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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe cardinal

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.19

Cardeais

As próximas Jornadas Mundiais da Juventude Católica realizar-se-ão em Portugal, segundo informação que a Gaffe não se importa que não seja fidedigna, porque é cristã.

 

A Gaffe está radiante, pese embora reconheça que esta será a razão usada para disparar a recandidatura de Marcelo à Presidência. Ninguém como ele consegue beijocar a mão do Papa e toda a gente de bem sabe que uma genuflexão é o horror quando mal executada.   

 

A Gaffe adora excentricidades e o Vaticano é uma galáxia no que diz respeito a estes pequenos desvios à rotina sensaborona.

Lamenta, ontem como hoje, que o chefe de Estado amarelo e branco seja uma espécie de pároco bonacheirão, que não se cansa de dizer coisas óptimas de bondosas que a Gaffe diria com facilidade, desde que lhe cedessem o palácio a título vitalício, lhe entregassem uma honra qualquer vagamente renascentista e lhe chamassem Sumo - magríssimo, não aquele japonês de penteado giríssimo, que anda de fio dental todo decorado a empurrar o parceiro de modo um bocadinho teimoso e inútil -, mas admite que as extravagâncias que brotam dos mármores de Carrara - e sabe Deus mais donde - que forram as assoalhadas do Vaticano, são maravilhosas.

 

A Gaffe considera, por exemplo, uma ternura ser uma dúzia e meia de velhinhos a eleger outro velhinho para se alapar no trono de Pedro e usar a tiara papal que - dizem as más línguas -, não faz pendant com o colar e os brincos. A Gaffe julga divinal o velhinho eleito ter competência para repensar as figuras do presépio, escrever encíclicas imensas numa língua defunta, visitar os pobrezinhos sem galochas, emanar coisas em latim dirigidas a milhões de súbditos que as não sabem ler e conseguir ir a casamentos vestido de branco sem afrontar a noiva e quebrar o protocolo.

 

A Gaffe pensa que é um mimo de chic ir de vez em quando à varanda acenar às multidões embevecidas e lamentar tristonho e muito circunspecto aquelas coisas desagradáveis que os mortais sofrem de quando em vez.

 

A Gaffe acha um milagre conseguir fazer desaparecer numa paróquia mais esconsa um companheiro de aventura cardinal que se empolgou em excesso na sacristia, catequisando, com punho hirto e duro como barra de ferro, aquelas coisas mais pequenas que não querem rezar condignamente.     

 

A Gaffe considera obra do Espírito Santo ser-se capaz de governar um banco apenas com esmolas dos tão crentes e transformá-lo sacramente num dos mais poderosos e influentes manipuladores das finanças mundiais – com inclusão das finanças dos mafiosos, dos tios das offshores e de outras ainda mais armadas.   

 

A Gaffe considera um must andar empoleirado numa cabine telefónica com rodas, transparente e à prova de bala, com dezenas de matulões a correr ao lado, para não deixar cair a chamada. 

 

Seja como for, a quantidade de mocetões acalorados - mais este e aquele, o outro e toda a gente … - que vão estar juntinhos nas Jornadas Mundiais da Juventude Católica, augura rezas muito proveitosas, névoas de sacrifícios, despidas penitências e uma ou outra aparição em qualquer gruta mais recôndita.

 

Convém, no entanto, afastar os cardeais das orações, pois que se por perto, uma rapariga corre o risco de ter de fazer jejum.

Há sempre um certo cardinal que só se abstém quando os ventos sopram nas batinas, opas, báculos e mitras, revelando a quantidade de hóstias que foi compilando e papando nas mais escuras capelinhas.

 

Mas em Portugal há sol e quando há sol, há Jornadas, e se há uma Jornada em cada vida, é preciso cantá-la assim despida, pois se Deus nos deu hóstias, foi p’ra as papar, e se um dia se há-de ser pó, cinza e nada, que seja o paraíso uma noitada que se deixa perder para pecar.

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