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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num desencontro

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.19

M. Romanov.jpg

Há quem afirme que crescemos desenvolvendo algumas características perfeitamente vincadas e indeléveis transportadas em pormenores com sabor a fado e a destino, impressos no nome que nos dão, ou no da rua em que nascemos, no número da porta em que vivemos, ou nas estrelas mais esconsas que nos regem.

 

Gosto de acreditar que pode ser verdade. É quase fantasia, é quase uma história de embalar que nos contam, é quase uma poeira que cintila fora do real.

 

Há, no entanto, um detalhe deslumbrante neste correr de fado e de cantigas.

Há gente que nasceu para obedecer a determinada imagem, definida e única. Não existe, ou existe com menor vontade e maior esquecimento, se quebra ou subverte a vincada representação de si nos outros.

 

Não há forma de se reproduzir esta espécie subtil de um carisma que não passa de inteligência à flor da pele. Nasce como um signo que encontra definição e corpo no corpo de quem percebe ou sente esta particularidade. O duplo, o imitador, carece de certezas ou de vida própria. Fica sempre aquém daquilo que se quer.

O confronto do sujeito com a imagem que o reproduz na perfeição é raro e imperceptível. Reconhecemo-lo quando percebemos que, depois de o vislumbrar nos outros, não conseguimos deixar de admitir que há, algures, um encontro a que faltamos.

 

Na foto - Mikhail Alexandrovitch Romanov

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