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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos tronos

rabiscado pela Gaffe, em 02.05.19

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A Gaffe decidiu na sua tarde letárgica não ficar no escuro - ilusões - em relação à série mais disputada e mais referida dos últimos tempos.

Andou de comando na mão, serigaitando enfurecida pelos diversos canais ao seu dispor, de olhos de psicopata descontrolada e muito próxima de ser confundida com uma obsessiva-compulsiva, até encontrar o episódio número três da temporada oito de Games of Thrones, GoT para os amigos.

 

Estancou.

 

Engana-se quem pensa que apanha de uma penada toda a história e que encaixa o argumento sem percalços. A série é negra de tão enredada e deixa-nos à toa se a começarmos pelo fim. Nada que impeça a Gaffe de dormir.

 

Lamenta-se, no entanto, que ninguém se tenha lembrado de aceder uma luzinha. Aquilo é o breu durante mais de uma hora. As silhuetas absolutamente envoltas pelo lume não permitem que as personagens se identifiquem com clareza - como é evidente.

Há, porém, sinais que possibilitam uma diferenciação. As personagens principais usam MA-RA-VI-LHO-SOS casacos de peles. Se vislumbrarmos uma gola gigantesca de pêlo, ou se visualizarmos uma capa de couro encimada por uma fabulosa écharpe de um vison anfetamínico, podemos de imediato concluir que estamos na presença de uma figura importante em toda a trama e de todas as temporadas. O couro também não é de desprezar, pois que é usado por gente muitíssimo corajosa, muitíssimo nervosa, muitíssimo guerreira, quiçá heroica.   

 

A Gaffe deu conta da presença de dragões. Não será de estranhar, tendo em consideração que os outros bichos são o guarda-roupa. Há uns que cospem fogo azul e que são aparentemente maus, e outros que soltam o fogo habitual e que se deixam montar por gente gira e de casaco de peles. Ficou felicíssima. Há imenso tempo que não os revia. O último com quem conviveu dava aulas de matemática no Colégio onde penou esta rapariga e era massacrado por meia dúzia de minorcas muito pouco educados. Sem berço e logicamente sem casacos maravilhosos.

 

A propósito de minorcas, a Gaffe reparou num anão - ai, perdão!, num senhor de estatura extremamente baixa -, que, neste episódio estava, juntamente com uma data de gente pobre - sem agasalhos de peles, portanto -, enfiado num bunker, agachado atrás de uma pedra, ou então de pé - intuiu-se, mas podia perfeitamente estar de joelhos, que a perspetiva não ajudava -  a olhar em frente, muito calado, muito circunspecto, mas muito maneirinho. A Gaffe pensou imediatamente que era um grande nome da série, pois que não fazia muito sentido os grandes planos com que o bafejavam, se o anão – Perdão!, o senhor de estatura extremamente baixa -, não tivesse importância gigantesca, e que estava ali a olhar em frente apenas porque aguardava o desfecho da porrada sem fim que ocorria no exterior.

 

Uma desgraça.

 

A Gaffe nunca em série alguma - nem na Guerra das Estrelas - assistiu a tanta bordoada!

Aquilo eram cabeças pelo ar, espadas cravadas nos rins, flechas a arder rasgando a noite incendiada, corações arrancados à paulada, figurantes esventrados lançados ao ar em chamas, tripas a jorrar pelos olhos, pedaços de corpos no chão empapado em lama, sangue e vísceras e um interminável coro de gritos excruciantes. A Gaffe compreende que fossem obrigados a ressuscitar os mortos, que não há elenco vivo que aguente tamanha chacina.

 

O responsável - segundo parece - aparece por fim.

Imponente, resistente, poderoso, ameaçador e muito sisudo. É um senhor encorpado, com caracóis calcificados e com uma cara de quem já teve melhores dias. Avança sem qualquer impedimento pelo meio dos cadáveres que se levantam, qual lázaros por atacado, de espada em punho, deixando adivinhar que tem um propósito igual à sua determinação. Ficamos a saber que é à prova de fogo, pois que um dragão montado por uma menina vestida de branco, loira platinada, com um penteado que deve ter sido elaborada na primeira temporada da série e pensado para durar, o incendeia sem que o maléfico chamusque o que quer que seja. O maldito mata a fonte de ignição e faz tombar a virgem - parece-lhe, mas a Gaffe só viu este episódio. Aparece um herói todo porco - na série não há chuveiros - que tenta salvar a honra do convento e que é, como seria de esperar, exterminado.

A donzela, que se revela dura de roer, dando conta de uma quantidade significativa de lázaros, chora, tapando o agonizante com o penteado e com as vestes brancas que continuam imaculadas.  

 

A Gaffe é levada então a acompanhar o malévolo que se aproxima de uma personagem que lhe pareceu a Clarinha da Heidi, mas com uma cadeira de rodas mais steampunk. Adivinha-se a importância da figura pela gola do casaco e pela passividade com que enfrenta o perigo. Olha o infinito à espera que a espada do senhor de caracóis calcificados lhe arranque o que ainda mexe, ou seja, a cabeça.

Subitamente, já a arma se erguera, salta do nada uma menina que num golpe complicado espeta um punhal no ventre do malvado que explode e faz desintegrar todo o exército de mortos que, não fosse este pormenor, estariam mais ou menos vivos e a matar completamente aquilo tudo.

O episódio acaba, imediatamente a seguir a uma senhora - suspeita-se que íntima do falecido cornudo - ter largado no chão uma coroa pirosa e se desfazer ao longe, logo ali muito perto da linha do horizonte. 

 

A Gaffe não volta a assistir a debates com os candidatos às eleições europeias.   

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