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Ilustração - Fernando Vicente


Redacção da semana: A gente bonifrásica

rabiscado pela Gaffe, em 11.07.19

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Hoje vou falar dos africanos da dona Fátima Bonifrásica. A dona Bonifrásica é uma senhora muito inteligente e que escreve nos jornais e qu’às tantas tem um blogue na plantaforma do Sapo derivado aos ciganos. Parece que a dona Bonifrásica de tanto estudar ficou assim a modos que xexé que é uma coisa que as pessoas ficam quando são obrigadas a fazer trabalhos de casa e não os fazem assim como eu mas que quer muito dar nas vistas e assim já não é como eu. Vai daí mete os africanos todos num esgoto e diz-lhes das boas. Se a dona Bonifrásica não vai lá com merdas velhas da história há-de ir borrando-se em fresco na estrada. Um trabalhão que aquilo a bem dizer ainda são muitos milhões de pessoas para enfiar num esgoto. É que não interessa nadinha o senhor Madre Lutre Quim o senhor Mandala ou até os Gipsis Quingues que a minha prima gosta tanto ou até o senhor Gande que não é preto mas também não tem grande cor. Vai tudo a eito que são todos uns palhaços assim a atirar para o tolinho e burros salvo seja e sem amar a Jesus e prontos a arranjar encrencas uns com os outros que lhes está no sangue. Para dizer a verdade eu não percebi muito bem o casqueiro em que a dona Bonifrásica se meteu. Aquilo foi um vê se te avias de gente a dizer mal da dona Bonifrásica. Quase que a matavam. Tudo gente muito enervada, a chamar-lhe rancista e outros a chamar-lhe rançosa. Não sei muito bem o que é rancista mas sei que o que é rançosa e senti um cheiro a ranço na dona Bonifrásica que nem vos passa. Também havia gente a dizer que é que sabia como se devem tratar os pretos e os ciganos qu’isto já não é as colónias que eram e que agora os pretos e os ciganos entram na escola da dona Bonifrásica nem que não queiram porque vai haver cotas que são velhos que estão sempre a fugir dos lares e que depois são amarrados às camas. Nos entretantos os pretos e os ciganos ficaram muito sentadinhos a gozar preto como diz a minha avó que é uma macaca nestas coisas a ver no que aquela balbúrdia dava que ainda sobrava para eles. Os brancos bonifrásicos já estão muito habituados a fazer sobrar para os outros o que não querem para eles. Quando um branco bonifrásico se mete a discutir com outro como se há-de tratar os pretos e os ciganos quem se lixa é o mexilhão desde o tempo em que o bicho andou pela terra dos africanos. É um vício que a gente branca bonifrásica apanhou. Pior qu’a droga que os pretos da dona Bonifrásica andam a vender. Aparece um preto e ZÁS aparece um cigano e ZUMBA os brancos bonifrásicos sabem sempre como se deve tratar deles porque sabem como eles são e tudo o que eles querem mas só que não dizem que são uns calaceiros sempre prontos p'rá chapada. Olha ao menos já não é a chicote. Eu não vejo diferença entre a dona Bonifrásica e um preto e um cigano mas eu só dei uma vistinha de olhos por uma coisa chamada Declaração Universal dos Direitos do Homem que a minha mãe me mostrou na biblioteca. Lá não fala nas diferenças que a dona Bonifrásica disse que havia. O problema é que se por exemplo metermos o senhor Cofe Anã e o Ricardo Quaresma ao barulho a dona Bonifrásica mal comparada fica pior que uma preta igualzinha aquelas que ela pensa que as pretas são. Eu até acho que é tudo cansaço. A gente anda a precisar de férias num lugar sossegado assim como o Alentejo para não ouvir o barulho que a dona Bonifrásica faz a borrar-se toda. Vou colar ali em cima uma fotografia do Alentejo mas sem as tripes da donazinha Jardim que anda a cheirar o que não deve há muito tempo e a esticar a linha. A donazinha Jardim de tanto puxar aquilo para cima ficou com pêlos nos miolos. Deslocou o cu e o pipi. Se houver ciganos no Alentejo a gente mete um sapo à entrada. Pode ser um daqueles que os os pretos estão acostumados a engolir que não faz falta. Eu gosto muito da dona Bonifrásica não desfazendo o jardim qu’às tantas as velhas ainda me dizem também para onde hei-de ir.    

