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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe quieta

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.19

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O primeiro nevoeiro entrançado nas rendas dos ramos das árvores, azula o amanhecer. As folhas movem-se no colo do primeiro vento. O som das folhas é como o bater das asas dos anjos de encontro às grades da eternidade, ou como a descida dos vermes ao útero da terra.

O berro do pavão estilhaça o vidro da água. Um peixe torce o rumo do silêncio. As pedras respiram as horas demoradas de dourado e o azevinho move os dedos recortados numa agonia de súplica, verde escura, como um grito.

Os homens vão chegando para pisar as uvas. De bocas nuas, chegam cobertos de azul maduro. Calados. Trazem pão nos olhos. Vinho aos pés. Migalhas de palavras. Toalhas de tristeza.

O tempo no lagar escorre.

Fecundada pelas primeiras mortes, a terra estanca.

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Gavetas:

A Gaffe escreve a Greta Thundberg

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.19

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Queridíssima Thundberg,

Deixe que a trate assim, pois que temo não conseguir travar a minha vontade de contratar meia dúzia de rufias para desflorestar – ou desflorar, tanto faz - os imbecis que continuam a achar piada aos trocadilhos tugas que continuam a fazer com o seu primeiro nome. Nem toda a gente se pode chamar Vanessa Raquel, ou Maria Benedita, credo!

Depois, minha cara, permita que lhe diga das boas.

A menina devia evitar perturbar as famílias que se preocupam com a educação dos miúdos. Faltar às aulas por causa das couves é meio caminho andado para o colapso das civilizações e as couves vão morrer na mesma, acredite. É uma indecência ver pais desesperados a tentar que os seus petizes cumpram as suas obrigações e tirem as notas exigidas por Medicina e ver todo um trabalho ir por água abaixo por causa das suas birras - espero que tenha reparado no detalhe ecológico que tive a amabilidade de usar. Observe os nossos adolescentes, minha amiga! Se querem seguir os youtubers, jogar o Mortal Kombat ou fumar qualquer coisita num conserto da banda dos rufias anteriores, ou do Valete, não precisam, de todo, de abandonar os TPC. Avisam aos pais por SMS que bazam a Português porque valores mais altos se alevantam, 'tá-se bué. Vai ver que os senhores até agradecem que os deixem em paz e com tempo para a achincalharem. Depois chamam os pequenos para jantar.

É também evidente que não pode ser malcriada nas Assembleias! A ONU ou o Parlamento Europeu estão pejados de pessoas de boas famílias, apoiadas por outras Famílias que, não estando presentes - pois que escolhem lugares de maiores sombrinhas -, se fazem representar discretamente e com uma eficácia que a menina dizem não ter.

Merecia duas chapadonas do Guterres, mas infelizmente o homem está em tratamento nas Termas, enfiado naquelas pocinhas onde há peixes que comem a porcaria que as pessoas que se afundam num pântano têm nos pés. Um nojo. Não compreendo como há quem defenda estes animais.

Há depois aquele seu problema de saúde e com a saúde não se brinca. Com ela e com o penteado. O allure urbano-Heidi que teima em manter é prova de alguma debilidade e instabilidade mental. Os adolescentes saudáveis, minha menina, usam slim jeans rasgados nos joelhos, risca no cabelo feita com navalha, T-shirts com slogans revolucionários, do tipo fuck, shit is my live ou it’s not me, it’s you  - daí o belíssimo inglês que falam - e acho que levantam o mindinho e o polegar, abanando o resto para cima e para baixo, quando querem comunicar com os amigos ... ou, pelo menos, um ar de Nuno Melo.

Devo dizer-lhe que não é necessário que ataquem as suas causas com argumentos entendíveis e atendíveis. Basta a menina não aparecer em público nas condições que são exigidas pelas boas famílias que parte do trabalhinho fica feito. Não interessa nada que só esse ataque - o ataque que a visa, a si, apenas a si, e não às causas que defende -, prove que a menina tem uma razão inabalavel. 

Previno-a, no entanto, que basta que seja chicoteado um prevaricador em público para que as multidões se acanhem apavoradas com a possibilidade de serem também batidas em seguida. Este medo, agora, às vezes dobra se o silvo do chicote se fizer ouvir no facebook.

Penso ter dito tudo o que me ocorreu. 

