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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe fora de tempo

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

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Num tempo perdido, o meu avô ensinou-me a cuidar dos livros.

A biblioteca continua a exalar um aroma a couro antigo. As sombras espalhadas de renda no chão, depois da luz ter atravessado as partículas de pólen doirado que as janelas autorizam, acabam longas lâminas, línguas, de silêncio. O lago baila no tecto, vindo lá de fora.

É a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro.

É a minha vez de lhe ensinar o modo de catalogar os livros, de lhe ensinar a manusear as fichas que lhe permitirão encontrar a obra desejada.

 

Entra esguia como o caule de um lírio.

Aproxima-se da adolescência, mas a proporcionalidade do seu corpo não sofreu dano. Talvez porque desliza. Talvez porque o tempo ainda breve e leve tema tocar tenaz na fragilidade presa nos fios loiros do cabelo, na densidade efémera do azul dos olhos, no quase imperceptível mover dos dedos finos como facas, na intangibilidade das ancas púberes, nos seios a aflorar dentro do segredo, no silêncio que a persegue com lábios de sombra triste, na ausência de sorriso, no sussurro de secura que parece já a ter envelhecido sem a ajuda dos dedos dos dias a passar.

Senta-se na cadeira do meu avô. Cruza as mãos indiferentes. Suspira. Espera.

 

- São teus, os livros? Leste-os todos?

- Não os li todos.

- Tens de assinalar os que já leste. Quero ler os outros, os que tia leu. Não fizeram um bom trabalho aqueles que escolheste. A outra tia leu os certos.

 

Era a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro. Não lhe toquei.

Fechei a biblioteca e pedi que cobrissem com panos brancos todos os espelhos. Não quero que a menina veja neles reflectido um monstro. Ainda é cedo.

 

Talvez haja tempo.

 

Imagem - Titti Garelli

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Gavetas:

A Gaffe à descoberta

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

 

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Uma das mais eficazes formas de se descobrir um herói, é surpreendê-lo quando julga que ninguém o observa.

Com um cobarde, o método é idêntico.  

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