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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe laminada

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

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A Gaffe apela a todos os homens!

A Gaffe exorta todos os rapagões!

 

BASTA de infâmias profanadoras da vossa sagrada e milenar virilidade.

 

Homens de todo o mundo aliem-se à campanha contra o politicamente correcto, contra a desvergonha desarvorada, contra o ataque à masculinidade sólida e ancestral, contra a pilosidade facial expressa pelas lâminas malditas que atentam contra o que de mais tradicional existe nas  vossas cuecas que coçais em pleno campo de batalha onde as vossas equipas cospem para o chão interminavelmente, pese embora o piso fique escorregadio e o árbitro rejubile assistindo às vossas quedas aparatosas e dignas de penalties a favor da elevação da besta a campeão.   

 

Não temais!

 

Ao vosso lado estão já jornalistas, actores, pivots e pevides. Nada há a temer, a não ser o avanço descontrolado daquilo que ameaça a testosterona capaz de dominar as feras soltas, de jubas ao vento e saias travadas e boas, mesmo a pedir que as alimentem, nas ruelas da vossa imaginação e nas ruas onde balançais o corpo másculo a caminho do mar.

Ai, que coisa mais linda!

Homens de todo o mundo, deixai a barba crescer.

Amaldiçoai a Gillette, candidata a castradora da liberdade de se ser mamute.

Lutai pela manutenção da tradição, da transmissão da ancestral forma de se ser um chimpanzé psicótico, insultando o chimpanzé e majorando a psicose.

 

Avançai, meus queridos!

 

A Gaffe sempre disse que quem retira a barba a um homem, lhe arranca ao mesmo tempo a pila.

Há que sentir musculado orgulho em conseguir viver com estes dois apêndices sozinhos.    

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A Gaffe em manutenção

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.19

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Depois de ter decidido pagar apenas o que consumia, a Gaffe optou por um tarifário livre, com carregamentos soltos e de valores opcionais, para poder sentir que não estava a ser descaradamente roubada pela Altice, operadora que tinha escolhido por razão nenhuma e porque a enche de tédio ter de ouvir as assistentes da concorrência a impingir-lhe os mesmos serviços pelo mesmo preço, mais cêntimo, menos cêntimo.

 

Ufana, desandou por ali fora, com a certeza do dever cumprido e a murmurar o consagrado a mim ninguém me engana, com um ar de Manuel Alegre na tourada.

 

Dias depois, recebeu uma mensagem reportando que lhe tinha sido retirado um euro do saldo, para manutenção do cartão.

Dias depois destes, recebe nova mensagem a informar que se tinha eclipsado mais um euro e mais pico, para manutenção do cartão.

A Gaffe ficou pasmada. Não imaginava que um retângulo tão pequenino acumulasse tanto pó e fosse de tão rápida degradação.

Dias depois destes dias, foi amavelmente brindada com uma frase lapidar que lhe comunicava que o cartão ficaria activo até um dia determinado e que, passada a fatídica data, esta rapariga deixaria de poder efectuar chamadas, mesmo que não tivesse esgotado o saldo que, descobriu de repente, não era cumulativo.

 

Ficou decidido deixar que a implacabilidade do tempo realizasse o dano que a ameaçava.

A Gaffe ficou com um cartão de telemóvel amputado e a felicidade raiou como naquelas fotografias lindíssimas que aparecem no facebook a abençoar frases desgarradas, mas sempre de utilidade extrema.

 

Segundo informação não fidedigna, o cartão será desactivado definitivamente ao fim de três meses de inactividade. A Gaffe tem de agendar a ida ao funeral, que isto de se ser de boas famílias exige sacrifícios.

 

É curioso verificar, por exemplo, que este procedimento é muito similar ao aumento das reformas anunciado em forma de slogan. As pobres olham os foguetes que se lançam e estrelejam e pasmam seduzidas, dispostas a aclamar a benevolência e o altruísmo de quem olha as folhas de Excel com um desprezo humanista e se curva perante a miséria alheia, retirando-a do lodo onde a enfiou. Passados dias - provavelmente o mesmo tempo que leva a chegar a mensagem da Altice ao telemóvel -, o IRS sorve o saldo para manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É interessante apurar, por exemplo, que a Altice se comporta como as Câmaras cravadas nas zonas em agonia, destruídas por incêndios, que distribuem a grupos de jovens voluntários - que se revezam mês após mês, chegados de várias zonas do país às terras assoladas -, carvalhos, pinheiros e sobreiros, cuja aquisição foi subsidiada, e que não as regam, que não as cuidam, que não as protegem, depois de plantadas, tornando imbecil e patético o voluntariado que se depara, mês após mês, com a morte das árvores pequeninas. Voltam para recolher outras. A Câmara - logo que recuperada a casa de férias do amigo - fornece-as subsidiadas, porque há que fazer a manutenção do cartão.

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É simpático atestar, por exemplo, que a Altice se comporta como aqueles que vão provando que o jornalismo desapareceu do quotidiano das gentes. Restam resíduos avulsos que cospem fast-food servidos em embalagens de plástico descartável que referem a grande reportagem, ou a investigação jornalística, antes de segurar o guardanapo que limpa aberturas de noticiários com telefonemas populistas de presidentes narcísicos, pois que é necessário fazer a manutenção do cartão.  

Fica no ar apenas a vaga ideia da pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

É estimulante confirmar, por estes poucos - e por outros mais exemplos que se calam, pois que iriam deprimir esta chamada -, que o país é apenas e cada vez mais uma rede de comunicações - privadas ou públicas - com uma razoável equipa de marketing e que, no fundo, tudo se resume à manutenção do cartão e a uma pagela no facebook com conselhos e aforismos fanados.

 

Por isso a Gaffe decidiu - enquanto pode -, mal recebe uma chamada de uma operadora que lhe quer anunciar a Boa-Nova, sussurrar num tom arrastado e rouco, mesmo antes de ouvir o que quer que seja:

 

- Já está, mas há sangue por todo o lado.

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