Não fico para o chá, pois que tenho o veleiro pronto a zarpar, movido pelo vento e suponho que por aquelas coisas fálicas com pás na ponta, que parecem moinhos magrinhos e receio que iguais aos que a menina defende - uma pena não conhecer Cervantes. Parto pois de pandas velas de algodão egípcio fabricadas pelos miúdos lá longe, ainda mais novos que a menina, que por acaso também não vão à escola e a quem nem sequer nascem os sonhos, não sabemos porquê, pois que deixamos de ter causas. Anote que vou de vela! Não sou como a bastonária da Ordem dos Enfermeiros que apresentou uma conta de dez mil euros em combustível no mês de Setembro. É evidente que a senhora - é só fazer as contas, não é preciso ser Secretário-Geral da ONU! - percorreu cerca de 400 Km todos os dias do mês - não apenas nos difíceis, em que só nos apetece desatar a guiar até à Cochinchina -, provavelmente para visitar cada um dos enfermeiros precários da região que lhe fica mais à mão. Uma poluente, como se vê, e ainda por cima com penas de aves esfoladas nas orelhas.

Está a ver?!

Desviar toda a nossa atenção para casos destes, ainda mais relacionados com a saúde do muito próximo, mais assim caseiro, muito bastonária, sai muito mais em conta e nem aquece, nem arrefece, quem a elegeu.

É isso e a carne de vaca nas cantinas, ou a testosterona do giraço. Também serve - e parece tudo o mesmo hamburguer. 

Vá por mim! Faça como eu, gaste tudo em álcool  e deixe tudo arder.

 

Ilustração - Afarin Sajedi       

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A Gaffe num encontro

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

Vou ao encontro da minha irmã.


Preparo-me para atravessar a rua no lugar onde ela é mais estreita e mais segura. Olho e vejo a mulher distraída, de olhos tapados por óculos de sol quadrados e grandes, um pouco vintage, um pouco da Onassis, a tamborilar com os dedos na mesa do café antigo.

 

Dentro dos vidros, a minha irmã espera. Não se vê observada e por isso não ergue defesas. Tem um cotovelo pousado no tampo de vidro da mesa e o queixo apoiado nas costas da mão. O tronco inclinado de forma ligeira e o pescoço nu, magro e demasiado alto, sem nada que o esconda parece surgir da gola redonda do vestido azul como esguia espada ou torre ou haste de uma flor estranha.


Quantos vidros terei de partir para lhe chegar?
Quantos vidros somos, antes de chegarmos?


No reflexo, a mulher despe os olhos e repara em mim.  

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Gavetas:

A Gaffe queirosianamente fácil

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Deparo-me, nas minhas andanças por diferentes Avenidas, com verdadeiras jóias, inesperadas, mas perfeitamente aceitáveis tendo em conta os contextos e as épocas em que foram ditas ou escritas.
Fornecem pequenas - contudo brilhantes - informações acerca, por exemplo, de como era encarada quer a narrativa para a infância, quer os seus produtores.

Tomemos, retirando à toa, uma das Cartas de Inglaterra de Eça de Queirós onde é louvada a literatura infantil inglesa e aconselhada a adopção iluminada deste tipo de narrativa fácil.
Ouçamos:

(...) eu tenho a certeza que uma tal literatura infantil penetraria facilmente nos nossos costumes domésticos e teria uma venda proveitosa. Muitas senhoras inteligentes e pobres se poderiam empregar em escrever estas fáceis histórias (...)

 

É natural que senhoras inteligentes e pobres não possam pela certa ser convidadas a escrever O Crime do Padre Amaro ou O Primo Basílio, cujas narrativas não são, de todo, fáceis - embora exijam produtor inteligente. É também curioso verificar que, aparentemente, a razão que origina a recomendação desta actividade seja a pobreza de quem é reconhecidamente inteligente, assim como o desejo manifesto de que esta literatura infantil esteja presente entre os nossos costumes domésticos.

Apesar do aceitável mau grado com que lemos estes anacronismos, somos obrigados a reconhecer que, também aqui, Eça é um iluminista. Ao pretender reformar os costumes, reconhece e considera que a literatura infantil serve essa reforma, não se esgotando nela evidentemente.
 
Mas não deixa de ser interessante este olhar queirosiano sobre o que na época se poderia apelidar a Literatura do sotão.
 
E não deixa de ser pertinente verificar que hoje o leque de quem escreve estas histórias fáceis se abriu imenso, incluindo também gente muito pouco inteligente e de todas as posses e poses.
 
