeça universos paralelos e surreais porque com as cores e com os meus dedos - e já quase sem as nuvens que toldam as visões do que nunca foi a não ser em nós -, ficava suspensa nos mundos que surgiam já mais visíveis, já mais memorizáveis, nos papéis planetários, nos papéis galácticos que ia encontrando, guardando e defendendo da avidez de limpeza e arrumação da Jacinta.

 

Nunca desenhei bem.

 

Lembro-me do retrato da Bórgia, a cadela assassina, que tinha rabiscado entufada de orgulho. Todos diziam parecer um porco esquizofrénico. Gostava muito dele, mas reconhecia-lhe os defeitos.

 

Nunca desenhei uma princesa!

 

Nunca me foi importante desenhar bem, assim como nunca me foi importante escrever. São-me indiferentes os riscos que vou deixando soltos. É o silêncio em redor das palavras e dos traços que me deslumbra. Uma ausência de som, parecida com a impotência da morte, como se envolvendo o bater do coração de cada grafismo existisse o vácuo, o nulo, o nada, impossibilitados de parar o batimento.    

 

Lentamente, tornava-me de alabastro.

Sem sol, sem jogos, sem risos, sem ruído.    



Foram estes silêncios de desenho que ia construindo cada vez com mais frequência, os responsáveis pela desertificação dos meus planetas.

Com a ameaça de uma mudez e imobilidade incompreendidas, ficou decidido que me seriam arrancadas as naves de madeira com que viajava.

Tornava-se necessária a minha voz depois de detectado o meu silêncio.

 

Sempre desejei ser o que sou. O que faço hoje, o meu trabalho, a minha profissão, é de certa forma prolongar os meus pobres desenhos infantis. O silêncio é o mesmo. Só as telas são diferentes e o traço de um bisturi é sempre mais perfeito por não ter retrocesso.

Às vezes, volto ao retrato da Bórgia, mas retoco-o de modo a ficar mais realista.  



Nunca mais os vi. Os meus lápis. Acordei e já lá não estavam. Nunca perguntei por eles. Nunca soube quem os tinha retirado.

Creio que fiquei muda.

O que escrevo é a minha mudez sem lápis de cor. O que desenho, é uma memória dos meus silêncios pacificos da infância.


Às vezes, sinto as palmas das mãos a ficar secas.

Hoje queria muito desenhar uma princesa.

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe sem lixívia e sem limonada

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.19

Sarin

O necessário equilíbrio - pois que nem lixívia, nem limonada -, encontrado com o auxílio da fotografa Erika Zolli que permitiu criar o contraste, o bailado, a ideia que reflectida se descobre, se redescobre, se reconstrói, na oposição racional exposta pelo Outro. O desenho sempre inacabado da geometria do pensamento em que é nítido o cuidado de se olhar de modo igual todos os lados.     

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe cardinal

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.19

Cardeais

As próximas Jornadas Mundiais da Juventude Católica realizar-se-ão em Portugal, segundo informação que a Gaffe não se importa que não seja fidedigna, porque é cristã.

 

A Gaffe está radiante, pese embora reconheça que esta será a razão usada para disparar a recandidatura de Marcelo à Presidência. Ninguém como ele consegue beijocar a mão do Papa e toda a gente de bem sabe que uma genuflexão é o horror quando mal executada.   

 

A Gaffe adora excentricidades e o Vaticano é uma galáxia no que diz respeito a estes pequenos desvios à rotina sensaborona.

Lamenta, ontem como hoje, que o chefe de Estado amarelo e branco seja uma espécie de pároco bonacheirão, que não se cansa de dizer coisas óptimas de bondosas que a Gaffe diria com facilidade, desde que lhe cedessem o palácio a título vitalício, lhe entregassem uma honra qualquer vagamente renascentista e lhe chamassem Sumo - magríssimo, não aquele japonês de penteado giríssimo, que anda de fio dental todo decorado a empurrar o parceiro de modo um bocadinho teimoso e inútil -, mas admite que as extravagâncias que brotam dos mármores de Carrara - e sabe Deus mais donde - que forram as assoalhadas do Vaticano, são maravilhosas.

