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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Sartre

rabiscado pela Gaffe, em 30.04.19

Katie Dutch.jpg

 

A Gaffe desconhece se chegados aos trinta - e poucos - não se atravessa uma crise existencial que anuncia a dos cinquenta. O certo é que esta rapariga anda sartriana e capaz de questionar tudo quanto lhe diz respeito, muito quis saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci.   

 

Num assomo de melancolia misturado com uma pitada de náusea e um cheirinho a rosmaninho vindo do jardim onde não passa, a Gaffe chegou a colocar em causa a sua permanência nestas Avenidas, optando por outras paragens mais zen, mais minimalistas, mais clean.

 

A Gaffe, em última análise, aborreceu este cantinho. Quer largar a tralha e ficar apenas de collants, qual cavalheiro de Giovanni Battista Moroni. 

MORONI, Giovanni Battista.jpg

Colocou a hipótese de lhe alterar o layout, o template, a macacada, transformando toda a imagem que a tem acompanhado durante quase dez anos, deixando em simultâneo de ser genérica para se especializar, pois que toda a gente sabe que os genéricos não são como os de marca. Infelizmente, na busca do Graal da metamorfose, a Gaffe encontrou apenas um cabeçalho que encaixa lindamente num dos seus blogs favoritos, A Marquesa de Marvila, e coloca-o, se caso haja interesse e permitam que o acabe, ao dispor da patrona do dito.

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Encontrou em seguida um bando de gente giríssima e de óptimas famílias que poderia figurar no cabeçalho desta alteração projectada, ou tomar chá com esta rapariga tão pouco sociável. Embora fosse um conjuntinho que facilmente representaria - cada menina na sua vez -, as diversas faces desta lua, nenhuma era ruiva. Uma maçada, pois que faltava ali o seu sinete, a sua imagem de marca.

Dior, photographed by Loomis Dean - 1957.jpg

Alvitrou seguir as pisadas de Joana Vasconcelos e colar penduricalhos por todo o lado, ou revestir todas as paredes com rosetas de qualquer coisa Kitsch. Poderia com esta manobra despertar o interesse de Berardo, senhor com dedo e olho, quer para obras-de-arte, quer para administradores de bancos, mas depressa percebeu que Dias Loureiro já regressou há imenso tempo a Portugal e que provavelmente já veio bem forrado, bem estufado, bem almofadado e sem bigode farto que é coisa de mafiosos de primeira linha que vestem fatos pretos e traçam lenços no pescoço - de preferência nos toutiços de bancos que serão resgatados da falência por aquela massa amorfa que é o povinho.      

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Pensou transformar as Avenidas num manancial de bisbilhotice, de estardalhaço, de exposição, de expiação e de espionagem de toda e qualquer privacidade, publicando ensandecida tudo o que conseguisse apanhar desprevenido e sem biquinho faceboquiano, mas depois considerou que se nem o moderníssimo Acordo Ortográfico interessa ao Brasil, jamais seria atraente qualquer coisa semelhante, ou seja, uma pobre ventoinha desalmada a atirar ao rosto das pessoas coisas iguais às que costuma escrever José António Saraiva - ou Margarida Rebelo Pinto nos seus melhores dias.      

peep.jpgOutra possibilidade seria a de encarnar uma intelectual capaz de nos deslumbrar com páginas de aceso siso, de profundo pensar e de acutilante verbo poético. Muito Virgínia Woolf, muito Lispector, muito Agustina, ou muito Sophia. Infelizmente, a Gaffe não suporta o calor do Rio de Janeiro e jamais se deslocará à Real Biblioteca Portuguesa para ser fotografada em grande estilo mental, cerebral e internacional, agarrada a um livro numa atitude de profunda meditação, a olhar o horizonte, ou debruçada sobre a dor de Rui Moreira por mais um acidental incêndio do outro lado do Atlântico - sei que estás em festa, pá -  no velho Porto, de preferência na casa de Garrett, que permitirá, mais cedo ou mais tarde, a inauguração de mais um hostel modernaço.  

Portuguese Royal Library.jpg

Seria possível abrir um espaço de críticas e de comentários políticos, mas o único e último choque sentido por esta rapariga no âmbito do pensado, foi ter apanhado com uma das manas Mortágua com um funil giríssimo, numa manifestação que comemorava a Liberdade, a declamar uma quadrinha ao gosto popular com um apelo a Santo António. Pede-se ao Santinho que leve um presidente, eleito em liberdade por um país estrangeiro, para junto de um velhinho qualquer já falecido. A quadra pareceu-lhe de má métrica, mas toda a gente sabe que é brincadeirinha de um Carnaval bloquista - as escolas atravessam o sambódromo divididas em blocos - e ninguém leva a mal. Pelo menos tão a mal como saber que o Ministro da Justiça brasileiro é capaz de se imiscuir no sistema judicial de um país estrangeiro - caiu o Carmo e a Trindade e por pouco não se inauguram dois hostels -, ou que esganiçadas é um impropério digno de figurar no registo criminal e cadastro social do responsável pelo insulto - que nem sequer teve como alvo certo Heloísa Apolónia. O que a chocou realmente neste episódio burlesco foi perceber que uma das manas Mortágua - que venha o Lenine e as distinga -, engordou e tem acne.

A Gaffe, como se prova, também não consegue um comentário político em condições.  

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A crise dos trinta - e poucos - atinge a Gaffe e deixa-a exaurida e sem saber o que fará depois de tudo arder e com medo de entrar depressa nessa noite escura.

Abre Lobo Antunes para relaxar e ficar tudo como está, que o Nobel escapou há muito.

Assim como assim, já não se entende nada no cá fora.      

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