Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe real

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.19

 

A Gaffe, como está provado, não é especialmente católica. No entanto, não deixa de se espantar com o modo como Deus encara miseravelmente as monarquias, tendo em consideração as cabeças que escolhe para coroar.

Os outros regimes não escapam ao desprezo divino, mas os diferentes escolhidos que os encabeçam, dizem-se eleitos por outras artes.

 

Há no entanto, algumas - raras -, excepções a esta indiferença divina.

 

Há mulheres que são ocultas, latentes infantas, herdeiras dos reinos mais íntimos das almas dos homens e, mesmo sem diadema repleto de jóias solares, são capazes de urdir a mais imponente das insígnias reais: as coroas que ostentam são entrançadas com as próprias fibras.

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe "homossexualista"

rabiscado pela Gaffe, em 28.03.19

Z.jpg

A Gaffe está mais uma vez ao lado, mas mesmo ali ao lado, da maravilhosa Joana Bento Rodrigues que a cada passo nos deslumbra, superando aquela coisa feia que a estátua da Liberdade tem na mão erguida.

 

Depois de nos ter metido no lugar que nos pertence desde tempos imemoriais e que tantas vezes somos - nós, mulheres! -, capazes de esquecer e desprezar, chega-nos agora revoltada, chocada, escandalizada, com a campanha de uma marca de roupa para crianças que se alia à moderna tendência homossexualista que grassa no Ocidente e que, mais cedo do que se pensa, vai desertificar o planeta.

 

A marca apresentou uma colecção de roupa infantil que tanto dá para um lado, como para outro. Este facto já é péssimo, mas tentar abolir a distinção dos sexos através da cor, cerceia a nossa capacidade de discernimento e contribui para esta espécie de daltonismo sexual que os homossexualistas defendem e promovem, ultrapassando mesmo as fronteiras e os limites traçados por Deus.

 

A Gaffe considera um HORROR.

Deixem as crianças em paz!

 

Acredita piamente - como Deus manda -  que esta contínua aniquilação de códigos ancestrais, levada a cabo por gente LGBT, ou LGBTI, ou LGBTI+, ou coisa que o valha -, é um perigo para a civilização, tal como a conhecemos e respeitamos, e não vai ser interrompida antes de destruir por completo a vantagem  que detinhamos sobre o homossexualismo - que nos foi dada por Nosso Senhor -, e que nos permitia imediatamente identificar - e saber lidar com isso - qualquer personagem que nos surgisse na frente.

 

Tentar anular os códigos sociais expressos nas cores, é trágico, mas é tarefa destes monstros que consideram primordial levar a civilização ao homossexualismo total.

 

A Gaffe teme que se intensifique a possibilidade de uma mulher usar um vestido vermelho intenso e justo, sem se perceber que anda a pedi-las. Não é de todo de espantar, pois que já é com alguma dificuldade que conseguimos discernir um toxicodependente de um gótico, ou de um emo, ou de uma pessoa de luto, através do preto que usa em look total e - a propósito - já é absolutamente incriminatório intuir - porque somos lógicos e racionais - que uma pessoa de cor mais escurinha é uma ameaça potencial à nossa segurança e que tem a pila grande, ou que uma pessoa mais amarelinha tem a porcaria dos genes dos olhos em bico entranhada no corpo e abre lojas com plásticos a cheirar a petróleo, mesmo ao lado da Prada.  

 

Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe por instinto que se colocar nos ombros do filho um pólo azul discreto, o menino não mudará de sexo na idade maior e com certeza conhecerá por essa altura, no golf, meninos que usaram, pousados nas costas, pólos azuis discretos. Juntos podem perfeitamente fundar uma empresa e encomendar uma colecção que aproveita a onda homossexualista àquela gentalha que em criança ousou cores berrantes e que por isso agora é estilista.

Pelo menos, dá lucro.

 

Uma mãe que sabe o que é ser mãe, que sabe estar, que conhece o seu lugar, que se comporta como uma verdadeira mulher, sabe que se vestir a filha de princesa cor-de-rosa, a futura jovem tem mais hipóteses de casar com o menino do pólo e - se usar branco - ser amante dos amigos de pólo do marido e que será sempre mais que Ministra da Cultura.

