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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe da Marquesa

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.19

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Uma rapariga herdeira de antiquíssima aristocracia, não pode deixar de ser representada por uma imagem que, embora dita renovada, não deixa os velhos brasões tombarem na lama. Sobretudo quando os ditos não pisam por norma e regra terrenos movediços.  

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A Gaffe com pés de barro

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.19

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A eternidade de um mito depende da sua capacidade de permanecer preso no casulo do seu apogeu.   

O tempo enfraquece o símbolo, quando o símbolo depende da decadência do frágil.

O mito, tal como os deuses, tem os pés atados à volatilidade humana.  

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A Gaffe nas Europeias

rabiscado pela Gaffe, em 28.05.19

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A Gaffe está intrigada.

A abstenção, em Portugal, referente às eleições europeias 2019, aproximou-se dos chocantes 70%.

Alvitra-se que foi o tempo que, para além de aproximar os turistas das paisagens marítimas portuguesas, consegue de igual modo convencer os eleitores a trocar as voltas ao voto. Sugere-se também que a bola fintou a baliza do eleitor e preencheu-lhe outras redes.

Outras preguiças e outras manigâncias de igual valor se acrescentam aos fios descarnados que interromperam o fluxo directo à cabina de voto e electrocutaram o resultado.

Seja.

As contas foram feitas e já toda a gente de boas famílias votantes sabe que os abstencionistas são a escória da humanidade e provavelmente têm sífilis.

 

Os restantes 30% - arredondemos que fica sempre bem -, votou, cumprindo o seu dever cívico e provando que recebeu uma educação para a cidadania digna de registo.   

 

Posto que os párias, os escroques, a escumalha, os badamecos dos abstencionistas já estão natural e devidamente caracterizados, convém baixar os olhos e o decote para os honrados 30%, analisando-os depois de lhes entregar imenso beijinhos de parabéns.

 

Parte significativa desta percentagem, teve a hombridade de olhar para as listas de candidatos e, por certo, verificou que o Partido Socialista a mimoseava com um senhor, que encabeçava o rol, com um nome de difícil memorização - pois que nem um dos seus apoiantes de rua e de t-shirt era capaz de o anunciar, gaguejando uma bandeirinha corada e embaraçada quando lho perguntaram -, e que, mesmo ali ao lado, surgia um querubim de Sócrates, Pedro Silva Pereira, escapulido de parte incerta e agora mui discreto, aliado a Manuel Pizarro, lá mais ao fundo. O Partido mandava, pois, umas bocas à Europa.    

 

Logo a seguir surge um candidato que pese embora a vozinha de desenho animado, conseguiu ser um dos maiores arruaceiros da campanha. Paulo Rangel, apesar de, como não se cansou de sublinhar, ter jantado com uma data de gente chique lá na Europa, não tem maneiras à mesa - redonda, ou do tipo púlpito.

 

Marisa Matias, apesar de ter sido eleita a mais jeitosa das taradas do Bloco de Esquerda, não se conseguiu ouvir no meio dos televisivos debates de estalada e pontapé. Lamentável não ter o Bloco incluído o Robles. Reforçava o cunho urbano do Partido.

 

Surge então Nuno Melo que também diz ter jantado com imensa gente importante - ministros estrangeiros, pois que até - que tem na cabeça uma Europa igual ao penteado. Aliás, o cabelo de Nuno Melo é a Europa idealizada pelo CDS. Não há que enganar. Acompanhava-o Pedro Mota Soares que coloca. Pontos. Finais. Em. Cada. Palavra. De. Uma. Frase.

 

Segue-se a força do PC. Toda a gente - incluindo os sifilíticos da abstenção - reconhece que o candidato era bem giro. O resto passou em branco, ou vermelho, ou assim-assim.

 

Finalmente o PAN. A Gaffe achou-o amoroso, apesar de tudo e da camisa aos quadradinhos rosinha que não tem nada a ver com umas eleições que exigem blazer azul, calça beje e camisa branca.  

 

Dos piquenos a Gaffe só se lembra do carisma do PURP.

