Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


Redacção da semana: A Dona Mandona

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

madonna.gif

 

Hoje vou falar da Dona Mandona que é uma senhora velha para aí com cem anos que gosta de mandar em tudo como o nome diz. A Dona Mandona é estrangeira mas comprou uma casa mais ou menos em Lisboa que a gente nunca sabe onde ela está por causa dos patarazis que são umas pessoas que perseguem e que atiram as princenzas contra os postes. A Dona Mandona é muito rica mais rica que o Dom Ricardo Salgado e que o amigo do senhor engenheiro juntos. As pessoas ricas podem comprar casas em Lisboa ou então arranjam um vistogolde que é assim como uma espécie de multibanco. As pessoas ricas metem o vistogolde no buraco do banco e sai uma casa prontinha e tudo. Se a Dona Mandona fosse pobre ia viver para a Jamaica que se quilhava. A Jamaica é um lugar que tem muito mas mesmo muito sol e é por isso que não vivem lá as pessoas que ficam sempre à sombra no fresquinho. A Dona Mandona é tão rica tão rica tão rica que nem vistogolde precisa. É sempre áviar como diz a minha tia Arminda que tem uma mercearia em Carrepeta de Anciães e é gorda. A gente gorda avia muito, não é como a Dona Mandona que só come umas coisas feitas pelo senhor cozinheiro Aguilez que faz um reclamo à cerveja da Noémia e que parecem caganitas de cabra mas em verde que a Dona Mandona é encológica. Uma pessoa rica pode ser muito encológica. Manda os pobres amanhar os pepinos e as couves e as outras coisas da terra que é sem corantes e sem plásticos e depois come e manda as cascas para os porcos as vacas as cabras e os cavalos comerem. Os bichos comem aquilo e depois fazem as necessidades que vão para o restaurante do senhor Aguilez mas aos pedacinhos muito pequenos que a vida está cara e o senhor Aguilez tem de viver como os outros. Chama-se renciclagem. Vou estudar em Estudo do Meio para depois fazer também lá em casa que lá só se come comida emplastificada que é mais barata com papel tócolante e nem o burro se safa com os restos que fica tudo a cheirar a peixe podre e os burros não são peixíbonos. Por acaso foi uma pena a Dona Mandona não saber que a minha avó tinha um burro. Como o senhor presidente da Câmara da Horta não deixou a Dona Mandona meter um clipe com um cavalo dentro duma casa antiga e muito valiosa a Dona Mandona assim como assim já cá tinha o bicho dentro. A casa da minha avó está podre como a que ela queria. É mais pequena pois que é mas é mais asseadinha. O cavalo é um burro pois que é mas a gente dá o que pode e a mais não é obrigada. O meu primo Zeca é que não deixava. Já quando soube que a Dona Mandona queria o cavalo dentro de casa disse logo a Mandona que meta o cavalo na garagem. O que ele disse rimava mas já levei muitas no focinho. Não sei é se o cavalo lá se segurava. Na garagem. Às tantas tinha de ser preso por cordas para não escorregar por ali fora. Não sei que sou pequenito e é melhor está calado. Benza-a Deus que lhe deu sorte como diz a minha prima Idalina que sabe a música laicavegan de cor e que diz que a Dona Mandona é uma rainha. Ela diz mas eu sei que não é. Se fosse estava no governo que eu aprendi em história que antigamente havia em Bréquesite uma rainha chamada Vitória que meteu a família toda a governar tudo o que havia. Aquilo era primos e primas tios e tias irmãos e irmãs todos metidos nos governos de todo o lado que aquilo até deu merda e um deles passou a hemotrólifo que é uma doença que dá quando se mete a família toda a governar. Agora não me venham dizer que não se pode meter burros e cavalos nos palácios que até pode se formos rainhas. Se a Dona Mandona não conseguiu é porque não é rainha. É da oposição. Vou meter aqui uma fotografia da ovelha a renciclar que vive em casa do meu primo para ver se a Dona Mandona a quer no clipe. A gente sabe que está na moda ter ovelhas ou cabras nas televisões. O meu primo Zeca até a leva quando vai a Sintra em trabalho. Diz que não gosta de dormir sozinho ao relento. Temos de ser uns prós outros. Eu gosto muito da Dona Mandona.  

Gui.jpeg

 

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe com saudades

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.19

A.jpg

Lembro-me, era eu minúscula, de ver a minha Jacinta a tricotar.

 

Usava agulhas grossas e a lã era Dralon 5, resistente e duradoira.

Matizava, torcia, entrançava e entrelaçava pontos que inventava com os que tinha herdado. Como um maestro de duas batutas, construía melodias mansas e mornas que usávamos durante os Invernos.

Lembro-me que as peças tricotadas mantinham um vago aroma de gardénia, quase nada, quase tudo, e que as cores que povoavam, este perfume e estas peças, eram quase sempre densas, sólidas, luminosas, quentes e imprevistas, como se um pedaço de Verão se tivesse perdido no entretecer da malha.

 

Se olho agora o que nas ruas encarna o glamour que é o retorno assumido a um tempo tricotado, sei que, se abrir as gavetas da velha arca de mogno liso ao canto do quarto em que foi urdida a minha infância, o vago aroma a gardénia voltará a tremer nas minhas eternas malhas Dralon 5.

 

Mas é Primavera e há um ninho nas árvores. 

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:




  Pesquisar no Blog