  

É evidente que se uma mãe não merecer este santo estatuto, e vestir a sua criança de vermelho, ou preto, ou quiçá de branquinho, terá no futuro um comunista ao jantar, ou um drogado suicida, ou um homossexualista na Companhia Nacional de Bailado.  

 

O pai está a trabalhar. Não aborreçam. 

 

Já nos tentam roubar a possibilidade de reconhecer as boas pessoas pela cor da pele, não nos retirem agora a capacidade de distinguir através da cor da saia ou do pullover,  da menina e do menino, o que é de aproveitar do que não passa de manobra destruidora do lobby do homossexualismo.

 

Se Deus, na Sua infinita sabedoria, nos fez e nos vestiu de cores diferentes por alguma coisa foi.

 

Bravo, Joana Bento Rodrigues! Embora exista roupa unissexo há imensas décadas, não parece nada que a menina saiu agora mesmo debaixo de uma pedra.

A menina continue que não maça nada. 

 photo man_zps989a72a6.png

Redacção da semana: A Dona Mandona

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

madonna.gif

 

Hoje vou falar da Dona Mandona que é uma senhora velha para aí com cem anos que gosta de mandar em tudo como o nome diz. A Dona Mandona é estrangeira mas comprou uma casa mais ou menos em Lisboa que a gente nunca sabe onde ela está por causa dos patarazis que são umas pessoas que perseguem e que atiram as princenzas contra os postes. A Dona Mandona é muito rica mais rica que o Dom Ricardo Salgado e que o amigo do senhor engenheiro juntos. As pessoas ricas podem comprar casas em Lisboa ou então arranjam um vistogolde que é assim como uma espécie de multibanco. As pessoas ricas metem o vistogolde no buraco do banco e sai uma casa prontinha e tudo. Se a Dona Mandona fosse pobre ia viver para a Jamaica que se quilhava. A Jamaica é um lugar que tem muito mas mesmo muito sol e é por isso que não vivem lá as pessoas que ficam sempre à sombra no fresquinho. A Dona Mandona é tão rica tão rica tão rica que nem vistogolde precisa. É sempre áviar como diz a minha tia Arminda que tem uma mercearia em Carrepeta de Anciães e é gorda. A gente gorda avia muito, não é como a Dona Mandona que só come umas coisas feitas pelo senhor cozinheiro Aguilez que faz um reclamo à cerveja da Noémia e que parecem caganitas de cabra mas em verde que a Dona Mandona é encológica. Uma pessoa rica pode ser muito encológica. Manda os pobres amanhar os pepinos e as couves e as outras coisas da terra que é sem corantes e sem plásticos e depois come e manda as cascas para os porcos as vacas as cabras e os cavalos comerem. Os bichos comem aquilo e depois fazem as necessidades que vão para o restaurante do senhor Aguilez mas aos pedacinhos muito pequenos que a vida está cara e o senhor Aguilez tem de viver como os outros. Chama-se renciclagem. Vou estudar em Estudo do Meio para depois fazer também lá em casa que lá só se come comida emplastificada que é mais barata com papel tócolante e nem o burro se safa com os restos que fica tudo a cheirar a peixe podre e os burros não são peixíbonos. Por acaso foi uma pena a Dona Mandona não saber que a minha avó tinha um burro. Como o senhor presidente da Câmara da Horta não deixou a Dona Mandona meter um clipe com um cavalo dentro duma casa antiga e muito valiosa a Dona Mandona assim como assim já cá tinha o bicho dentro. A casa da minha avó está podre como a que ela queria. É mais pequena pois que é mas é mais asseadinha. O cavalo é um burro pois que é mas a gente dá o que pode e a mais não é obrigada. O meu primo Zeca é que não deixava. Já quando soube que a Dona Mandona queria o cavalo dentro de casa disse logo a Mandona que meta o cavalo na garagem. O que ele disse rimava mas já levei muitas no focinho. Não sei é se o cavalo lá se segurava. Na garagem. Às tantas tinha de ser preso por cordas para não escorregar por ali fora. Não sei que sou pequenito e é melhor está calado. Benza-a Deus que lhe deu sorte como diz a minha prima Idalina que sabe a música laicavegan de cor e que diz que a Dona Mandona é uma rainha. Ela diz mas eu sei que não é. Se fosse estava no governo que eu aprendi em história que antigamente havia em Bréquesite uma rainha chamada Vitória que meteu a família toda a governar tudo o que havia. Aquilo era primos e primas tios e tias irmãos e irmãs todos metidos nos governos de todo o lado que aquilo até deu merda e um deles passou a hemotrólifo que é uma doença que dá quando se mete a família toda a governar. Agora não me venham dizer que não se pode meter burros e cavalos nos palácios que até pode se formos rainhas. Se a Dona Mandona não conseguiu é porque não é rainha. É da oposição. Vou meter aqui uma fotografia da ovelha a renciclar que vive em casa do meu primo para ver se a Dona Mandona a quer no clipe. A gente sabe que está na moda ter ovelhas ou cabras nas televisões. O meu primo Zeca até a leva quando vai a Sintra em trabalho. Diz que não gosta de dormir sozinho ao relento. Temos de ser uns prós outros. Eu gosto muito da Dona Mandona.  