 

Após esta brevíssima e deficientííííííísssssima - como diria Maria Cavaco Silva -, abordagem aos partidos que elegeram coisas, ou seja, estes candidatos, é possível concluir que pelo menos 10% dos eleitores votou sem que ninguém lhe ter dito o que quer que seja relativamente ao que interessava. A Gaffe espera que descubram.

Pelo menos uma percentagem igual votou depois de ter anunciado, escrito, alardeado, sublinhado e repetido, pequenas pérolas que convém exemplificar, não se vá esquecer que ainda há gente que raramente sai das cavernas:

 

- O Bloco de Esquerda tem líderes jeitosas.

 

- O PAN é gente extremista, com capitães Tofu e doutores Javali dispostos a ocupar lugares de decisão.

Ou, para gáudio troglodita:

- Como é que se designam os apoiantes do PAN? Panascas? Panilhas? Paneleiros?

 

 Esta gente, meus amores, também votou.

 

O estoumecagandismo atingiu 7% representado, também pelo voto branco, mas sobretudo pelo voto nulo.

 

A Gaffe concluiu maldosamente que pelo menos 27% dos eleitores que exerceram o seu direito de voto, o fez apenas porque os Centros Comerciais estavam a abarrotar, o sol é ainda fracote, o Sporting é campeão e não vale a pena perder tempo, ou porque é fixe esbardalhar um boletim catita.

 

O que resta - os que se preocuparam em consultar as páginas dos candidatos e recolher a miséria que por lá constava, mas que pelo menos aludia ao cargo e às funções que vão exercer -, não chega para os foguetes.

 

A Gaffe votou, como é da praxe.

Seria interessante que se adivinhasse qual a percentagem que esta rapariga repleta de cidadania coloriu. Nunca se sabe do que uma rapariga esperta é capaz.

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Gavetas:

A Gaffe da MTV

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.19

MARIUS VAN DOKKUM Animação - JOEL REMY.gif

 

A sala de concertos estava repleta.

O público borbulha nervoso à espera dos finais das sinfonias de Bach.

Na semana anterior ouvira-se Wagner. Era a vez dos finais de Mahler, e de Schumann. Os fins de Debussy ficariam para o mês seguinte, que as duas outras salas existentes estavam ocupadas pelo concurso do mais rápido maestro do momento, aquele que num ápice acaba Beethoven, a nona ou outra que escolherem.    

 

O homem acomodou-se na poltrona. O camarote tinha sido reservado no imediato momento em que foi anunciado o concerto. Podia esgotar e o senhor nunca se perdoaria ter deixado - por descuido, indolência, falta de atenção ou letargia -  de ouvir os finais das sinfonias.

Ainda pensou que talvez fosse melhor assistir ao concurso do maestro mais rápido do mundo, na sala ao lado daquela, mas o mês ainda estava no começo e se se apressasse seria possível assistir à final.

 

Olhou a plateia.

Havia gente por todo o lado e de todas as classes. Pré-primária à frente, logo seguida do primeiro ciclo, segundo ciclo, jovens universitários, licenciados, doutorandos e professores de cátedra, misturados com sucessos de carreira oriundos de outros lados e de percursos distintos destes.

Sentia-se pertença do grupo dos profissionais que, sem trilho académico, tinham atingido todos os objetivos propostos e alcançado o sucesso almejado num curtíssimo espaço de tempo. Aos quarenta era já reconhecido como incontornável perito nas matérias que só os muito mais velhos dominavam. Novo, muito novo – os quarenta o que são?! -, tinha o estatuto que sempre desejara e pelo qual tinha lutado todos os instantes. Depois, foi só correr de sucesso em sucesso, até à reforma - parca, mas segura - que autorizava a compra do camarote para assistir aos finais das sinfonias.

 

A cortina moveu-se nervosa. Tardava alguns segundos.

Neste tardar, o homem foi acometido pela sensação de nunca se ter sentido diferente nos momentos em que alcançava cada um dos seus propósitos.

Nem depois.

Nos finais das suas lutas, das suas pressas, nunca se tinha sentido maior ou menor, pior ou melhor. Finalizado um projecto, corria atrás do fim de um outro, sem nunca se ter apercebido que procurar o fim das coisas e das lutas, buscar o terminal dos objectivos com a ânsia de o atingir com um brilho de um raio, tinha apenas permitido comprar o bilhete para o concerto a que assistia e possibilitado a reserva do lugar para o concurso de maestros.