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A Gaffe num desencontro

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.19

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Há quem afirme que crescemos desenvolvendo algumas características perfeitamente vincadas e indeléveis transportadas em pormenores com sabor a fado e a destino, impressos no nome que nos dão, ou no da rua em que nascemos, no número da porta em que vivemos, ou nas estrelas mais esconsas que nos regem.

 

Gosto de acreditar que pode ser verdade. É quase fantasia, é quase uma história de embalar que nos contam, é quase uma poeira que cintila fora do real.

 

Há, no entanto, um detalhe deslumbrante neste correr de fado e de cantigas.

Há gente que nasceu para obedecer a determinada imagem, definida e única. Não existe, ou existe com menor vontade e maior esquecimento, se quebra ou subverte a vincada representação de si nos outros.

 

Não há forma de se reproduzir esta espécie subtil de um carisma que não passa de inteligência à flor da pele. Nasce como um signo que encontra definição e corpo no corpo de quem percebe ou sente esta particularidade. O duplo, o imitador, carece de certezas ou de vida própria. Fica sempre aquém daquilo que se quer.

O confronto do sujeito com a imagem que o reproduz na perfeição é raro e imperceptível. Reconhecemo-lo quando percebemos que, depois de o vislumbrar nos outros, não conseguimos deixar de admitir que há, algures, um encontro a que faltamos.

 

Na foto - Mikhail Alexandrovitch Romanov

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A Gaffe do não

rabiscado pela Gaffe, em 09.07.19

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Não era um bom vento. Tresandava a podre e a doença. Dos casamentos não chegava nota, que a morte tinha arrastado os noivos, empurrando os corpos para o rio.

O tifo galgava os penedos, depois de tombar nas margens putrefactas e desatado em fúria abria terreno nos corpos dos novos, que os velhos caíam de choro e de fome.

Morria-se.

A gente do Douro usava panos amarrados na boca, com algodão em rama dentro. Para a proteger do febre, que nos socalcos e nas margens do rio a maleita é masculina, já que às mulheres foram entregues os dons curativos.

 

- Tombaram como os espanhóis. A morte é diferentemente igual em todo o lado.

 

A memória da Guerra Civil espanhola assombra o meu velho Domingos, tão tenro na altura que dessa tragédia apenas retém o terror do febre, o nauseabundo correr da água encharcada em corpos e o burburinho das rezas envolvidas em lenços pretos, em raízes e terços lacrimejantes. Pesada e seca memória, como trovoada em mês de Julho.

 

- P’ra lá do Marão, mandam os que lá estão, mas no Douro manda o não.

    

O não como matador da esperança. Para lá do não caído sobre a terra, já nada é fértil. O não como o fim do tempo, como se nada existisse depois do muro erguido pelo amontoar de corpos já negados.

As mulheres carpiam este não isento de revolta.

Urdiam um não confrangido, de lamento, de desilusão irreversível, de perda, de ausência de espera no contínuo de vida ainda por viver.

 

Ainda existe este não aqui no Douro. Solene de incenso e de tragédia, de final profundo, de sinal da cruz, mas ficou aguacento e já de poucas lágrimas, para fazer de conta que é talvez, esse estrondoso lugar de redenção da esperança.

 

De Espanha corria o não dizível. Veio no Douro a tremular na água e a terra o abrasou, comeu, tornou raiz. Regurgitou-o depois para mal do homens.  

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A Gaffe criminosa

rabiscado pela Gaffe, em 08.07.19

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A nossa passiva inocência perante o crime que vemos cometer, é como a cegueira do carrasco.

Vendo, atingimos o pescoço da vítima, mas acreditamos que nos basta o capuz da inocência para cegar a cumplicidade do nosso silêncio sem gesto.   

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A Gaffe e o carteiro

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.19

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(Especialmente para si, de modo leve e breve.)

Nas manhãs em que a névoa se arrastava pelo chão, descida das copas cinzentas das árvores, cravando as garras húmidas nos troncos, pesada como um facto, como um fardo, a minha adolescência - de vestido branco em linho longo - esperava as agulhas do sol por entre os interstícios das folhas.

