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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos labirintos

rabiscado pela Gaffe, em 04.03.19

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Voltemos a ler, pois que é imprescindível que tomemos consciência dos labirintos que de tão primários se tornam apenas sucessivos becos sem saída.   


 (…)

O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.

(…)

 Uma mulher adúltera é uma pessoa dissimulada, falsa, hipócrita, desleal, que mente, engana, finge. Enfim, carece de probidade moral.

(…)

Não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus tratos.

(…)

 

Ricardo Serrano Vieira, advogado de Neto de Moura - que se acaba de citar - e seu eventual defensor nos casos em que as opiniões surgidas de quase todos os cantos e esquinas relativas aos acórdãos do juiz, foram consideradas ofensas e atentados à dignidade e ao bom nome do seu produtor, comenta, no dia 01 de Abril de 2018 - no século XXI, portanto - uma crítica faceboquiana da esposa a uma iniciativa - mais ou menos totó - das Capazes, com uma opinião absolutamente imaculada:

 

- Lambedoras de cri… dá nisto.

 

A senhora sua mulher considerou o comentário do senhor seu marido merecedor de um emoji sorridente.

 

Há labirintos que são becos sem saída. Às vezes aquilo que se encontra nos caminhos é apenas a forma de os fechar e de acompanhar os que por lá se perdem. 

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A Gaffe nos festivais

rabiscado pela Gaffe, em 04.03.19

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Admito que me passou despercebida a edição deste ano do Festival da Canção. Tive mesmo de recorrer à memória dos aparelhos para ouvir e ver o vencedor. Concentro-me neste, por não ter conhecimento dos restantes.  

 

Diz-me um entendido bastante irritado que os instrumentos tocam num tom diferente daquele que Conan Osiris usa para cantar e que essa discrepância arranha e arrepia ouvidos mais conservadores e mais clássicos. Em seguida sublinha - num discurso que não me cativa - o desencontro ente a melodia e a harmonia na canção do intérprete levemente steampunk. Salvaguarda a consciente intenção destes factos, mas rejeita o resultado, reservando, no entanto, a clara possibilidade de vitória dos telemóveis no Eurofestival, exactamente pela estranheza destes desencontros inabituais e pela amálgama de timbres que correm pelo fado, pelo Magrebe, pela Andaluzia, pelo tecno e por onde o demo perdeu as botas ao fugir da canção das meninas do ano ultrapassado.

A letra da canção é igualmente inesperada - não tão parva como uma primeira leitura faz parecer -, mas esse factor não conta quando temos a coragem de traduzir os representantes dos outros países eurovisíveis.

 

Contrariando a opinião muitíssimo favorável que formei quando das primeiras vezes ouvi a voz fascinante de Conan Osiris, desta vez o homem, que alguns afirmam ser um cruzamento entre Amália e Variações, não me arrancou grande aplauso.

 

Aborreceu-me. Senti-me uma criaturinha ameaçada pelos bichos da estranheza.

 

É evidente que achei mimosa a inclusão mal engendrada de elementos steampunk nos visuais dos rapazes, mas assumo que senti um ligeiro desconforto - preconceituoso, como é evidente -, ao assistir à dança do muito bonito rapazinho que acompanha o correr da canção com alguns passos autodidactas.

 

Desliguei-me em definitivo da ocorrência logo após o discurso um bocadinho apatetado do intérprete. Já não há paciência para novas versões de Salvador Sobral.

 

A possibilidade de vitória - ou pelo menos de uma bela classificação -, de Portugal no certame deste ano em Tel Aviv - não sejam parolos, escreve-se desta forma, não unindo Tel, Monte, a Aviv! -, não é de descartar. Conan Osiris surge como aquele elemento anómalo que desperta sempre a atenção do público quando encontrado numa cadência repetitiva de componentes iguais.

 

O acontecimento Telemóveis permite forçar a ousadia de se fazer a ligação a alguns acórdãos judiciais actuais que brotam da Bíblia - às duas ocorrências é dado igual destaque e igual importância nas redes sociais, logo a minha desfaçatez não gera anomalia.

A melodia não está em consonância com a harmonia, o tom da orquestra não é concordante com o tom do intérprete e o resultado - sejamos brandos - não é consensual. Temos indícios dos velhos tempos de Amália nas duas situações, temos Variações que causam algum dó e sobretudo encontramos alguns artefactos em comum - que num caso cobrem as bochechas e no outro os olhos; que num caso seguram o queixo, no outro deixam que o queixo nos caia; que num caso são performance de falanges artísticas e que no outro fazem com que as falanges, as falanginhas e as falangetas de facínoras continuem a ser armas e crimes cobertos por colarinhos jurídico-legais.

Evidentemente que se num caso damos graças e exultamos por termos a vantagem de Conan Osíris andar a trair com outras Evas musicais as clássicas normas orfeicas instituídas no templo e no tempo de Adão, no outro devemos dar graças pelo facto dos acórdãos se basearem na Bíblia - que apedreja - e não no Código de Hamurabi, só um bocadinho mais atrás, que condena as adúlteras à morte por afogamento. Uma morte bem mais limpa.

 

É evidente - apesar de não o ter ainda referido -, que existe mais um elo útil entre estes dois casos. Se não conseguirmos ouvir Conan Osiris, temos sempre à solta a possibilidade de nos romperem os tímpanos à chapada.  

 

Ilustração - Anton Semenov

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