 

Levantou-se, desta vez muito devagar, e saiu.

Em casa, pegou no comando da televisão e foi de canal em canal à procura das sinfonias inteiras.

Encontrou apenas a MTV.

 

Ilustração - Marius Van Dokkum; Animação - Joel Remy 

 

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Gavetas:

A Gaffe de Genghis Khan

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.19

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O almoço tagarela decorre num barulhento restaurante que serve comida caseira e que visito pela primeira vez a convite de duas amigas que se cansaram de manobras groumet.

 

As palavras à deriva não cativam e procuro distracções nas mesas ocupadas.

Na minha frente um homenzarrão de costas gesticula animado e galhofeiro. Um dos interlocutores está tapado pelo corpanzil da discussão que parece estar relacionada com as comendas de um comendador a quem permitiram ser um trapaceiro.  

Ao lado, ainda mais risonho, um homem de pouco menos de quarenta anos torna-se o foco de toda a minha atenção.

É magro, seco, relativamente baixo, sem indícios de ginásios tresloucados, de mão pequenas - um homem não pode ter mãos pequenas! -, com um cabelo desmanchado, castanho, com madeixas soltas claras, quase ondulado, de barba de três ou quatro dias desleixados, sem plano e sem controlo e um sorriso deslumbrante. Traz um pólo azul com um logo branco, de trabalho, desconcertado e bambo, aberto, permitindo breves aparições das clavículas bonitas. Um homem banal, muito bonito, mas aparentemente sem nota capaz de me atrair.

 

No entanto, vejo-me incapaz de não olhar para ele, de me sentir presa, de me sentir cativada, de me sentir seduzida e de considerar que aquele trintão desleixado à minha frente é um dos mais sensuais rapagões da história das minhas histórias.

Espreito-lhe os gestos, masculinos e sinceros. Observo-lhe a atenção divertida com que ouve os companheiros. Vejo-o responder, sorrindo sempre luminoso e franco, sempre atento e irrequieto e nem as mãos pequenas e brandas são capazes de me desviar o olhar.

 

Não entendo.

 

O homem não tem qualquer uma das características que me levam a cometer indiscrições ou que me atraem de forma tão física. Esta constatação obriga - ainda mais - a que o observe, o espie e o deseje. O homem apetece-me e eu não sei porquê.

 

Depois de acabar de beber o copo com vinho, levanta-se. Traz umas miseráveis calças de ganga largas e desbotadas, velhas e coçadas. Vira-se, de repente, e volta a sorrir à laia de despedida.

 

Descubro então.

 

Os olhos, que fazem lembrar mogóis, estepes, tundras e guerreiros - Genghis Khan a cavalgar pelas mesas de um restaurante caseirinho -, quase se fecham quando ele sorri.

Foi esse extraordinário pormenor que me atraiu, que o tornou atraente, que fez com que eu o desejasse, que subitamente o tornou único.

 

A beleza, a mais subtil, imperceptível e tímida beleza, é como um guerreiro escondido nas frestas ou ameias da nossa desatenção. Dispara, mesmo já vencido. Podemos conquistar todos os campos de batalha, que tombamos perdedores se esquecermos que há lâminas que demoram tempo e silêncio a chegar ao coração.  

 

Imagem de Huang Yang Chih

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Gavetas:

A Gaffe do comendador

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.19

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É um tipo pretensioso, um fanfarrão, intoxicado com a sua própria vaidade, pavoneando-se mesmo sentado, confiante, de má índole, descarado, ignorante, teimoso e intratável. Pousa como uma vareja no que quer que haja para jantar. Não o podemos dignificar chamando-lhe vigarista presunçoso, porque é apenas um buraco no ar. Acaba por ser apenas um parolo simples, falho de qualquer noção de honra. Um horrível grosseirãozinho. Vê-lo enredar-se na língua portuguesa é como ver um vaso de Sèvres nas mãos de um chimpanzé, mas se o mandássemos para a escola, provavelmente acabava a roubar os livros escolares. Não merece crédito.