 

A Gaffe considera, por exemplo, uma ternura ser uma dúzia e meia de velhinhos a eleger outro velhinho para se alapar no trono de Pedro e usar a tiara papal que - dizem as más línguas -, não faz pendant com o colar e os brincos. A Gaffe julga divinal o velhinho eleito ter competência para repensar as figuras do presépio, escrever encíclicas imensas numa língua defunta, visitar os pobrezinhos sem galochas, emanar coisas em latim dirigidas a milhões de súbditos que as não sabem ler e conseguir ir a casamentos vestido de branco sem afrontar a noiva e quebrar o protocolo.

 

A Gaffe pensa que é um mimo de chic ir de vez em quando à varanda acenar às multidões embevecidas e lamentar tristonho e muito circunspecto aquelas coisas desagradáveis que os mortais sofrem de quando em vez.

 

A Gaffe acha um milagre conseguir fazer desaparecer numa paróquia mais esconsa um companheiro de aventura cardinal que se empolgou em excesso na sacristia, catequisando, com punho hirto e duro como barra de ferro, aquelas coisas mais pequenas que não querem rezar condignamente.     

 

A Gaffe considera obra do Espírito Santo ser-se capaz de governar um banco apenas com esmolas dos tão crentes e transformá-lo sacramente num dos mais poderosos e influentes manipuladores das finanças mundiais – com inclusão das finanças dos mafiosos, dos tios das offshores e de outras ainda mais armadas.   

 

A Gaffe considera um must andar empoleirado numa cabine telefónica com rodas, transparente e à prova de bala, com dezenas de matulões a correr ao lado, para não deixar cair a chamada. 

 

Seja como for, a quantidade de mocetões acalorados - mais este e aquele, o outro e toda a gente … - que vão estar juntinhos nas Jornadas Mundiais da Juventude Católica, augura rezas muito proveitosas, névoas de sacrifícios, despidas penitências e uma ou outra aparição em qualquer gruta mais recôndita.

 

Convém, no entanto, afastar os cardeais das orações, pois que se por perto, uma rapariga corre o risco de ter de fazer jejum.

Há sempre um certo cardinal que só se abstém quando os ventos sopram nas batinas, opas, báculos e mitras, revelando a quantidade de hóstias que foi compilando e papando nas mais escuras capelinhas.

 

Mas em Portugal há sol e quando há sol, há Jornadas, e se há uma Jornada em cada vida, é preciso cantá-la assim despida, pois se Deus nos deu hóstias, foi p’ra as papar, e se um dia se há-de ser pó, cinza e nada, que seja o paraíso uma noitada que se deixa perder para pecar.

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe num pregão

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

Fabien Delaube.jpg

A mulher passa no passeio da Avenida e vejo-a passar de canastra à cabeça. Sem mãos, como eu mais pequena passava na Avenida de bicicleta, também sem mãos no fio do equilíbrio.

Peixeira de coturnos pretos sem pregão, que levas à cabeça a tua sina como se andasses de bicicleta, ensina-me a passar na Avenida com um pedaço de mar à cabeça sobre a alma enrodilhada.

Diz-me como se atravessam as ruas de coturnos pretos nos pés, ruas de canastra sem mãos a oscilar e meia dúzia de ondas cobertas com telas de navios.

Diz-me como entras no meu quarto a gingar a alma de canastra e atravessas os vidros da janela no fio do equilíbrio como se andasses de bicicleta e eu fosse ainda menina.

Diz-me com se passa na Avenida com ondas na cabeça cobertas por um lenço preto por onde passa a bicicleta com rodas de meia dúzia de peixes sem mãos.

Diz-me como se torce o farrapo de navio que equilibra a canastra na tua cabeça e ensina-me a atravessar as ruas como se fosse menina outra vez, porque a minha alma sem mãos é a tua rodilha.

 

Imagem - Fabien Delaube

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe em liberdade

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

(...) e a morte cresce no esvair da origem. 

Rasurando.jpg

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe (in)sensata

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

(in)sensato

A insensatez pode ser apenas a opção de quem, sensato, olha o quotidiano com todas as idiossincrasias que tantas vezes o preenchem e enformam. O demo está nos pormenores, nos traços inconstantes das gentes que os habitam e que raspam a cidade, produzindo as paisagens urbanas mais riscadas que existem dentro de cada um de nós.   

