Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe do especialista

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

especialista.jpg

A Gaffe acaba de ouvir na SICN um especialista em transportes públicos a declarar que a diminuição do preço dos passes sociais é:

 

(…) uma coisa boa, porque as pessoas ficam com mais dinheiro para leite, tabaco e droga.

 

A Gaffe já desconfiava que as criaturas que utilizam os transportes públicos são todas imensamente estranhas, desde que as ouviu bradar contra a mudança de hora, naquelas coisas onde se encaixam os mais pobrezinhos enquanto esperam, desde as cinco da manhã, a fumar uns atrás dos outros - tabaco e pobres - e a beber leites gordíssimos - ninguém sabe bem porquê, pois que podem consumir em casa, ao pequeno-almoço, desde que se levantem um bocadinho mais cedo -, pelos autocarros que os levam aos mercados onde compram cocaína e heroína com o dinheiro destes descontos. Toda a gente que viaja de avião - que também é transporte público para as pessoas que ainda não compraram a TAP - sabe que esta pindérica mudança de hora é o jet lag dos pobres.      

 

Quem diz a verdade, não merece castigo, não é?

 photo man_zps989a72a6.png

A Gaffe e o melhor amigo

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

D..jpg

 

Por vezes, as raparigas espertas, devem admitir que um homem que lhes oferece um colorido e gigantesco ramo de flores, em vez de um anel de diamantes com um poderosíssimo apelo aristocrático, o faz ignorando que preferimos Marilyn quando nos diz platinada que os homens passam, os diamantes ficam e que trauteamos muito mais depressa Diamonds are a girl's best friend do que You Don't Bring Me Flowers mesmo debaixo do nariz da Straisand.

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:

A Gaffe não aceita

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

B1.jpg

Um dos verbos que devia ser abolido do dicionário da alma de alguns é o aceitar.

 

Torna-se obsceno quando é usado na primeira pessoa quando a pessoa é a primeira a usar o que aceitou como arma de arremesso.  

É vulgar - nunca deixando de ser repugnante -, ouvirmos a tentativa de cuspir um insulto com o que horas antes se jurou aceitar com a pia benevolência dos que são caritativos e olham a humanidade com a brandura dos mansos que deles é o reino dos céus.

É nojenta a facilidade com que aceitar o outro se funde a crença na ilusória, com a mentirosa, certeza de que somos bons e que jamais nos imiscuiremos, ou combateremos, o que no outro é diferente.   

 

Aceitar o outro, tem por vezes implícito um minúsculo julgamento feito nos confins da alma de quem aceita.
Quando aceitam não estão a reorganizar o pensamento de forma a que este se adapte ao que não consegue ou que revela dificuldade em compreender ou reconhecer como forma de consciência independente e diversa daquela que possui.


Sentam-se nos seus pequeninos tronos e, magnanimamente, aceitam o outro.

Não o entendem segundo diferentes arquitecturas interiores e recusam ou subtilmente condenam cada acto cometido, porque não é assimilado pelas suas organizações internas, mas, e como são criaturas superiores, aceitam.


O seu irrisório tribunal interno não arrisca declaradamente o perdão, por beata modéstia, mas inclui no aceitar uma parcela de indulgência, envernizada, mascarada de respeito pelo outro.
Aceitar
, dentro deles, traz no bolso um calado sentimento de superioridade, uma velada e inconsciente vontade de domínio, uma escondida certeza de que, o que são, se torna a regra mais conveniente para o equilíbrio planetário.
Julgam o outro quando o aceitam e não abdicam dessa miserável e ínfima sensação de superioridade. Ao aceitar, recusam, recuam e, em última análise, assinam no esconso da alma a moção de censura ou a negação.


Ao aceitar as formas externas ao traçado arquitectónico que reconhecem como seu, são como as anafadas senhoras, de agenda apopléctica e reservado lugar em todas as comissões de avaliação e em todos os plenários ou jurados. Depilam as sobrancelhas para as desenhar depois com traços negros, escondem estampas pornográficas nas páginas batidas do missal e aceitam, soberanamente, superiormente, o outro que também tem direito à vida.


Não consigo compreender estes gauleses... mas aceito-os - diz o Imperador, olhando de soslaio o Axtérix.

 photo man_zps989a72a6.png




  Pesquisar no Blog