 

Não merecia crédito.

 

No entanto, as mesmas velhas salsichas, crepitando e estalando nas próprias gorduras, decidiram entregar-lho e fazer da CGD, não um banco, mas um bordel, uma casa de passe e um casino de esquina clandestina.

Um negócio de mentes a retalho que se vendem por atacado.

 

Para que os medíocres possam navegar, é necessário inundar terrenos férteis. Basta depois fazer flutuar as âncoras de uma ou duas anedotas - que deixam de ser más por terem sido bem contadas.

 

Chocante não é ouvir a risota quase certa dos trafulhas. É mais do que esperada, embora inesperada neste caso seja a aparente e desamparada senilidade do que ri, apoiado por laterais hienas. O que deveria chocar é o avistar da vela panda e solta ao vento dos que viram e reviraram entre os dedos as conchinhas e os seixinhos coloridos que boiavam e que apanharam durante a maré alta dos seus cargos.

 

Chocante é o choque deles.  

 

Ilustração - Dima Rebus

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A Gaffe barrada

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.19

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Conheci, ao longo desta longa passeata, pelo menos três tipos de comentadores anónimos que se distinguem de forma clara uns dos outros.

 

É evidente que o primeiro grupo não pode ser considerado danoso – muito pelo contrário. É constituído por pessoas que não subscrevem qualquer rede social e que não tutelam qualquer blog, mas que consideram interessante fazer o favor de acompanhar esta rapariga desequilibrada e opinar acerca das tolices que vai escrevinhando, usando um petit nom, ou deixando em branco, por defeito, a sua assinatura. São anónimos de uma amabilidade, gentileza, educação e absoluto bom gosto que - concordando, ou discordando -, contribuem para a elevação do espaço - tarefa a todos os níveis hercúlea.  São acolhidos comme il faut, pois que as suas características, como é bom de ver, não são - nem de longe, nem de perto -, aquelas que são apanágio dos grupos que se seguem.

 

A eventual inconveniência dos dois últimos é directamente proporcional à facilidade com que insultam e cospem para o chão esquecendo que o piso conspurcado não é o meu, é o deles.

 

O segundo bouquet tem como expoente máximo os anónimos que passam por estas avenidas deixando invariavelmente um rasto de baba nauseabundo. Não chegam a ser insultuosos, porque não chegam a ser visíveis. Há que lhes atar ao cachaço um osso qualquer, para que pelo menos o cão brinque com eles. As suas hemorragias verbais não são completamente imundas, não estão na base da degradação moral, não são abominavelmente degeneradas. O raquitismo mental destas criaturas torna-as invisíveis. Não incomodam.

 

O terceiro grupo é de mais difícil trato. É impudente e infame. É um nicho com olhos de um porco que nunca olham para cima; com o focinho de um porco que gosta de esterco; com o cérebro de um porco que só conhece a sua pocilga e com o grunhir de um porco, que só grita quando dói. Estas criaturas abrem a boca de porco, colmilhosa e horrível, e deixam sair tudo o que pode encher de nódoas a roupa lavada.

Não têm forma, não têm cara, arrastam uma estrutura cartilaginosa, sem ossos, inconsequente e viciosa, mal equipada e insegura. Tornam-se protótipos de gente pequena.

São circuncisados mentais e deitaram fora a parte errada.   

 

Foi precisamente por ter sido assediada por um representante desta última tribuneca - que parece saber tudo acerca da minha vida sexual e com ela fantasiar no escuro da toca onde se masturba -, que passei a usar a possibilidade que o Sapo me dá de restringir os comentários, mesmo correndo o risco lamentável de excluir aqueles que me seriam queridos, ou enriquecedores.     

 

É que escreverem que sou uma puta mal cheirosa (...) que tem uma obsessão por pilas (...), é uma terrível mentira.

Toda a gente sabe que uso Narciso Rodriguez!

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Gavetas:

A Gaffe estremunhada

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.19

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Sobem as persianas. Arrastam cortinados. Abrem as janelas. Escancaram portas. Batem em latas. Rompem aos saltos e aos pinotes. Fazem estalar no ar chicotes. Chamam palhaços e acrobatas.