Gui.jpeg

 

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe com saudades

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

A.jpg

Lembro-me, era eu minúscula, de ver a minha Jacinta a tricotar.

 

Usava agulhas grossas e a lã era Dralon 5, resistente e duradoira.

Matizava, torcia, entrançava e entrelaçava pontos que inventava com os que tinha herdado. Como um maestro de duas batutas, construía melodias mansas e mornas que usávamos durante os Invernos.

Lembro-me que as peças tricotadas mantinham um vago aroma de gardénia, quase nada, quase tudo, e que as cores que povoavam, este perfume e estas peças, eram quase sempre densas, sólidas, luminosas, quentes e imprevistas, como se um pedaço de Verão se tivesse perdido no entretecer da malha.

 

Se olho agora o que nas ruas encarna o glamour que é o retorno assumido a um tempo tricotado, sei que, se abrir as gavetas da velha arca de mogno liso ao canto do quarto em que foi urdida a minha infância, o vago aroma a gardénia voltará a tremer nas minhas eternas malhas Dralon 5.

 

Mas é Primavera e há um ninho nas árvores. 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe do bajulador

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.19

Denis Zilber1.jpg

Na imensa fila dos bajuladores mais abjectos, é sempre aquele que ocupa o lugar da frente, o primeiro a calcar e a esmagar o incensado quando o encontra caído.

 

Ilustração - Denis Zilber

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe das fadas

rabiscado pela Gaffe, em 26.03.19

Daniel Egnéus.jpg

 

Tentei há imenso tempo, uma aproximação presunçosa e mais ou menos freudiana às histórias de fadas.

Recupero o que na altura foi escrito, pois que nada se alterou e porque encontrei ilustrações extraordinárias que quero muito mostrar.

 

Na altura usei apenas O Capuchinho Vermelho e A Bela Adormecida que são, sem hipótese de contradição, duas obras com direito a figurar nas estantes da memória de todas as crianças. Não fiz, nem pretendo fazer por estar longe de ser capaz, uma análise exaustiva das obras. Aflorei apenas o aspecto que ilustra de certo modo o que sempre pensei acerca do assunto.

 

O primeiro conto fala de uma menina que, usando um capuz encarnado, deverá no seu passeio pelo bosque, passar a ter cuidado com o lobo que a espreita com intuitos devoradores. Numa primeira e quase imediata aproximação, descobrimos a cor do capuchinho que, segundo uma data considerável de analistas, representa a menarca, a primeira menstruação de uma jovem. A rapariga, fértil, deverá cuidar da sua segurança e do afastamento do possível agressor e/ou desflorador, aqui transformado em lobo cujas características estão desenhadas de modo a ser considerado fatal. A lição possível é dada de modo eficaz e o aviso subliminar fica registado. A menstruação, metaforicamente encapuzada, é sinal claro, vermelho, para que a jovem menina passe a observar os sinais de perigo vindos do bosque. Uma agressão não pode, ainda hoje, ser evitada usando o medo do lobo que espreita?