 

O meu vestido tinha corpete apertado e alças largas. Sem mangas. Um decote redondo. A saia era cortada em evasê, plein soleil – dizia a minha avó.

Era um dos meus vestidos favoritos.

Tinha visto Grace Kelly nas revistas. De vestido plein soleil, sentada nas escadas. Estampado nubente. As mãos cruzadas no regaço, o pescoço de pérolas, o sorriso quieto de princesa loira de ondas suaves.

Queria tanto ser como Grace Kelly! Imitava-lhe a pose de vestido plein soleil, renegando o meu ruivo revolto que denunciava a distância e a minha pele picotada pela canícula.

 

Quando o sol tocava nas tintas do arvoredo, sentava-me nas escadas. Espalhava o vestido nos degraus, cruzava as mãos no regaço e permanecia quieta a ser Grace Kelly.

 

Gostava muito do vaso de granito que encimava a coluna que terminava a escadaria. Atravessada pela luz, a transparência das pétalas das flores que continha, estampava no branco do meu vestido plein soleil uma paisagem floral difusa e movediça de cinzas e de negros. Ondulava a paisagem como as ondas do loiro da princesa, ao som da brisa que arrefecia a pedra.

 

A meio da manhã, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado. Acotovelavam-se, sussurravam, davam risadinhas maliciosas e sacudiam as saias como quem sacode o sol que queima as cores.

Lembro-me da Cecília. Bonita. Meridional. Baloiçava as ancas poderosas como éguas e fazia oscilar o peito opulento, numa provocação quase erótica, quase territorial pela insinuação animalesca que continha. É agora dona de um talho. Casou. Tem dois filhos que apinoca para a catequese dos Domingos e comunhão apensa e passa por mim sem me ver, cavalgando o mundo, num faz-de-conta que deixou de me intrigar por não lhe encontrar razão passível de palpar como o seu rabo que alargou e se tornou bovino.

A outra perdi-a. Não guardo memória. Era, grande, possante, roliça e loira, redonda. Talvez minhota de olhos azuis e trigo no cabelo. Imaginei sempre o Minho repleto de valquírias.

A meio da manhã, duas vezes por semana, as duas raparigas, pouco mais velhas do que eu, corriam para os portões de ferro forjado e fechado.

Ouviam a motoreta do carteiro e corriam ao encontro do som do bicho rouquenho. Às Terças e às Sextas.

 

Longe, em pose de princesa fria, invejava a plebeia canícula do corpo daquelas mulheres, mas nunca me atrevi a suar com elas. Por causa das pérolas. Por causa das sombras estampadas no meu vestido plein soleil. Por causa do desdém com que as carnais corredoras miravam de soslaio a minha imobilidade de pechisbeque caro. Por causa do medo que sentia de afugentar a neblina libidinosa que envolvia aquele percurso térreo.

 

Nunca cheguei a ver com clareza o carteiro. Escondia-se nos atrás dos pilares de pedra dos portões, de forma que de dentro não escapasse o ralhete da Jacinta e o enxotar das raparigas com a vassoura do quintal.

Minutos largos depois de cochichos e risinhos, trejeitos e saltinhos, as duas mulheres regressavam no ronco grosseiro da motoreta que partia. Traziam nas mãos os embrulhos com livros recentes encomendados pelo meu avô com a cumplicidade da sua velha livraria Bertrand que o alertava, ou os novíssimos tecidos, cortes seleccionados a dedo e a tesoura de mestre, dos antigos armazéns Cunha Rodrigues, na Rua Passos Manuel.   

 

O estampado de sombras ondulado pelas perrices do sol no meu vestido branco de linho, atenuava-se, tocado pela névoa de nunca ter recebido uma carta de Amor.

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Gavetas:

A Gaffe revoltada

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.19

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Write hard and clear about what hurts, escreve Hemingway.

 

Desobedeço!

Sou uma criatura metafórica. Faço rodar as frases na mó de semânticos moinhos e nunca consegui a cristalina pureza das tiradas simples.

Sou textualmente retorcida, palavrosamente complicada e no Éden seria, não serpente, demasiado óbvia, excessivamente ali, mas uma lagartixa com a mania que é um dragão, com laivos de barroco inúteis, a pairar, asas abertas e boca a palrar fogo, por cantos e recantos já confusos, esconsos labirintos confundidos.