 

- Levanta-te! Deixou de chover. Está um sol óptimo lá fora! Vá! Levanta-te. O sol está lindo!

 

Esta gente espera o quê?!

Que eu faça a fotossíntese?!  

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Gavetas:

A Gaffe com a Tia

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.19

Tia! Tia! tia!

 

Tia! Tia! Tia! é o novíssimo blog da minha querida Sarin que me entregou o privilégio de tentar colorir o espaço onde se encontra com histórias de encantar.

 

A imagem que procuro, ainda a suplicar alguns retoques, é a de um momento pueril, quase antigo - ou sem idade -, onde a recordação de cores envelhecidas, de caixas de bombons, de livros com folhos, folheados, desfolhados, balançam em cavalinhos de madeira que vieram de longe, dos lugares onde vivem as memórias que protegemos quando quem as entrega é quem sabemos que vamos amar pelo tempo fora.

É uma imagem para uma criança bem amada.

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A Gaffe no carrinho de História

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.19

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A Gaffe considera despropositado o choque dos vetustos professores da Universidade de Coimbra que abominaram o tema do carro alegórico que no desfile da Queima das Fitas tentou cumprir a sua missão pelas avenidas da cidade, carregando cerveja.

 

Uns queridos exagerados.

 

Afinal, meus amorosos e escandalizados velhotes, os meninos e as meninas que tiveram a glamorosa ideia de baptizar o veículo de carga com a referência encapotada a um genocídio, pertencem ao curso de História.

Não há nada a recear.

O futuro dos petizes passa por umas calças pelos tornozelos, muitíssimo slim, de modo a esmagar os tintins sem muito alarde, por uns sapatos bicudos e por uma camisa coleante aliada a um casaquinho dois números abaixo do normal, para realçar a musculatura e atestar que se não se está interessado em arqueologias, pois que a empresa do pai é mais bolos e pasteis de bacalhau com queijo da Serra. Às meninas está destinado um bom casamento e unhas de gel. A ambos, caso não se concretizem estes desideratos, está assegurada a caixa de supermercado que não estiver ainda ocupada por licenciados em Filosofia. A Assembleia da República está fora de alcance, pois que já tem os advogados a preencher cadeiras.

 

Não é grave.

 

A Gaffe também não compreende muito bem a reacção dos piquenos.

Colar um papelão no carrinho com o que parece ser um irónico protesto contido no Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre, não é muito eficaz, porque é verdade.

 

Os meninos não podem fazer o que querem, exactamente porque vivem em liberdade, meus queridos. Não é?

 

Faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo, se pisassem com a miséria dos sapatos de plástico do traje académico as avenidas de um qualquer lugarejo onde a liberdade fosse mais um pedaço de porcaria incluída nas toneladas de lixo que deixaram para trás durante o desfile.

Assim, não.

A liberdade de que usufruem, embora vos deixe usar poliéster preto e não vos obrigue a lavar o cabelo, impede que forneçam asas a estropícios mentais com intuitos humorísticos.

 

Meus queridos, o nome que decidiram entregar ao vosso carrinho alegórico, não tem piada, não é sequer inteligente, não é bonito, não tem bom-gosto, não é palestiniano, não é anti-semita. É só parvo.

Se já é péssimo que desfilem vestidos com aquilo que torna impossível que não se cheire a suor - para além de vos realçar os cabelos maltratados, mal lavados, mal cortados -, permitir que aliem esta desgraça a uma demonstração de imbecilidade, seria catastrófico para a Academia em geral e para os futuros desempregados inscritos no curso de História em particular.

 

Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre não é, de todo, sarcasmo ou ironia, reveladores de repressão, ou de esmagamento dos vossos anseios, meus amores, e não o é por causa da treta irritante do A minha liberdade acaba, onde começa a do outro, porque tal não passa de uma tolice creditada pelos coleccionadores de frases do facebook que ignoram que a liberdade não acaba em lado nenhum e que jamais terá limites na vida do Outro, porque se multiplica, aumenta, se une a outras, se reproduz, adicionando-se às liberdades alheias que se cruzam com a nossa.   