 

É também curiosa a quantidade de sangue que se derrama nestes dois contos - mas não exclusiva destes. O sangue metafórico do capuz e o sangue provindo da picada que adormece a Bela. Desta feita, no caso da Princesa catatónica, ser picada é ser desflorada. Há um elemento perfurador, o fuso, que penetra na carne da jovem que tinha atingido a idade em que se tornaria normal uma iniciação sexual. Como castigo, a adolescente adormece e terá de ser o Escolhido a tentar reanimá-la com um beijo após ultrapassar uma série de provas que demonstram que é o merecedor. O feitiço é imposto pela bruxa - interessante também esta dualidade entre bruxa/fada, fada madrinha/feiticeira, que está muito próxima da imagem da mãe, criatura benévola versus criatura malfazeja - e é quebrado por imposição - permissão? - de uma fada com a condição de ser um corajoso, garboso e aprovado jovem a reanimar a princesa picada e ensanguentada. Neste caso, o beijo poderá ser leve e pueril, ao contrário do da Branca de Neve que será obrigatoriamente mais profundo de forma a retirar da garganta o pedaço de maçã envenenada. Muitas vezes ignorada ou dispensada esta característica contribui de modo decisivo para a perenidade e a intemporalidade da história.

 

Estes dois exemplos, mostrados de forma simplificada e incompetente, dizem dos modos sublimados de abordar o sexo nas histórias para as crianças, transmitindo noções e conceitos que se enraízam no inconsciente colectivo e estão directamente relacionados com os chamados arquétipos da humanidade. Não são exageros de mentes sórdidas capazes de encontrar, de modo freudiano, o sexo nos anjos. Até porque são raros - se é que há alguns - os contos onde os querubins se tornam personagens dignas de eternidade oral ou escrita. Por não terem sexo, acabam não contáveis.

 

A minha aproximação, pecando por defeito, é necessariamente curta e restrita e está apoiada nos mais básicos alicerces do corpo construtor da clássica narrativa infantil susceptível de atravessar gerações sem modificações na sua estrutura essencial. Carece de maior desenvolvimento que não tem lugar aqui e deveria, logicamente, ser aliada a outras que com esta fornecem o estatuto de obra maior ao que é contado.

 

A violência, a morte, a crueldade, a disfunção - sobretudo no âmbito familiar - e o universo do fantasioso povoado por ogres, fadas, duendes e bruxas, são pilares quase totalmente ausentes na literatura infantil da actualidade que oferece à criança uma planície asséptica, afastada e purificada, repetindo e retratando um quotidiano aparentemente inocente, clarificado e isento de implícitas referências aos arquétipos edificadores e organizadores do inconsciente colectivo.

 

Com um público situado numa faixa etária ligeiramente mais elevada, J. K. Rowling recorre a estas implicações de forma quase exemplar em Harry Potter, provando que hoje, como no século que viu o Capuchinho ser atacado pela fera, ou nos reinos de Tolkien, recorrer às certeiras e velhíssimas fórmulas mágicas é garantia de aceitação, de reconhecimento imediato e projecção no futuro e não se está a falar, neste momento, de óptimas e inteligentes campanhas publicitárias.

 

Este palrar inútil e maçador serve apenas para vos mostrar o trabalho fabuloso de Daniel Egnéus e não dispensa a leitura do folheto informativo, por exemplo, aqui aqui.

 

 

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe googlada

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.19

google.jpg

A Gaffe não quer de maneira nenhuma desiludir toda aquela gente marota que desemboca nestas Avenidas quando procura rabos nus de rapazes.

 

O Google é uma ferramenta sábia e absolutamente capaz de oferecer às buscas deste teor os resultados mais que previsíveis. Pese embora esta evidência, a Gaffe não compreende como se consegue chegar a este discreto e altamente pudico paradeiro usando a palavra nus!     

