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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do Chef

rabiscado pela Gaffe, em 08.01.19

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É extraordinária a facilidade com que se abrem as ostras cor-de-rosa das notícias e se encontram pérolas de plástico quando nos dedicamos a saltitar pelos ditos e reditos dos nossos mais talentosos representantes.

 

A Gaffe encontrou o chef Avillez triste, choroso, mas sem deixar de revelar uma indignação muito sensata, a lamentar não conseguir estagiários dedicados a seguir as estrelas das suas manjedouras groumet, porque as escolas de onde partem não os deixam trabalhar mais do que oito horas diárias.

O menino trabalha, mas apresenta a conta, não conta.

 

Parvas.

 

A Gaffe não entende muito bem a necessidade de se trabalhar com extensões ilegais nos pratos que Avillez serve aos clientes - ou convidados, pois que gente de bem não tem preço -, porque se torna claro que um tachito médio de arroz sustenta as refeições de um mês dos entusiastas, tendo em conta os grãos que na porcelana se depositam, logo ali ao lado do traço de anchova e pitade de manjericão confitado e azeitona em óleo de carabitaté-tuparaté au feu.  

 

A verdade é que a Gaffe é rude e bronca. Prefere uma refeição que leva mais tempo a comer do que a nomear. Quem lhe tira um alguidar duriense de cozido à portuguesa, servido depois à doida num prato de barro com uma quadra ranhosa no fundo, decepa-lhe parte da vida. Não está, em consequência, qualificada para rabujar em relação à cozinha de Avillez, assim como não pode opinar acerca da cozinha molecular, pois que cuspiu - grosseira! - o ovo escalfado que levou duas horas a preparar. Não o chegou a engolir, porque sentiu que estava a pousar na língua uma lesma com uma overdose. Sem o saber e o sabor de experiência feitos, não se devem regurgitar postas de pescada.

 

Sente, contudo, que deve estar ao lado de Avillez nesta sua frustrante demanda.

 

É inadmissível que estejamos dispostos a pagar a estagiários ordinários, a aprendizes imbecis de feiticeiro, parte de um ordenado, contando que os Centros de Empregos paguem o restante, e sermos confrontados com estes minorcas e quem os tutela a recusar infringir a Lei, apenas por pirraça. É evidente que passados alguns meses, estes nojentos exigentes são substituídos por outros.

 

Há que baixar os olhos para as antigas senhoras lá de casa, gente dedicada e fiel, agradecida, capaz de se depenar e de despir a camisola - e em casos de necessidade o resto -, quando, anos a fio, tocávamos a campainha de serviço.

 

Pobre e inocente Avillez que ainda não percebeu que já se vai tornando difícil encontrar sopeiras como no antigamente das estrelas.

 

 Cartoon - G. Haderer

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