 

É só mesmo por causa do mau gosto. Se tem de haver desfile, sejam elegantes. Já basta o traje académico e o resto da praxe.

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A Gaffe de Guillaume

rabiscado pela Gaffe, em 07.05.19

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Revejo as velhas fotos de Paris.


Fotos banais do mais banal dos amantes da cidade, pronto a oferecer-me tudo o que tem, mesmo o mais tolo, mesmo o mais ridículo.


No Palais Royal. Na galeria de arte de luz amarela e estranha. Frente à Torre Eiffel, sorrindo basbaque. Na Rue de Monceau onde por perto pairou Proust.


Neste vale de imagens, a minha distância a verter saudade.


Lembro-me da textura da mesa no Les Deux Magots onde o encontrava, a mesa de Sartre e de Genet, mas é difusa a memória do meu aranhiço que de negro vinha, de azul nos olhos, réstias lapidadas de existencialismo, falar-me de desolação, porque o Inferno era eu, que não o amava.


Encontro finalmente na base da memória e de uma imagem o nome do rapaz: Guillaume.

 

Guillaume!...

 

E subitamente sinto-me sozinha. 

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Gavetas:

A Gaffe dentro da normalidade

rabiscado pela Gaffe, em 06.05.19

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Normal é vestir o que compramos para trabalhar conduzindo através do trânsito num carro que ainda estamos a pagar para chegar a tempo ao trabalho que precisamos para poder pagar as roupas e o carro e a casa que deixamos vazia todo o dia para que nos seja permitido lá viver.

 

Por tudo isto ser normal, é que precisamos de repensar o modo como lutamos por tudo o que vale mesmo a pena defender.

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Redacção da semana: o meu desenho que é uma colagem

rabiscado pela Gaffe, em 06.05.19

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A minha professora está com muitas dores de cabeça e mandou-nos fazer um desenho. Quando a minha professora tem dores de cabeça a gente dá ao lápis que assim não a chateia. É como nas passadeiras. A gente mete lá cor e fica logo tudo muito includido lá dentro e a deixar que as pessoas com pila casem pessoas com uma pila ou que os pipis façam o mesmo. Quem não tem jeito para desenho pode cortar revistas velhas e colar no papel que também fica bem não desfazendo. Eu gostava muito de colar umas coisas que lembrassem a actualidade assim pró moderno mas só encontrei a fotografia do senhor doutor Carlos César com a família e aquilo é mais antigo do que a Sé de Braga que a gente vê por um canudo desde que não seja o do senhor doutor Relvas ou o da menina da juventude socialista que aí a gente fica cega. A bem dizer também não está mal porque o senhor doutor Carlos César foi o primeirinho a dizer que o senhor doutor Costa ia embora. Por acaso o senhor doutor Carlos César estava muito nervoso e não é para menos que se o senhor doutor Costa vai embora a família do senhor doutro Carlos César fica desempregada e parecendo que não é sempre um desarranjo. Disseram lá no Edicíclio que a senhora doutora Cristas e o senhor doutor Rui tinham-se juntado aos terroristas e isso é coisa que não se faz no governo. A bem dizer não valia a pena a gente ficar nervosa que aquilo foi como os bancos fizeram ao senhor Coutinho dos automóveis e disseram que ele não devia nada porque o que devia assim como assim já ninguém pagava ou então como o senhor Bernado que vai pagar com uma garagem de merda lá pró fim do mundo a comida que andou a congelar numas arcas frigoríficas muito bonitas que guarda numa casa a atirar para o museu para a gente ver e calar que ali ninguém toca. A minha prima é que ficou com mais nervos porque comprou à vista um quadro nos chineses com umas maçãs chamadas naturezas mortas muito bonito por sinal que aquilo nem parecia que as maçãs estavam falecidas e diz que foi uma estúpida porque podia primeiro ir pedir o dinheiro àquele senhor que era chefe dos bancos que é muito esquecido que a tinta do cabelo desce para os miolos e a gente fica com as lembranças todas borradas e depois com o dinheiro que sobrasse comprava a quinta da bacalhoa que é onde vive a Ana Bacalhau que é a cantora que canta ó meu rapazinho és fraco para mim que é uma canção que o senhor doutor Costa anda a cantar há muito tempo sem que a senhora doutora Cristas que é muito podologista das mulheres perceba que também é para ela porque só lá está rapazinho e ela é menina e não há igualdade de géneros no Continente só na Madeira. No Continente cada um compra o que precisa e enche o carrinho como pode que a mais não é obrigada sem se esquecer de dar um saco de arroz à dona Jonete. A minha avó ficou farta da choraminguice da minha prima e até lhe disse ai cala-te mulher que me cansas a beleza. A minha avó deve ter a beleza muito cansada que ninguém a vê há mais que tempos e deve pedir a alguém que lhe pique o ponto e vai dormir. O meu primo Zeca diz que é tudo uma grande treta que ninguém fez aquilo para levar a sério valha-me Deus e que a gente só ficava a saber que a minha professora ia ser descongelada mas era só para meter no frigorífico que o gás está caro e quem quiser frango assado que vá à Caixa que tem torresmos e carvões a dar com o pau do churrasco que sobrou do senhor Bernado. Ora porra que aquilo era só para fazer de conta que a senhora doutora dona Cristas e o senhor doutor Rui eram fixes e solindários com as classes baixas da escola assim do tipo pré-primária que é toda morcona. Já o meu pai é como o senhor doutor Mário Nogueira. Aproveita a nozes que caem ao chão e diz que foi ele que lhes deu com um pau. Anda mas é muito preocupado com as eleições da Europa e não liga muito a estas coisas dos congeladores que se desligam mas que não se abrem e a comida fica lá na mesma. O meu pai por causa da Europa nem consegue dormir só a pensar que o senhor doutor Pedro Marques que quer ir para a Europa tem uma boca que mete impressão porque parece que anda a comer as beiças ora um senhor que quer ir para a Europa tem de ter a boca da dona Manuela Moura Guedes se não tem não consegue ser procurador. É que é muito mais importante ter boca do que ter miolos. A bem dizer a falta de boca nota-se muito mais. Agora vou-me embora que pode ser que desistam de me chatear com esta treta dos desenhos que eu gosto mais de colagens.