Ilustração - Edouard John Mentha

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A Gaffe de novo a pedalar

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.19

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Este rabisco todo feliz completa esta elegantíssima bicicleta.

Por muito que fosse esse o seu desejo, a Gaffe não vai publicar a fotografia certa, por razões óbvias:

- Este rabisco - embora merecesse -, não pertence à gaveta do Animatógrafo. Neste caso, minhas meninas, temos de ser muito brasileiras e considerar que o hómi d’ámiga, pá eu é mulhé.   

- A Gaffe esqueceu-se de pedir autorização ao Rui e, apressadinha, não consegue esperar que o processo se conclua nas devidas condições.

 

Por isso, meus amores, é bom que pedalem até aqui, porque uma surpresa agradabilíssima fez com que o dia já valesse a pena.

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A Gaffe de Dautremer

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

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É impossível seleccionar ilustrações de Rébecca Dautremer sem deixar pelo caminho traços de inacreditável poesia.

 

O traço quase imaterial com que é contada a história; a suavidade com que são usadas as cores, mesmas as mais dramáticas; a maravilhosa recriação de ambientes e de cenários; a atenção aos detalhes que são tratados como elementos primordiais nos universos criados; a líquida palavra desenhada; a fragilidade diáfana do movimentos das figuras; a interferência de elementos chegados de outras fantasias; o cuidado com as palavras escolhidas e o modo como são manipuladas as formas rumo à harmonia, fazem de Rébecca Dautremer uma das mais encantatória ilustradoras/autoras para a infância da actualidade, envolvendo os adultos que se deixam inevitavelmente deslumbrar pelo encantamento das obras-primas.

Todas as suas construções pertencem à estante da magia.

Ver mais )

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Gavetas:

A Gaffe do príncipe encantado

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.19

Fernando Vicente.jpgDe acordo com a perplexidade masculina, as mulheres apaixonam-se por um homem exactamente como ele é, por ele ser como é, e num instante desatam a querer modificá-lo.

 

Esta característica para além de fazer parte do nosso encanto, pertence, aos olhos do macho, ao insondável mistério da alma feminina, embora seja constrangedoramente fácil de explicar.

 

A culpa não está nas estrelas, mas próxima delas.

 

Somos todas herdeiras das aristocratas dos contos de fadas. Desde o princípio que convivemos com Princesas encantadas e desde o início que as sublimamos. Temos os genes desta nobreza encantatória que nos são transmitidos pelas narrativas da infância e somos portadoras, mais ou menos conscientes, de um imaginário palaciano em que nos movemos ao som diáfano de histórias antigas de dragões e cavaleiros.

 

Esta miscelânea de coroas encantadas de que somos feitas torna-nos capazes de acordar como a sofisticada e fria - muito Grace Kelly -, Princesa Aurora para logo a seguir, tornarmo-nos a dona de casa suburbana vivida por Branca de Neve, passando nos intervalos pela sopeira consumista que sonha desalmadamente com sapatos, não descurando encarnar, caso for necessário, Maléfica ou mesmo a Bruxa Má, cujos únicos erros são desconhecer por completo Yves-Saint-Laurent e não tratar da pele.

 

Este largo número de Princesas que somos em simultâneo contrasta com a simplicidade dos Príncipes que connosco contracenam.

 

Ao contrário dos homens que, pese embora o dito e redito, são todos diferentes - não valia a pena traí-los se fossem todos iguais -, os Príncipes encantados são idênticos. Uma pobreza que nos leva a acreditar que o rapagão que lambuza o sono de Aurora é exactamente o mesmo que nos revela o maroto fetiche por sapatos.

 

Conhecemos de cor as suas funções e reconhecemos as suas capacidades militares, mas, convenhamos, Branca de Neve pede um Príncipe caseirinho e paciente, disposto a adoptar os sete pequeninos, enquanto Aurora exige a sofisticação palaciana de um Príncipe diplomata e bailarino e Cinderela merece um fashion victim ligeiramente masoquista.

 

A uniformidade principesca é uma maçada.

 

As várias Princesas encantadas que somos - ao mesmo tempo - não deixam nunca de sonhar ver surgir o seu amado irreal e, em consequência, adaptam o real cavaleiro que as encontrou, tentando moldar o barro que lhe chega às mãos sem nunca deixar de amar as formas incompletas com que iniciam a tarefa.

 

Rapazes, tentar modificar-vos é altamente lisonjeiro! Resulta da certeza de termos encontrado um Príncipe diferente e da vontade imensa de o vermos perfeito exactamente como sabemos que sóis ou podeis ser para cada uma das nossas Infantas encantadas.