 

Seja como for, gente marota será sempre bem acolhida, aplaudida, abraçada e convidada para jantar. Esta rapariga reconhece que é uma alegria perceber que o bom-gosto nunca arredou o pé – e o rabo – deste recanto recatado e, para não desiludir, a Gaffe decide oferece uma nova imagem ao motor que tanta procura dirige a este vestidíssimo lugar à beira mooning plantado – logo ali, mais à frente.  

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe peticionária

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.19

rio.jpg

 

Não faço ideia se Adolfo Mesquita Nunes é agora capaz de travar a planeada construção da última barragem a ser erguida em toda a Europa, que já há algum tempo desistiu destas traiçoeiras produtoras de energia renovável que se descobrem insustentáveis, pouco inteligentes e pouco eficientes, com a agravante de se tornarem desastrosas em termos ambientais e calamitosas para o património natural, cultural e humano.

 

A EDP e o governo querem construir no Tâmega mais uma barragem, a de Fridão.

 

Inútil, a não ser que se queira - também -, arrasar Amarante, pois que o mostrengo pousará o rabo sobre uma falha sísmica que, se irritada, dará dez minutinhos para que a cidade toda inteira fuja, antes de ser afogada por uma onda gigante.

   

A 18 de Abril será riscado o futuro do rio. Ou é arruinado, ou continua a correr.

Antes de ser demasiado tarde, faça o favor de não morrer mais uma vez.

 

eunaoassino.com

 

Actualização (16.04.2019) - a barragem não avança. Obrigada. 

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe murada

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.19

23959764884_754e432ae2_b.jpg

O trágico é aplaudirmos os que prometem construir muros que nos protegerão do invasor, sem percebermos que o inimigo está cá dentro. 

 

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe bacteriologicamente impura

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.19

Galp.jpg

A Gaffe nada entende de desporto. Retém apenas que é uma actividade que permite a visualização de traços distintivos e muito interessantes dos atletas e - embora digam que faz suar imenso -, que jamais se tornará perda de tempo observar Olímpia, Ολυμπία para os amigos, em todo o seu esplendor.

 

Sublinhado o facto, é de esperar que esta rapariga distinga os jogadores de futebol - por exemplo -, apenas pelas pernas e pelos rabos, e mesmo assim quando pertencem a equipas diferentes e em consequência estão a usar outfits desiguais enquanto correm e cospem no relvado.

 

É evidente que a Gaffe jamais consentiria que se aproximassem de si os amorosos grunhos que aos balcões das tascas e tabernas discutem durante horas intermináveis o ocorrido dentro do relvado e a erva dentro do ocorrido. As televisões encarregam-se desse assunto como uma dedicação, insistência e profundidade avassaladoras e, valha a verdade - honra lhes seja feita -, pagam a estes incansáveis palradores de balcão de bordel as opiniões que regam com tintol, navalha e palito ao canto da boca cheia de pastelinho de bacalhau.     

 

Convém neste momento referir que a Gaffe provavelmente irá cometer lapsos por todos os cantos, foras de jogo e penalties. Não adianta corrigir-lhos. A Gaffe está perfeitamente feliz e em paz com o mundo dos erros que comete nesta área - para além de ser esse o lado para onde dorme melhor.

    

A Gaffe é informada que um jogador de futebol de origem brasileira, mas naturalizado português, foi convidado a integrar a selecção nacional.

 

Um senhor chamado Rui Santos, debruçado ao balcão de um qualquer canal de televisão, insurge-se e borrifa e apita. O homem não devia ter sido convocado por não ser bacteriologicamente puro.  

De origem brasileira, o jogador – a Gaffe não quer saber o nome, evitem maçadas -, provavelmente tem nos intestinos bactérias a sambar que não coordenam com as fadistas.

 

A Gaffe não sabia quem era o excêntrico biólogo e admite que desconhecia que a ciência bebia shots de cachaça e vinho do Porto como quem come pipocas no cinema, mas a curiosidade apertou-lhe a lamela.