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A Gaffe das zebras

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.19

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O poderoso senhor sabe, mas não quer que lho digam, que o seu queridíssimo sobrinho é homossexual, pois que se lho disserem, mesmo já sabendo, terá de o correr pela porta fora depois de lhe cravar dois socos no focinho.

 

A Gaffe receia que o poderoso senhor seja atropelado.

 

Fotografia - Mihir Mahajan

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Gavetas:

A Gaffe dos tronos

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.19

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A Gaffe decidiu na sua tarde letárgica não ficar no escuro - ilusões - em relação à série mais disputada e mais referida dos últimos tempos.

Andou de comando na mão, serigaitando enfurecida pelos diversos canais ao seu dispor, de olhos de psicopata descontrolada e muito próxima de ser confundida com uma obsessiva-compulsiva, até encontrar o episódio número três da temporada oito de Games of Thrones, GoT para os amigos.

 

Estancou.

 

Engana-se quem pensa que apanha de uma penada toda a história e que encaixa o argumento sem percalços. A série é negra de tão enredada e deixa-nos à toa se a começarmos pelo fim. Nada que impeça a Gaffe de dormir.

 

Lamenta-se, no entanto, que ninguém se tenha lembrado de aceder uma luzinha. Aquilo é o breu durante mais de uma hora. As silhuetas absolutamente envoltas pelo lume não permitem que as personagens se identifiquem com clareza - como é evidente.

Há, porém, sinais que possibilitam uma diferenciação. As personagens principais usam MA-RA-VI-LHO-SOS casacos de peles. Se vislumbrarmos uma gola gigantesca de pêlo, ou se visualizarmos uma capa de couro encimada por uma fabulosa écharpe de um vison anfetamínico, podemos de imediato concluir que estamos na presença de uma figura importante em toda a trama e de todas as temporadas. O couro também não é de desprezar, pois que é usado por gente muitíssimo corajosa, muitíssimo nervosa, muitíssimo guerreira, quiçá heroica.   