Um ramalhete de parras, nunca a solitária que pudicamente cobriu as naturezas cruas dos Primeiros.

 

O maior erro de um parágrafo é não saber desalojar palavras.

 

Fotografia - Massimo Raldeni

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Gavetas:

A Gaffe na Lei dos Básicos

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.19

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O medicamento custa cerca de dois milhões de euros – a margem de erro é para desprezar.

Há um bebé português que dele necessita para não morrer.

Uma onde de solidariedade arrecadou a quantia necessária para o comprar - dois milhões de euros em tão poucos dias!

Crowdfunding em todos o seu esplendor.

 

O facto de ter sido o bom samaritano a patrocinar quase de imediato a totalidade do tratamento, implica reconhecer que, também neste caso, o Estado é um inútil?

 

Não!

 

O medicamento não está vistoriado pelo INFARMED, não sendo comercializado em Portugal.

A médica da criança chega de férias e verificará se a petiza é elegível. Absolutamente necessário. A Matilde tem de estar apta, tem de ser capaz de resistir a esta tentativa de a curar. 

 

Sendo elegível, o hospital deverá oficializar o pedido, depois do impresso ter atravessado algumas dezenas de corredores e Comissões. Carimbado e aprovado, o papelucho deve seguir para o INFARMED, que analisará a viabilidade da encomenda e a eficácia do produto. Se estiver de acordo, o papelinho será enviado ao Ministério das Finanças, para que Centeno aprove a aquisição - encontrando em simultâneo maneira de não abrir precedentes -, iniciando-se então as negociações com o laboratório americano.

 

Entretanto, o dinheiro doado pelos portugueses não poderá ser usado para liquidar a conta que vier, pois que é o Estado português o responsável pela encomenda - se, nos entretantos, ainda valer a pena efectuar a dita.

 

A Gaffe considera genial propor à Assembleia da República que inclua na nova Lei de Bases do SNS a possibilidade de ser o cidadão a financiar o tratamento do seu semelhante.

 

Criavam-se escalões, sendo que o mais privilegiado abrangeria gente fofinha – crianças e velhinhos amorosos, por exemplo -, até ao menos merecedor - gente da oposição, velhos e velhas já com um pé na cova, que foram enquanto saudáveis - diz quem conhece -, pessoas horripilantes e sem uma educação que possibilite discursar no 10 de Junho.

O facebook poderia então provar ser ferramenta preciosa, permitindo contagem de likes e leitura dos comentários que ali correriam a favor, ou contra, o paciente candidato e seu consequente tratamento, ou morte.

 

O país encher-se-ia de gente boa, educada, civilizada, culta, sorridente e pronta a colaborar com o próximo - e com o distante -, pois toda a gente cedo ou tarde teria de se medir e de contar com likes.

Nunca sabemos quando temos de agarrar um. 

 

Os impostos seriam então para cativar, ou para criar laços, diz a raposa ao parvo.     

 

Ilustração - Toxandreev

 

Num registo sério, agarro - esperando ser perdoada pela ousadia - no comentário da Sarin que, como é evidente, urge reter.

(...) confesso as minhas crença e descrença no INFARMED - crença porque os medicamentos devem ser controlados, descrença porque a indústria farmacêutica funciona por objectivos distintos da Saúde.


Tenho a certeza de que uma vida vale mais do que um banco.
Mas também sei que há vidas que valem tanto quanto o barulho que as redes ecoem - Maddie é exemplo suficiente.
Quantos casos há de crianças adolescentes adultos com doenças raras? Poderemos importar assim medicamentos porque alguém aparentemente precisa? E como ficamos com a comercialização de fármacos na UE - um dos poucos produtos cuja circulação não é livre? Por outro lado, como fica a questão da responsabilização pela administração de um não autorizado?


Os procedimentos devem ser céleres, mas não podem ser ignorados. Custa, a emoção é pesada, mas quem gere não pode gerir por afectos - embora tenha que manter a sensibilidade pois gere por e para as pessoas. (...)

 

Roam-se! TAMBÉM Tenho Amigas deste calibre.

