Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no carrinho de História

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.19

da.jpg

 

A Gaffe considera despropositado o choque dos vetustos professores da Universidade de Coimbra que abominaram o tema do carro alegórico que no desfile da Queima das Fitas tentou cumprir a sua missão pelas avenidas da cidade, carregando cerveja.

 

Uns queridos exagerados.

 

Afinal, meus amorosos e escandalizados velhotes, os meninos e as meninas que tiveram a glamorosa ideia de baptizar o veículo de carga com a referência encapotada a um genocídio, pertencem ao curso de História.

Não há nada a recear.

O futuro dos petizes passa por umas calças pelos tornozelos, muitíssimo slim, de modo a esmagar os tintins sem muito alarde, por uns sapatos bicudos e por uma camisa coleante aliada a um casaquinho dois números abaixo do normal, para realçar a musculatura e atestar que se não se está interessado em arqueologias, pois que a empresa do pai é mais bolos e pasteis de bacalhau com queijo da Serra. Às meninas está destinado um bom casamento e unhas de gel. A ambos, caso não se concretizem estes desideratos, está assegurada a caixa de supermercado que não estiver ainda ocupada por licenciados em Filosofia. A Assembleia da República está fora de alcance, pois que já tem os advogados a preencher cadeiras.

 

Não é grave.

 

A Gaffe também não compreende muito bem a reacção dos piquenos.

Colar um papelão no carrinho com o que parece ser um irónico protesto contido no Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre, não é muito eficaz, porque é verdade.

 

Os meninos não podem fazer o que querem, exactamente porque vivem em liberdade, meus queridos. Não é?

 

Faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo, se pisassem com a miséria dos sapatos de plástico do traje académico as avenidas de um qualquer lugarejo onde a liberdade fosse mais um pedaço de porcaria incluída nas toneladas de lixo que deixaram para trás durante o desfile.

Assim, não.

A liberdade de que usufruem, embora vos deixe usar poliéster preto e não vos obrigue a lavar o cabelo, impede que forneçam asas a estropícios mentais com intuitos humorísticos.

 

Meus queridos, o nome que decidiram entregar ao vosso carrinho alegórico, não tem piada, não é sequer inteligente, não é bonito, não tem bom-gosto, não é palestiniano, não é anti-semita. É só parvo.

Se já é péssimo que desfilem vestidos com aquilo que torna impossível que não se cheire a suor - para além de vos realçar os cabelos maltratados, mal lavados, mal cortados -, permitir que aliem esta desgraça a uma demonstração de imbecilidade, seria catastrófico para a Academia em geral e para os futuros desempregados inscritos no curso de História em particular.

 

Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre não é, de todo, sarcasmo ou ironia, reveladores de repressão, ou de esmagamento dos vossos anseios, meus amores, e não o é por causa da treta irritante do A minha liberdade acaba, onde começa a do outro, porque tal não passa de uma tolice creditada pelos coleccionadores de frases do facebook que ignoram que a liberdade não acaba em lado nenhum e que jamais terá limites na vida do Outro, porque se multiplica, aumenta, se une a outras, se reproduz, adicionando-se às liberdades alheias que se cruzam com a nossa.   

 

É só mesmo por causa do mau gosto. Se tem de haver desfile, sejam elegantes. Já basta o traje académico e o resto da praxe.

 photo man_zps989a72a6.png




  Pesquisar no Blog