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe muito básica

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.19

a man.jpg

Sejamos práticas, às vezes ter uma pila ajuda imenso.

 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe soalheira

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.19

Agrada-me sobremaneira continuar a pensar que é realmente de Luís XIV o celebérrimo L’État c’est moi.  (...)

Aqui:

logo (1).jpg

 

 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe jamaicana

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.19

1.39.jpg

A Gaffe está irritadíssima com os acontecimentos no Bairro da Jamaica que foram ousadamente classificados como ocorrências de índole racista.

 

A Gaffe já passou férias nesse país encantador e embora não tivesse visitado o bairro, pois que o Hotel distava horrores desse lugar e não se encontraram guias com bom aspecto, está em condições de confirmar que os jamaicanos são uma gentinha amorosa e absolutamente nada dada a dar prova dessa doença.

 

A Gaffe ficou estarrecida quando viu aqueles jamaicanos portugueses acusar a bosta da bófia de violência gratuita com laivos de racismo. Não sabendo muito bem o que é a bófia - embora reconheça a primeira componente da expressão como matéria-prima das televisões -, supõe tratar-se daqueles homenzarrões lindíssimos, musculados e fardados e armados, que a Mortágua condena veementemente, com só ela consegue veementemente condenar.

Meninos, não se bate naquela gente.

 

A Gaffe está decidida.

 

Vai imediatamente convidar uma das manas Mortágua - uma qualquer, porque tanto faz que são iguais e ninguém nota a diferença - e a Cristas a equilibrar, para, ladeada por estes extremos extremosos - para além de evitar levar uma bordoada lateral, vai parecer harmoniosa - visitar o Bairro da polémica.

 

Já enverga - para fazer pendant com a deputada - o seu black outfit e já calçou galochas - para fazer pendant com a grande líder.

As três, unidas como Abril mandou, provaremos que Portugal não é racista e que aqueles pobres jamaicanos pretos também não.

Foi tudo bordoada merecida.

 

É um sacrifício que nos fica bem.

 

É evidente que esta rapariga não é o Marcelo. Não vai desatar a beijocar as nódoas negras daquela gente, nem vai tirar selfies, porque o cenário não tem uma luz em condições de figurar no Instagram - não havendo filtros, fica tudo imenso escuro -, mas vai valer a pena ser escoltada por aqueles mauzões gigantescos e repletos de escudos de acrílico que intervêm para apoiar as pessoas de boas famílias na caminhada a favor da diferença.

 

A Gaffe tem de provar que este país não é racista.

 

Já o declarou no facebook e já escolheu também por isso uma fotografia de um mocito com quem não se importava nada de estabelecer diálogo esclarecedor, mas reconhece que ao vivo, bem vestida, com o cabelo bem tratado, acompanhada por fotógrafos e com algum carinho no rosto, a natureza desta mensagem renovadora, apaziguante e cristã, se torna poderosa e faz mesmo com que se distingam de vez em quando os jamaicanos uns dos outros.  

 

A Gaffe admite a existência de um pormenor que exalta as pessoas pouco instruídas e que as leva a desatar aos gritos desagradáveis, acusando um país inteiro de conter raízes racistas.

 

A igualdade.

 

São todos iguais!

 

As pessoas brancas não conseguem distinguir um chinês de outro chinês, mesmo que estes dois piquenos estejam lado a lado.

As pessoas brancas não conseguem pronunciar os nomes dos pretos que - diga-se em abono da verdade -, também não se diferenciam uns dos outros. É impossível chamar pelo Matambukalé Tanrambureré sem termos de nos socorrer depois de um terapeuta da fala. Como pronunciar Pi-Chin ou Pi-Cho-Ti, ou mesmo Pi-La, sem pensar que vamos ser violadas? Como encontrar modo de articular Lakshmi Mahara Surya sem pensar que nos vão despejar açafrão no cabelo, nos vão tatuar uma porcaria em hena nas mãos - desidrata imenso -, ou nos vão tentar impingir uma rosa de plástico quando formos ao Saldanha?!

