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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe DeVito

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.19

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Dá-se hoje conta de mais duas mulheres, vítimas de violência doméstica, assassinadas ontem pelos respectivos cavalheiros e da cabeça de uma outra que apareceu em Leça da Palmeira, pois que provavelmente a dona a perdia demasiada vezes e, como sabemos, tantas vezes o cântaro vai à fonte que algum dia deixa qualquer coisa a jeito, por esquecimento.

 

Felizmente que hoje é dia de luto em homenagem a estas senhoras. Não é bom? Fica tudo tão bonito e tão bem resolvido! Seria uma maçada ter de empatar mais tempo numa data de velórios e, como se torna evidente, ninguém - a não ser a Mortágua - tem um guarda-roupa capaz e com tantos e diferentes tons de preto para não parecer que se repete o outfit.

 

A Gaffe acha mimoso, nestas ocasiões tristíssimas, em que imensa gente discursa, em que imensa gente se insurge, em que imensa gente opina, em que imensa gente vai lutar no futuro, em que imensa gente vai à merda sem saber que foi por conselho desta rapariga absolutamente inconveniente e grosseira, divulgar uma outra forma engraçadíssima de se lutar contra coisas aborrecidas.

 

A Gaffe considera que estes contratempos unidos áquele desfile de Carnaval em Matosinhos, onde petizes e professores saracotearam na avenida com as caras borradas e esfregadas com carvão ou com graxa – não se conseguiu apurar! – e de trapos coloridíssimos que segundo pensam aludiam a África -,  estavam - nada racistas, disseram -, mascarados de pretos, porque o tema era as raçasum tema absolutamente pertinente, nada ultrapassado, nada caquético e nada desinformado - fazem um ramalhete absolutamente simbólico e com ligações inesperadas. O luto é preto e em Matosinhos o preto desfila no Carnaval.

 

Voilà!

 

O trabalho de Peter DeVito pode ser incluído nestas lutas tão modernas.

A Gaffe crava-o nestas Avenidas. Acha-o giríssimo, comovente e mesmo o retrato de outras pancadas igualmente desagradáveis. Infelizmente não se consegue incluir no desfile de Matosinhos, porque toda a violência é transversal e mesmo sem a cara borrada de preto ninguém se livra de uns açoites no corso.

 

 

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A Gaffe náufraga

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.19

Michel e Edmond Navratil, 1912.jpg

 

As mulheres gritavam os gritos das tragédias. Vestidas de negro, aos gritos, secas, sem lágrimas. Uma esgadanhava a cara com as unhas, esgadanhando a praia com os gritos. Vermelhos e azuis e pretos, os gritos.

Espetavam-se na carne, os gritos.

Espoliavam-se na areia, os gritos.

Gritos como o mar, a desfazer o barco.

Eu ali, parada, mordida pelo vento, de dentes cerrados, a pedir a Deus para fazer com que fosse um grito delas só, a bater nos rochedos e a naufragar.

 

Na fotografia - os irmãos Michel e Edmond Navratil, 1912.

As únicas crianças resgatadas do Titanic sem pais ou guardiões. Estavam sozinhas. 

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