 

Foi ver, estúpida que é.

 

Pronto. Já viu e até ouviu um bocadinho.

Estúpida que é!

 

Não pensou esta rapariga tonta que tudo se relacionava com o ambiente. As bactérias que pululam as entranhas do pobre jogador foram contaminadas pela atmosfera corrompida do Brasil ou, quiçá, violadas pelo único presidente da República brasileira que ainda não foi preso - não se lhe ocorre agora o nome, vá lá a gente saber porquê!

 

Rui Santos é acérrimo defensor da pureza ambiental, interna ou externa, e é ao lado de Manuela Ferreira Leite que repreende a cachopada por tamanha irresponsabilidade: largam os gases irritantes da defesa ambiental e logo a seguir sujeitam as pessoas a chutos bacteriologicamente contaminados.

 

Felizmente a Gaffe terá Adolfo Mesquita Nunes - vereador na Câmara Municipal da Covilhã, ex-vice-presidente da Cristas e ainda coordenador do programa eleitoral do partido desta querida que já não poderá contar com ele para disputar a liderança do barzinho -, no Conselho de Administração da petrolífera Galp Energia, que será outra. Naturalmente.

 

Paula Amorim vai ver como elas mordem. As bactérias. Essas putas - puras, perdão.

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe muito atenta

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

life.gif

 

Insistem macios que a vida acontece. Cabeça a acenar um sim quase pio, olhos comovidos e coração despido, repetem que a vida acontece. A todo o momento, a vida acontece.

 

Acredita-se.

A vida acontece.

Seja.

 

Corremos demasiado depressa pela vida e a vida exige paciência.

A tragédia não é desacreditarmos que a vida possa acontecer a qualquer momento.

Trágico é perdermos demasiadas vezes o milésimo de instante em que a vida surge.

E esta banalidade são as outras letras. 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe das camélias

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.19

cummings.jpg

As camélias começam a tombar.

Floresceram mordidas pela morte. Um rebordo decomposto, uma unha pisada podre em cada pétala, a cor de carne viva amortecida pelo quarto crescente da mordida.

 

A minha avó ao longe. Ao fundo da alameda. Ao longe branca nas ondas onduladas do cabelo. As camélias soltavam pétalas vermelhas no vestido preto da senhora.  

O meu avô ao lado.

Às vezes o braço pousava no vestido negro da senhora e havia pétalas vermelhas a tombar no gesto. A camélia no peito do meu avô não tinha rebordo morto. Floresceu num ápice, antes do voo do vento e do estancar da seiva.

 

Às vezes a minha avó sorria. Às vezes pousava a cabeça na camélia que o meu avô tinha pousada no ombro. Igual a que trazia no peito. Vermelha como um coração sem rebordo.

 

- Ah, menina! Gostavam tanto um do outro como se não tivessem as almas para salvar.  

 

As camélias mortas.

 

Às vezes a minha avó debruçada na alma que não tinha de salvar por amar tanto a dele que não tinha de ser salva.

Às vezes o gesto que corrigia a assimetria das pérolas no pescoço. Os dedos a aflorar o curvo das pérolas e as pétalas no chão, sem simetrias.

 

Às vezes o silêncio.

 

A alameda coberta de camélias e os meus avós ao longe de mãos dadas e o medo de não poderem morrer juntos.  

 

As camélias começaram a tombar.  

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe do papá

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.19

P..gif

 

Sendo hoje Dia do Pai, a Gaffe decide homenagear todos os homens dedicando alguns conselhos às mulheres que vão atravessando as camas onde por descuido, acaso, ou premeditação, os marotos adquirem o estatuto que lhes permite chamar filho a alguém e onde se espera justifiquem cabalmente a existência das pilas.

A Gaffe implora que as suas companheiras de folguedos a leiam com redobrada atenção, pois que é neste pequeno repositório de alertas que pode residir a chave para a harmonia do casal.

Há regras de oiro que não podem ser quebradas quando a piloca está em jogo. Uma rapariga tem de as conhecer se não quer um divórcio complicado ou a responsabilidade de ter de encontrar um psiquiatra para o parceiro mentalmente destroçado.

