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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de coração intacto

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É perturbadora a quantidade de vezes que deixamos que o nosso coração se parta simplesmente porque exageramos o espaço que ocupamos na vida dos outros.

 

No entanto, bastar-nos-ia fechar os olhos, respirar fundo, contar até dez, lembrarmo-nos que ficámos péssimas vestidas de presidiárias, para sorrir e deixar passar os idiotas.

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A Gaffe ambientalista

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.19

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É peculiar a frequência com que esquecemos que o desfecho da frase se não podes vencê-los pode não ser aquele a que por norma estamos habituados a unir. Há uma resposta à condição expressa no arranque da batalha que é muito mais frequente do que aquilo que pensamos.

 

Se não podes vencê-los, absorve-os.

 

A diluição de conceitos, princípios, ideais contrários às realidades instituídas - ou mesmo reacções a factos que nos são adversos, porque desumanos e mesmo fatais -, na atmosfera que os vai produzindo e alimentando, não é de desprezar. A manobra do instituído que produz a capacidade de absorver o que lhe é contrário, torna inócua, neutraliza e banaliza, a acção que visa combater precisamente aquilo que a vai normalizando, atenuando, ou eliminando os efeitos que eventualmente produziria.

 

A facilidade com que se produzem mitos e símbolos - que são em última instância a resposta a uma falha, a uma ausência, a um vácuo - tornou-se equivalente à capacidade que os responsáveis por essa mesma omissão têm de os absorver e neutralizar.

 

O exemplo mais fácil e mais capaz de ilustrar o dito é Malala Yousafzai que depois de publicitada, elevada ao estatuto de heroína, incensada, medalhada e galardoada, perdeu força significativa, atenuando-se o impacto mediático da sua luta e impedindo-se desta forma que a multidão de espoliadas de que era bandeira, não se chegasse a unir e a seguir. A força que parecia invulgar do seu discurso e da sua atitude, restringe-se agora a palestras, a conferências e a elocuções mais ou menos esperadas. Malala passou a ser apenas mais um rosto simbólico - o símbolo que não povoa o vácuo - numa galeria de cabeças que o poder instituído consegue absorver e que reserva para, numa hipocrisia letal, aplaudir de quando em vez.

 

Surge, entretanto, Greta Thunberh.

 

É clara e inequívoca a tentativa de aplacar o discurso, a atitude, o conceito, e a ameaça que a ambientalista consegue encarnar, por parte dos que são acusados pelo seu inesperado aparecimento. As manobras de dissuasão parecem idênticas às usadas no caso anterior. Estatuto de heroína, reconhecimento, aplauso internacional e nomeação para o Nobel da Paz. A absorção do que parece não se conseguir vencer, teve já o seu início. Tornar Greta Thunberh num sucedâneo mais jovem de Al Gore, arrastando-a e exibindo-a de palestra em palestra, de entrevista em entrevista, de conferência em conferência - pagando-lhe principescamente por cada uma -, seria a diluição perfeita e almejada do grão de areia que, depois de parecer uma ameaça, vai sendo incorporado na máquina que adapta e recicla o elemento que absorve.

 

No entanto, Greta Thunberh sofre de Asperger.

 

As características deste distúrbio – facilita uma classificação deste teor -, prometem impedir que a jovem amorteça a sua identidade. A obsessão, a tenebrosa tenacidade, a capacidade de focar toda uma vida num único ponto de luz, a indiferença à bajulação que tolda o objectivo, o desinteresse pelo que é considerado acessório - por tudo o que se afasta, ainda que levemente, do que a motiva e interessa -, e a força invulgar que a apoia e a move, tornam-se dados inesperados e passíveis de complicar, ou mesmo impedir, a sua absorção e diluição posterior.

 

É esta estranheza que une multidões.

 

Talvez Greta Thunberh seja a anomalia esperada pelo planeta.

Talvez seja desta vez que deixemos de olhar estas vozes como quem olha a última fotografia da sonda Cassini, antes de ser absorvida pela atmosfera de Saturno que acabava de captar.              

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