 

A Gaffe tem conversado imenso com a  senhora Årud Haakonssonhagebak, uma senhora norueguesa lá de casa - sem ser, c’est évident, a colaboradora doméstica, uma romena que nos maça horrores ao tentar fazer com que a percebamos -, que sempre diz que o racismo português é uma fake new, pois que não é viável acusar um povo tecido de heróis camonianos, que nunca levantou um dedo contra a senhora D. Isabel dos Santos e que no passado ofereceu novos mundos a um mundo de gentalha que nem sequer soube agradecer e que agora está convencida que temos obrigação de os acolher nos nossos lares e privacidades, de ser um povo pouco dado à diversidade.

 

Somos um povo que marca a diferença.

É tudo.

Então vá. 

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe com lençóis brancos

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.19

402.jpg

Eram brancos os jogos de lençóis que a Jacinta trazia todos os Sábados das arcas para os quartos de cima.

 

Brancos, sempre brancos, brancos que de tão brancos doíam.

Alguns tinham bordados a cheio na dobra que expunham. Flores ou frisos a ondular arabescos que as fronhas repetiam. Outros eram rendas. Entremeios urdidos à mão, brancos, brancos, no negrume de Inverno.

 

 - Vá brincar, menina. Vá apanhar sol e deixe trabalhar quem sabe.

 

A Jacinta abria as asas de lençóis sobre as camas como quem atira redes de pesca aos mares sossegados das manhãs de Sábado. Cheiravam bem essas manhãs. A linho lavado, a sabonete e a alfazema que a Jacinta guardava em saquinhos laçados com fitinhas de cetim nas arcas dos lençóis brancos a doer.

Ficava a ver aqueles pássaros largos de asas, a abrirem o breve voo sobre os ninhos. Fechava os olhos. Pelos olhos fechados aspirava o odor daquele esvoaçar lavado e de açucenas.

Quarto após quarto, após quarto, após quarto. Seguia-lhe os passos. Os lençóis brancos a dardejar bordados.

 

- Vá brincar lá para fora com os manos, menina!

 

A luz do lá fora pelas janelas. Reflectida no voo dos pássaros como penas. O cheiro a luz lavada e a saquinhos de alfazema.

 

- Ajude então com as fronhas, menina. Vá lá Deus saber porque é que o avozinho a deixa aqui, a andar atrás de mim - e sorria, parada por instantes, de mãos cruzadas no regaço de onde a ternura subia até aos olhos.  

 

Chorou neste Sábado.

Ouvi-lhe as lágrimas como lençóis abertos e doridos.

 

Entrei devagarinho no quarto e vi-a sentada na cama que foi da minha avó. De mãos em concha, uma por cima da outra, num abandono branco e envelhecido.

Tinha-se enganado. Foi sem querer. Nem sequer pensou. Não sabe como aconteceu aquilo. Foi o hábito. É a velhice, menina.

 

Chorava tanto.

 

Ajoelhei-me. De joelhos venero imagens santas.

Entrou ali para mudar lençóis que não se mudam, mudos os que ficaram inúteis como trapos, e ficou ali a desfraldar, a apalmar, a estender saudade.

 

- Faz-me tanta falta - treme. É frio.

 

Abro a gaveta. Retiro o xaile que a minha avó usava nos entardeceres mais ásperos de negritude em que as crianças não brincam lá fora.  

Sento-me na cama, pouso as minhas mãos na concha das mãos enrugadas da Jacinta e as duas cobertas pelo xaile, sorrimos baixinho, baixinho, baixinho, para não inquietar as lágrimas.

 

- Vá, Jacinta, anda. Eu ajudo com as fronhas.

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe de Maria João Avillez

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.19

0a9b729834ea27871b5896e3a58ce180.jpg

Usar um batôn exige uma compenetrada dedicação. Uma rapariga não pode estar atenta a rigorosamente mais nada. O mundo deve tornar-se apenas um som indefinido de uma sinfonia longínqua ouvida em surdina. A operação obriga a um recolhimento imenso e ao rigor imprescindível de um traçado de rota de avião.