 

Enumeremos as quatro magníficas. Haverá mais a seu tempo, que Roma não se fez num dia e algumas pilas levam anos a edificar.  

 

I - Não pasmar quando surge uma pila pela frente

 

Sobretudo quando já a conhecemos d’outros carnavais.  

Uma rapariga que esbugalha os olhos, deixa cair o queixo, e durante um tempo que vai parecer interminável, se imobiliza, estaca, estanca, petrifica, com um allure aterrorizado, pode ser interpretada erradamente e fazer com que pareça que a pila não é de todo a Passagem de Ano em Nova York. A pila acaba inevitavelmente por sentir que mirrou, que se delapidou por completo durante as actividades anteriores à observação, que lhe fugiram componentes que impediam que aparecesse como uma personagem amiga da Branca de Neve, que tem um rato morto preso nos tintins ou, o que é arrasador, acreditar que este maior orgulho do seu dono mais lindo, não é mais do que o Gollum do Senhor dos Anéis.

    

II - Não brincar com pilas sérias

 

Uma pila, minhas amigas, não é de todo uma Barbie.

Não é com uma pila que podemos experimentar bater naquelas coisas muito americanas que largam confettis, serpentinas e papelinhos, quando rebentam. Uma pila não é um helicóptero! Uma pila não é de plástico - embora sabendo, minhas queridas, que as há bem jeitosas nas lojas da especialidade, não é a mesma coisa, diz quem sabe. Uma pila não é capaz de tomar chá por chávena com o Mickey estampado, na baby party da prima grávida que obviamente já a experimentou. Uma pila não joga à macaca, nem salta à corda - salvo algumas excepções, que não se referem aqui por pudor e decência e sobretudo porque há tesouros que devemos guardar só para nós. Uma pila não é um cavalinho de pau - embora neste caso exista, muito aplaudida, opinião contrária – e não pode ser incluída nos nossos carrosséis. Um pila tem de ser respeitada e tratada de modo adulto. Brincar com pilas, minhas caras, é brincar com fogo. Só o devemos fazer se pertencer a um bombeiro de calendário.      

 

III - Não baptizar uma pila

 

Nenhuma pila gosta de diminutivos.

Chamar Zézinho, Manelinho ou Francisquinha a uma pila - ou nomeá-la como se fosse um bichinho -, é matá-la. É menosprezar, achincalhar e humilhar uma pila desatar aos gritos nominais - Ai, bichaninha! Ai, meu Luizinho! Se páras dou-te um soco nos alforges! - durante aquele minúsculo período de tempo em que funciona capazmente. Berrar pelo Quim Zé, ou pelo Pedrinho, ou pelo Martim, ou Bernardinho – as boas famílias - pode perfeitamente fazer surgir à porta uma pila diferente da envolvida no caso e toda muito contente.

 

IV - Não permitir que uma pila apareça como quiser 

 

Uma pila não nos pode aparecer desnuda!

Se quiséssemos uma pila depilada matávamos a Barbie e ficávamos com o Ken – que para todos os efeitos, é de plástico … -, mas não é necessário que pareça ter-se aliado ao Estado Islâmico. Há pilas que impedem que lhes vejamos os olhos! Há pilas que são terroristas barbudos, sem poder de encaixe e sobretudo sem qualquer célula activa. Há pilas que se julgam Tarzan e que desaparecem no meio da selva sem sabermos sequer se de liana em liana. Há pilas gorilas na bruma. É evidente que uma rapariga não aceita, nem quer aceitar, retirar uma pila do seu habitat natural, mas urge que tenhamos em conta a campanha governamental Portugal Chama e limpar o mato. Uma pessoa nunca sabe por onde pode começar um incêndio …      

    

 

Estas, minhas amigas, são as recomendações que podem fazer a diferença entre uma pila na mão e duas a voar.

 

Há, meus amores, que as ter sempre presentes nas nossas camas.  

