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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o olhar de quem ama

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.19

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Gosto de olhar os olhos de quem amo.


Amo pouca gente, por isso não olho muitos olhares, mas quando vejo a textura secreta de uma íris amada, vejo galáxias inteiras de novos Universos.


A minha irmã tem os olhos grandes e rasgados, com uma cor indistinta, entre le chien et le loup diriam os franceses. Olha de soslaio quando está alerta e nos seus olhos há sempre uma chispa de lume atento e fulminante. São olhos luminosos, esperto e manhosos. Olhos de felino que ensaia o ataque. São olhos de traição que a conseguem trair inevitavelmente.

 

O meu irmão tem o olhar quase negro de tão azul profundo. Às vezes tenho dificuldade em distinguir a doçura de todos os contornos dos seus olhos cheios de ternura. São olhos tímidos e muitas vezes baixos. São olhos tão pacíficos que nos podemos banhar nus, lá dentro, sem qualquer receio. São olhos que se fecham, porque receiam brilhar demais e ofuscar quem entra. São olhos de alguém que se apaixona.

 

Os olhos do meu pai são de amêndoa. Amêndoa amarga. Gostam de ficar fechados a ouvir Brahams e detestam ser interrompidos. Olham bem de frente os inimigos, embora, às vezes, confundam as trincheiras. São olhos altivos e orgulhosos. São olhos mandões, rufiões e desordeiros. Olhos que pensam que me enganam. São olhos de iceberg já derretido, pronto a chocar com o Titanic dos nossos.


Os olhos da minha avó eram olhos tristes e arrastavam um azul de cinza tão cansado! Eram olhos que se perdiam se nos distraíssemos. Exigiam atenção. Eram olhos de perder e de encontrar. Nunca entendi aquele olhar que partia facilmente para outro lugar onde não cabemos, onde não somos recebidos nunca. Às vezes eram cruéis de tão distantes. Às vezes havia uma implacável distância dentro deles. A minha avó estava inteira no olhar que tinha.

 

Os olhos do meu avô eram ninhos. Sabíamos dos pássaros que os habitavam, mas apenas conhecíamos os seus voos.  


A minha mãe tem os olhos azuis claros.

Os olhos azuis claros.
Olhos azuis claros.

Azuis claros.         

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Gavetas:

A Gaffe enlutada

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.19


ShapiroEstou de luto.

O meu amigo voou para longe arrastando a minha pobre alma para as cavernas da saudade.

 

A minha saudade é da cor da laranja que é a cor que chega por pensarmos nela, mas que não se instalou, de manto traçado, ainda no peito.

Dir-se-ia que arrendo quartos dentro do coração.

Os inquilinos que tenho parecem estar sempre de saída que mesmo temporária, porque os sei perenes, abre na alma a porta laranja da desolação.

 

Sinto-me de luto, como um monge escarlate na varanda amarela da tristeza.  

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Gavetas:




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