 

Estando a Gaffe pronta a esmagar o lábio superior contra o inferior, diluindo dessa forma o vermelho sangue que escolheu vampira, quando sobreveio de forma insidiosa a voz de uma distinta jornalista que possivelmente na infância jogou à macaca com D. Maria II.

 

A Gaffe não sabe como, não sabe quando, não sabe porquê, não conhece a razão do ouvido, não sabe onde ocorreu o acidente, mas estancou de boca aberta com o batôn ainda por homologar.    

 

Maria João Avillez faz uma chalaça com o provincianismo de Rui Rio.

 

A Gaffe não simpatiza com o senhor. Irrita-a a secura e o ar azedado com que o grande líder arranja constantemente a gravata, normalmente tenebrosa e sem qualquer sombra carismática. Em consequência é-lhe indiferente que alguém o considere um pacóvio. Não se amofina com referencias lúdicas às eventuais origens nortenhas do grande estadista.

 

Maria João Avillez, no entanto, desenha de uma penada um belíssimo retrato do que considera necessário um político saber para poder vingar.

 

A jornalista - que de tão bem-humorada despertou a gargalhada no público, ou no publicuzinho, como vos aprouver -, considera que Rio não pode vingar porque nem sequer sabe onde é o Saldanha.

 

O importante, a Gaffe está completamente de acordo com Maria João Avillez, é saber onde fica o Saldanha, Cascais e a Expo do lado onde reside gente de bem. Não é relevante conhecer os apeadeiros da linha do Douro até porque foram quase todos desactivados. O Marcelo já encontrou Pedrogão e parece que não vale a pena a deslocação, pois que não há paisagem que a justifique e aquela maçada de mármore que ruiu já não adianta conhecer, porque se tornou difícil lá passar.

 

Agora, não saber onde fica o Saldanha?!

Parolo!

 

A Gaffe vai introduzir no GPS a referência geográfica de Maria João Avillez.

Disseram-lhe que no Saldanha se ergueram imensos hotéis cobertos de espelhos. Cosmopolitíssimo! A Gaffe vai com certeza encontrar um que a ajude a corrigir o batôn.

 

Ilustração - Fernando Vicente

 photo man_zps989a72a6.png

Redacção da semana: O Estado

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.19

Estado.gif

A minha professora disse-nos que tínhamos de escrever uma redacção muito limpinha e bonita porque queria cola-la no quadro de honra que é um quadrado assim para o alto dos lados onde uns senhores e umas senhoras mandam postas que é post em português. Mandou-nos também falar das coisas do estado. A bem dizer eu só estudei ainda o gasoso que é o do gás mas acho que serve porque este mundo é como um balão. A gente bufa bufa bufa e aquilo enche e a gente pensa que é bonito e até sobe sobe balão sobe como o balão daquela senhora que se chamava Bravo como o esfregão e que ganhou um festival e depois perdeu no Bruxelas onde é a eurovisão e onde há couves que é o que a gente leva deste mundo. A minha prima Idalina diz que o estado é só fogo de vista mas que somos nós os culpados que nos metemos de vez em quando numa tenda que nem uma cadeirinha tem para os velhos se sentarem que já não podem estar de pé com um papel e uma caneta na mão para fazermos uma cruz onde nos dizem que é bom. A minha avó foi um problema porque quando foi meter as cruzes no papel pôs-se aos gritos feita tola que tinha acertado em duas estrelas e no jóquer que por acaso era um senhor que tinha a fotografia colada mesmo ali logo no princípio do papel. Tivemos depois de a amarrar com a guita que separava as tendas umas das outras e levar a velha para o lar onde só vê a televisão com a Cristina Ferreira que é a única pessoa que a minha avó consegue ouvir. Os meus colegas e eu acarretamos os papéis para uma mesa onde uns senhores estavam a lamber os dedos para contar muito bem aquilo tudo. Vou colar aqui a fotografia do Justino a levar a papelada que ficou muito bem. O Zeca que é meu primo até fez montinhos porque só sabe contar até dez. Não fez mal porque chegou muito bem que houve muita abstinência. Quem ganhou o concurso foi o senhor Adalbero do talho e ganhou muito bem porque assim como assim já está habituado a desossar os bichos. Eu disse agora um nome de uma pessoa e ali em cima disse o da Cristina Ferreira. A minha professora disse que não podíamos andar aqui a fazer isto que é por causa duma coisa chamada protecção de dados. Por isso faz de conta que não existem estas pessoas que até nem é muito mentira. Depois de irem às tendas foi toda a gente ver televisão para saber notícias do país e do mundo que também gosta de riscar quadradinhos e de dizer que fomos nós os culpados das fugas de gás porque andamos a viver no andar de cima em vez de viver rés-do-chão que é o nosso sítio e o do picapau amarelo mas a minha prima Idalina mudou para os canais que davam telenovelas e só passados três dias é que a gente soube quem era a pessoa que não digo outra vez o nome que podia ser atacada pelos ácaros dos computadores. Ficamos muito contentes porque já toda a gente sabia em quem cascar durante uma porrada de anos enquanto coça as coisas moles que pode não parecer mas as pessoas andam com comichão o tempo todo e nem pomada que sirva encontram nas farmácias que isto dos ácaros até dá prisão se uma pessoa os largar nos meiles. Eu não sei muito bem o que são os meiles mas parece que são umas coisas que se mandam aos franceses que gostam de moda por causa das tendências e dos influenseres que são umas coisas que dizem o que se vai usar. Usa-se muito este ano o amarelo pelos vistos. Agora vou acabar a minha redacção que isto do estado custa muito a arrancar mas depois de engatado ninguém o trava a não ser que os risquinhos nos quadradinhos das tendas não sejam feitos com a merda dum lápis que nem para enfiar no aguça serve que está rombo. Um quadradinho deve ser riscado com uma caneta bem cheiinha.