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A Gaffe sem encanto

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.19

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Vou tomando consciência do facto de quase todos os meus rabiscos ficarem sem nexo, sem sentido, sem qualquer ponta por onde se lhes pegar, sem o auxílio das figurinhas que escolhi para os ilustrar.

Esta ligação ou simbiose, como se lhes queira chamar, é uma miserável metáfora para outras uniões que grassam por todo o lado e que são incomparavelmente mais dignas e mais importantes do que as que vou fazendo levianamente por aqui.

 

Há alianças que fustigam os dias com os brilhos de promessas encantadas, uniões que afiançam a eternidade de uma fábula, elos que trazem a garantia do encanto e da magia de uma história de fadas, laços de seda, de veludo e de cetim que adornam a solidez do reino onde se pode ser feliz para todo o sempre, que, de modo subtil, se vão esfumando ou estilhaçando em silêncio de encontro ao tempo que passa.

 

Subitamente, percebemos que atingimos o limite concedido para alojar pedaços que supomos ser os que nos são mais queridos, que esgotamos a nossa capacidade de acumular sentimentos ou imagens de um sentir que não é nosso, que todos os retalhos de felicidade que fomos reunindo são substituídos pela cinza de um aviso breve e cru.

 

Não nos é permitido mais.

 

As adornadas vedações que nos impediam de ver o que chegava lento e sem ruído para minar a nossa etérea ilusão de felicidade, acabam por fazer desaparecer o que retínhamos na alma e que nos fazia acreditar que éramos heróis e heroínas de contos infantis.

Ficamos com os abismos da desilusão nos braços.

 

É claro que há remédio!

Levantamos o rabinho da rocha magmática, enegrecida e bruta, em que se transformou a vida e vamos substituindo, com a coragem dos que se sentem sós, pedaço a pedaço, as imagens perdidas, retocando sempre que podermos o ilusório acumulado outrora com a consciência, exacta como um bisturi, de que nem sempre os sapos trazem príncipes dentro.

 

Imagem - Dina Goldstein

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A Gaffe laureola

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.19

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Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo dos espelhos, para sulcar no curvar do corpo, Daphne, a mais pequena folha do loureiro.

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Fotografia - Gerardo Vizmanos 

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A Gaffe anti-inflamatória

rabiscado pela Gaffe, em 01.07.19

Ricardo

Prolongo a noite até meio da manhã, à espera que nada me desperte, que nada me empurre para o exterior insuportável, cheio de corpos que ocupam o espaço que queria para mim. Ultimamente tenho acordado com a sensação de ter lancetado um nojento tumor, correndo o risco de ser contaminada pela sua espirrante matéria putrefacta.

 

Hoje decidi não cumprimentar ninguém. Vou fazer com que as pessoas fiquem paradas e patetas sustentando atabalhoadas os sorrisos celibatários.

Não é por maldade. Na maior parte das vezes nem sequer vejo aqueles que estancam, bem na minha frente, escancarando a boca, em esgares de errada simpatia. É apenas uma atitude analgésica. Começo a ver a mediocridade dos dias como matéria presa em caixotes grosseiros. Desejo apenas que haja embarque. A sensatez impede que uma embalagem ria ou dê os bons-dias a uma outra que passe e eu sou, como eles dizem - com as mãos no fogo -, tão bem embrulhada ...

 

Ouço o rapagão a cantar no chuveiro. Entro também, já desperta e domada, a arrastar a frustração dos bichos impedidos de roer a própria vida nos covis da noite.

Pelo menos aqui, debaixo da água, há sempre qualquer coisa que não me canso de cumprimentar.

 

Não há nada medíocre em dividir o chuveiro com alguém que goste de ensaboar o corpo da partilha. Embora, diga-se em abono da verdade, sempre tenha considerado perigosas as superfícies escorregadias do ambiente esmaltado, não resisto à molhada sensação de ter um sabonete a deslizar no corpo, unido ao tépido contacto de dedos a borbulhar espuma.

Há muito poucas coisas que me agradem tanto como saber do fácil que é escorregar no banho, mesmo sabendo que me posso agarrar a mais do que à torneira, e arriscar teimosa um belo bailado muito à Gene Kelly.

 

Não é por maldade. É apenas um Brufen. 

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Gavetas:

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Por força maior, os V. comentários podem ficar sem resposta imediata. Grata pela Vossa presença.


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