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe de coração intacto

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

espaço.jpg

 

É perturbadora a quantidade de vezes que deixamos que o nosso coração se parta simplesmente porque exageramos o espaço que ocupamos na vida dos outros.

 

No entanto, bastar-nos-ia fechar os olhos, respirar fundo, contar até dez, lembrarmo-nos que ficámos péssimas vestidas de presidiárias, para sorrir e deixar passar os idiotas.

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe ambientalista

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

Cassini.jpg

 

É peculiar a frequência com que esquecemos que o desfecho da frase se não podes vencê-los pode não ser aquele a que por norma estamos habituados a unir. Há uma resposta à condição expressa no arranque da batalha que é muito mais frequente do que aquilo que pensamos.

 

Se não podes vencê-los, absorve-os.

 

A diluição de conceitos, princípios, ideais contrários às realidades instituídas - ou mesmo reacções a factos que nos são adversos, porque desumanos e mesmo fatais -, na atmosfera que os vai produzindo e alimentando, não é de desprezar. A manobra do instituído que produz a capacidade de absorver o que lhe é contrário, torna inócua, neutraliza e banaliza, a acção que visa combater precisamente aquilo que a vai normalizando, atenuando, ou eliminando os efeitos que eventualmente produziria.

 

A facilidade com que se produzem mitos e símbolos - que são em última instância a resposta a uma falha, a uma ausência, a um vácuo - tornou-se equivalente à capacidade que os responsáveis por essa mesma omissão têm de os absorver e neutralizar.

 

O exemplo mais fácil e mais capaz de ilustrar o dito é Malala Yousafzai que depois de publicitada, elevada ao estatuto de heroína, incensada, medalhada e galardoada, perdeu força significativa, atenuando-se o impacto mediático da sua luta e impedindo-se desta forma que a multidão de espoliadas de que era bandeira, não se chegasse a unir e a seguir. A força que parecia invulgar do seu discurso e da sua atitude, restringe-se agora a palestras, a conferências e a elocuções mais ou menos esperadas. Malala passou a ser apenas mais um rosto simbólico - o símbolo que não povoa o vácuo - numa galeria de cabeças que o poder instituído consegue absorver e que reserva para, numa hipocrisia letal, aplaudir de quando em vez.

 

Surge, entretanto, Greta Thunberh.

 

É clara e inequívoca a tentativa de aplacar o discurso, a atitude, o conceito, e a ameaça que a ambientalista consegue encarnar, por parte dos que são acusados pelo seu inesperado aparecimento. As manobras de dissuasão parecem idênticas às usadas no caso anterior. Estatuto de heroína, reconhecimento, aplauso internacional e nomeação para o Nobel da Paz. A absorção do que parece não se conseguir vencer, teve já o seu início. Tornar Greta Thunberh num sucedâneo mais jovem de Al Gore, arrastando-a e exibindo-a de palestra em palestra, de entrevista em entrevista, de conferência em conferência - pagando-lhe principescamente por cada uma -, seria a diluição perfeita e almejada do grão de areia que, depois de parecer uma ameaça, vai sendo incorporado na máquina que adapta e recicla o elemento que absorve.

 

No entanto, Greta Thunberh sofre de Asperger.

 

As características deste distúrbio – facilita uma classificação deste teor -, prometem impedir que a jovem amorteça a sua identidade. A obsessão, a tenebrosa tenacidade, a capacidade de focar toda uma vida num único ponto de luz, a indiferença à bajulação que tolda o objectivo, o desinteresse pelo que é considerado acessório - por tudo o que se afasta, ainda que levemente, do que a motiva e interessa -, e a força invulgar que a apoia e a move, tornam-se dados inesperados e passíveis de complicar, ou mesmo impedir, a sua absorção e diluição posterior.

 

É esta estranheza que une multidões.

 

Talvez Greta Thunberh seja a anomalia esperada pelo planeta.

Talvez seja desta vez que deixemos de olhar estas vozes como quem olha a última fotografia da sonda Cassini, antes de ser absorvida pela atmosfera de Saturno que acabava de captar.              

 photo man_zps989a72a6.png

Pág. 1/3





  Pesquisar no Blog