Muito obrigado

Sou quem sabes

Gui.jpeg

Rasurando.jpg

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe "Rasurando"

rabiscado pela Gaffe, em 21.01.19

Rasurando

Meus amigos e minhas amigas,

 

Apresento-vos o Rasurando, projecto incluído num plano - Opus Grei -  que reúne gente de variadíssimas proveniências e diferenciadas visões e perspetivas do mundo, mas disposta a contribuir para discusões salutares acerca de pontos e de chaves que abrem outras cosmovisões e que permitem e ajudam a repensar o lugar que ocupamos no retângulo - cada vez mais complexo, urdido de inexactidões e pasmos -, que urge colocar em questão.

 

São membros e conspiradores - anunciados numa ordem aleatória -, da estrela Opus Grei:

 

Sarin

naomedeemouvidos

Eduardo Louro

Júlio Farinha

Pedro V

Mami

 

e a Gaffe que funciona quase como mascote, dada a ignorância mais que evidente relativamente aos assuntos que se abordarão.

 

É impossível dar-vos notícia mais completa do que a patente nas já existentes rasuras no blog referido, mas adianta-se que o objectivo é (…) que de forma descomplicada, por vezes séria, porventura bem-humorada, seguramente assertiva, podermos questionar, contribuir, debater, aceitar ou exigir, impelindo os leitores a questionarem-se e a questionarem connosco estas matérias abordadas por tantas perspectivas quantas as que nos lembrarmos. Ou nos lembrarem (…)

 

Imprescindível que subscrevam o blog que agora surge, porque é de utilidade pública - caso ainda não tenham reparado na minha imensa modéstia, fica neste momento a clara prova desta minha qualidade.   

 

Irão verificar que o logo que se anuncia mesmo ali ao fundo aparecerá nas Avenidas sempre que os palpites desta rapariga surjam no blog que agora também é vosso.

 

É evidente que o subscreverão - clicando no perfil Opus Grei - e participarão em todos as saudáveis discussões ali abertas porque, como diria Maria Cavaco Silva, sois – somos todos - gente:

 

InteligentÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍssssssimAAA.

Rasurando

 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe à escuta

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.19

naomedeemouvidos

Porque é absolutamente necessário que a escutemos e porque sempre que a ouvimos, sentimos que vale a pena voltar sem outras palavras que não sejam as que partem do coração, depois de surgirem claras, atentas, disponíveis e sobretudo irrepreensivelmente pensadas.

Foi um privilégio tentar entregar uma imagem às estas palavras.

