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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Billy Porter

rabiscado pela Gaffe, em 27.02.19

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Enquanto a mãe, ouvida atentamente pela amiga, comenta Billy Porter, elogiando a ousadia, a originalidade, a intrepidez, o arrojo, e a disrupção do homem que apenas quis homenagear o lendário Hector Valle, da Casa Xtravaganza, - que morreu há cerca de dois meses e cujo talento se estendeu muito para além da red carpet -, as crianças, menos empolgadas, brincam no relvado em frente, olhadas por mim.

 

O rapazinho é pacato, reservado, concentrado. Usa uma nave espacial sofisticada como carrinho de bombeiros - ou ambulância, dado o local -, e vai mimando ruídos de sirenes enquanto faz deslizar com urgência um socorro imaginário a um deflagrar de catástrofes na relva.

A rapariga, mais novinha, vai destruindo a ilusão, pisando o trilho desenhado, ou calcando a mão do irmão, tentando de soslaio vigiar a mãe de modo a que a sua maldade não seja descoberta.

 

Não creio que seja uma criança maquiavélica. É apenas uma menina má. Detém aquela espécie de maldade gratuita que causa danos maiores do que os provocados pela que foi projectada visando um alvo específico.

O menino perde a paciência. Empurra com força a irmã que de rabo no chão desata num desalmado choro.  

 

A senhora elegante interrompe os comentários oscarizados, levanta-se e num assomo de urbanidade, num acesso pedagógico, num surto educativo, dirige-se ao agressor e faz desabar sobre o petiz uma quantidade sábia de sábios ensinamentos que começa por vincar a necessidade de se respeitar uma menina, passam pela nódoa de se agredir gente mais frágil e acabam, depois de muitas voltas, com a vergonha e cobardia que é exercer violência física sobre quem não se consegue defender.

Um corrupio de belíssimas cogitações e um acervo de maravilhosos conceitos e princípios a transmitir às gerações futuras.

 

O rapaz foi obrigado a pedir desculpa e fê-lo com uma sinceridade realmente envergonhada.

Promete que não voltará a empurrar a cabra da irmã que se calou num instante.

 

Não vale a pena tecer considerações acerca da saia, quer de Billy Porter, quer desta menina. Ambas conseguem fazer disparar uma série imensa de considerações - eivadas de ignorância, aqui e ali, ali e acolá -, dignas de anotação e merecedoras de atenção e mesmo de respeito, como é da praxe dedicar a afirmações politicamente correctas, quer se queira, quer se não queira.

 

Há, no entanto, uma minudência demoníaca que me pousou no ombro e não me deixou sossegar.

 

Este rapazinho absorveu a assertiva lição - e todas as que se seguirão, pela certa e de forma certa -, e passará a contar com a dita fragilidade feminina - em todas as vertentes, encostas, precipícios e abismos -, que irá temer macular sempre que a vida lhe colocar na frente uma mulher que lhe seja importante.

Este masculino cuidado apreendido ao longo do tempo, o intransigente respeito pela mulher que mesmo irracional é eventualmente tida como inatacável, estas pinças sublimadas que a tornam quase intangível, o cultivo de uma feminina debilidade de ficção, fazem parte, também, da real fragilidade feminina.

 

Creio que existem algumas relações a soçobrar, porque o elemento masculino inconscientemente recusa o confronto, o contradizer, a aberta e esclarecedora discussão e a saudável negação do que na parceira está errado, apenas porque lhe incutiram desde a infância - que já ninguém recorda por demasiado tenra -, a noção da frágil delicadeza feminina que impede o solavanco da contradição ou o empurrão da discordância.

  

Os cavalheiros nem sempre são os homens mais sinceros. Acompanham por vezes senhoras que se pensa terem saído de um circo manhoso, apenas porque são incapazes de corrigir, de opinar, de contradizer escolhas, não se vá ferir suscetibilidades de mulher etérea.   

 

Se também é por cobardia que um homem agride, seja de que modo for, uma mulher, pode não ser errado apontar também como cobarde o silêncio masculino perante a erro feminino, motivado pelo receio de magoar ou de melindrar ou de violar uma ensinada, e bem aprendida, imaterialidade oriunda da natural fraqueza da mulher quase angelizada.

 

Talvez seja por isto que os casais do mesmo sexo conseguem solidificar com maior facilidade e com maior durabilidade, uma relação que, talvez também por isto, seja mais difícil de iniciar. Não se deparam com esta espécie de síndrome do bom guerreiro que obriga o mais poderoso a poupar - e a defender - o que lhe disseram ser mais fácil de vencer por ser mais fraco.

 

Evidentemente que são conjecturas iguais às que volteiam em torno da saia de Billy Porter.

Existem, são visíveis, mas nada garante que na origem de todas não esteja a ignorância do que realmente se esconde debaixo dos panos.

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