 

A Gaffe deu conta da presença de dragões. Não será de estranhar, tendo em consideração que os outros bichos são o guarda-roupa. Há uns que cospem fogo azul e que são aparentemente maus, e outros que soltam o fogo habitual e que se deixam montar por gente gira e de casaco de peles. Ficou felicíssima. Há imenso tempo que não os revia. O último com quem conviveu dava aulas de matemática no Colégio onde penou esta rapariga e era massacrado por meia dúzia de minorcas muito pouco educados. Sem berço e logicamente sem casacos maravilhosos.

 

A propósito de minorcas, a Gaffe reparou num anão - ai, perdão!, num senhor de estatura extremamente baixa -, que, neste episódio estava, juntamente com uma data de gente pobre - sem agasalhos de peles, portanto -, enfiado num bunker, agachado atrás de uma pedra, ou então de pé - intuiu-se, mas podia perfeitamente estar de joelhos, que a perspetiva não ajudava -  a olhar em frente, muito calado, muito circunspecto, mas muito maneirinho. A Gaffe pensou imediatamente que era um grande nome da série, pois que não fazia muito sentido os grandes planos com que o bafejavam, se o anão – Perdão!, o senhor de estatura extremamente baixa -, não tivesse importância gigantesca, e que estava ali a olhar em frente apenas porque aguardava o desfecho da porrada sem fim que ocorria no exterior.

 

Uma desgraça.

 

A Gaffe nunca em série alguma - nem na Guerra das Estrelas - assistiu a tanta bordoada!

Aquilo eram cabeças pelo ar, espadas cravadas nos rins, flechas a arder rasgando a noite incendiada, corações arrancados à paulada, figurantes esventrados lançados ao ar em chamas, tripas a jorrar pelos olhos, pedaços de corpos no chão empapado em lama, sangue e vísceras e um interminável coro de gritos excruciantes. A Gaffe compreende que fossem obrigados a ressuscitar os mortos, que não há elenco vivo que aguente tamanha chacina.

 

O responsável - segundo parece - aparece por fim.

Imponente, resistente, poderoso, ameaçador e muito sisudo. É um senhor encorpado, com caracóis calcificados e com uma cara de quem já teve melhores dias. Avança sem qualquer impedimento pelo meio dos cadáveres que se levantam, qual lázaros por atacado, de espada em punho, deixando adivinhar que tem um propósito igual à sua determinação. Ficamos a saber que é à prova de fogo, pois que um dragão montado por uma menina vestida de branco, loira platinada, com um penteado que deve ter sido elaborada na primeira temporada da série e pensado para durar, o incendeia sem que o maléfico chamusque o que quer que seja. O maldito mata a fonte de ignição e faz tombar a virgem - parece-lhe, mas a Gaffe só viu este episódio. Aparece um herói todo porco - na série não há chuveiros - que tenta salvar a honra do convento e que é, como seria de esperar, exterminado.

A donzela, que se revela dura de roer, dando conta de uma quantidade significativa de lázaros, chora, tapando o agonizante com o penteado e com as vestes brancas que continuam imaculadas.  

 

A Gaffe é levada então a acompanhar o malévolo que se aproxima de uma personagem que lhe pareceu a Clarinha da Heidi, mas com uma cadeira de rodas mais steampunk. Adivinha-se a importância da figura pela gola do casaco e pela passividade com que enfrenta o perigo. Olha o infinito à espera que a espada do senhor de caracóis calcificados lhe arranque o que ainda mexe, ou seja, a cabeça.

Subitamente, já a arma se erguera, salta do nada uma menina que num golpe complicado espeta um punhal no ventre do malvado que explode e faz desintegrar todo o exército de mortos que, não fosse este pormenor, estariam mais ou menos vivos e a matar completamente aquilo tudo.

O episódio acaba, imediatamente a seguir a uma senhora - suspeita-se que íntima do falecido cornudo - ter largado no chão uma coroa pirosa e se desfazer ao longe, logo ali muito perto da linha do horizonte. 

 

A Gaffe não volta a assistir a debates com os candidatos às eleições europeias.   

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