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe do galifão

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.19

menino.jpg

A Gaffe tinha assumido o compromisso de não voltar a estar atenta aos burburinhos que à sua volta irrompem como cogumelos em bosque mais húmido e sombrio.

Admite que se está arrasada, tonta, desequilibrada, enjoada depois de ter confirmado - o comando da box da Gaffe tem uma verruga que lhe permite andar para trás na programação, tal qual o botão dos boxers do rapaz - que a Assunção Cristas foi mesmo a casa da Cristina Ferreira cozinhar arroz de atum e não estava a usar galochas! Nem jeans! - como se esperaria, pois que confecionava um prato de pobrezinhos.

 

Esta decepção, este lapso, esta incorrecção, esta falta de maneiras, esta inadequação da Cristas foi a gota de Moët & Chandon que fez entornar o copo.

 

A Gaffe não volta a beberricar fait-divers sem pedigree e se por acaso tropeçar outra vez na versão para gente de bem da Ode Triunfal de Álvaro de Campos, nos medicamentos da psicóloga normalizadora do universo, no ralhete de sala de visita do Goucha a um nazi, ou nas mamas da Rita Pereira a rebolar por todo o espaço, esta rapariga sai da sua zona de conforto e passa a insultar toda a gente no facebook, depois de assumir que não ficou chocada, nem um niquinho para amostra, com as declarações de Yann Moix que ninguém que valha a pena conhecia antes do homem ter dito o que não é de todo um escândalo de arrancar cabelo ou de depilar o cérebro.

 

Minhas caras, o rapaz não se sente atraído por mulheres de cinquenta anos.

Meus amores, todas as campanhas publicitárias, desde a da batata frita no pacote à dos coentros e rabalhetes, pensam e mostram o mesmo.

Não precisávamos era de conhecer as formas que o homem encontrou para se tornar um ridículo galifão a tentar erguer a crista, mas a preferência de um homem entradote por corpos de mulheres mais novas, não traz mal ao mundo. Pode eventualmente originar a compra de um Porsche descapotável vermelho para estacionar junto aos portões das escolas secundárias e inflacionar a venda de cola para dentadura, mas não afecta as cinquentonas que, divertidas, olham a coisa mais linda, que vem e que passa em doce balanço a caminho do mar, o Menino do Rio, o calor que provoca arrepio, o dragão tatuado no braço, o calção, o corpo aberto no espaço e por ali fora até ao refrescar da onda. 

 

Não sejamos más.

 

Todas as mulheres de mais de quarenta e muitos anos que a Gaffe conhece se divertem a congeminar perversidades maravilhosas protagonizadas por rapagões saídos há dois, ou três, ou quatro anos, de uma adolescência de ginásio, ainda com os olhinhos brilhantes de inocência fit, slim e menos coisas e mais coisa.

São mulheres estupendas, poderosas, bem-humoradas, belíssimas, que também gostam de publicidade a espumas de barbear, que já concretizaram sonhos, que já floriram, que já dão sombra, que já caminham seguras e perfeitas pelos trilhos que desenharam e que limaram - muitas vezes usando homens de cinquenta anos que preferem mulheres de vinte e cinco. Todas reconhecem que alguns - muitos - destes jovens equilibristas musculados não vão entrar no circo dos seus amantes, porque sabem que a idade dos meninos não se coaduna com a perícia de uma mulher que aprendeu a voar sem rede.

 

Não sejamos implacáveis. Todas temos de reconhecer que um atleta olímpico em idade tenra, ou um menino muito grande que ainda mama no dedo, é bem mais atraente que Yann Moix. Nós apenas não estacionamos o Prosche descapotável à entrada da Secundária e não nos babamos ao dar entrevistas.

 

A Gaffe sente-se esgotada com estas manigâncias, sobretudo porque são tolices destas que lhe aniquilam a atracção que sempre sentiu por homens mais velhos.

 

Decide, em consequência, deixar de estar atenta a burburinhos.

Vai dedicar-se ao arroz de atum, a servir chá a psicopatas e a curar os senhores dos tais vãos de escada.  

 photo man_zps989a72a6.png

Pág. 1/3





  Pesquisar no Blog