 

Não dói se aprenderdes a sempre olhar para nós como Princesas.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe numa cantiga de Amigo

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.19

Lembro-me das tardes penduradas nos ramos como arrecadas nas orelhas das mulheres.


Chegávamos no Verão e ficávamos sentados nas pedras que nos entardeciam.

Trazias a camisa sempre suja, aberta pelo pássaro da cal do sol e as calças rasgadas no joelho e sangue de cerejas e da manhã de amoras. As tuas botas gemiam no soalho ferido pelos rastos e riscos que lhe abrias e o aroma que chegava rugindo nas tílias era tornado brando pelo teu suor.

Cansávamo-nos e queríamos despir-nos e deixarmos de ser gente. Queríamos ser vento e vinho e sono nos olhos. Queríamos ser velhos como o rosto do anjo de pedra no centro do lago.
Trazias na cara o o cheiro do trigo seco ou da semente inútil na ausência do ninho. Na boca o olhar que vem nas pupilas dos pombos e nos olhos das maçãs que escaldam de cansadas.

 

As minhas mãos sem as tuas eram trapos quebrados, poeira e terra seca.

 

Às vezes uma libélula azul como os profetas pousava-te no braço. Deixavas de respirar para que não fugisse.


Sentava-me longe de ti que escrevias e procurava não te perturbar.

Ficavas vergado sobre os papéis em desordem e conseguia seguir-te o perfil definido e quase agudo.

A luz era quase flamenga. Quase Caravaggio ou talvez Vermeer, que a luz nunca permite ser entregue a alguém.

Via a planura da tua testa larga e ampla, o nariz que de tão recto é já perfeito, os dedos que por vezes tamborilavam no tampo em mogno da mesa onde se espalhava o branco dos papéis que ias riscando.

 

(A barba agora invade tudo, como trepadeira ou de grade ou pedaços de setas mortas nas batalhas dos desertos. Já não tens olhos. Tens barba e dentro da barba duas luzes vivas, rasas, que estremecem quando as aves escaldam o silêncio com o bico aberto e grito estilhaçado.)

 

Sorrias ao ver-me a ver-te.

Depois retornavas à ausência, quase um corpo.

Parecias um gigante. Ainda mais gigante que na véspera.

Erguias o olhar. Desviavas e inclinavas a cabeça. Esquivavas-te na penumbra.

Então eu via na fuga lenta desse olhar que me espantava, a forma das pestanas. A alargada tristeza presa nelas. Compactas e negras, demoradas, longas, adensavam as sombras e quase escureciam tudo o que em redor tinha uma luz.

Quase um abismo. Quase corvos. Quase infâmia. Afrontavam a luz, a quase luz, e nos papéis dispersos deixavam as sombras que eram já palavras.

 

Às vezes quase lia. Quase entendia.  

 

Pousava a minha cabeça no teu colo e deixava-me a chorar sem ter motivo, que o teu coração tinha-o no peito trocado pelo meu, na tua mão, e não havia perigo. A tua mão sossegava o meu cabelo. A tua mão aquietava a luz que vinha nervosa por entre as rendas das cortinas. A tua mão sossegava a minha vida inteira.

Inclinavas-te para mim. Dizias-me em murmúrio que na vida apenas valem os instantes e que Morte e Amor são coisas bem pequenas.

 

Crescemos sem o tempo passar no trilho das formigas e na fuga das rolas.

A tua proximidade faz-me falta. Sou melhor do que eu quando estás por perto.  

 

Procuro na memória o som daquelas tardes e de repente sei que não há nada, porque dizer um fado é como não ter braços.

 

Os homens incontornáveis são os que lembram paisagens. Ouvimos o indizível.

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Gavetas:

A Gaffe com desodorizante

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.19

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A Gaffe debicava o seu iogurte, como a linda Inês posta em sossego, saltitando ao mesmo tempo de canal em canal, comando em riste e em equilíbrio, quando foi surpreendida pela publicidade a um desodorizante masculino.

 

Pensou perplexa que o que vislumbrou talvez tivesse sido impressão dela.

 

Voltou ao iogurte.

O anúncio regressou passados instantes.

O rapaz em excelente forma física tinha sido substituído por um da mesma espécie - como não podia deixar de ser, tendo em conta que fazer surgir Marques Mendes em todo o seu esplendor, de tronco nu, seria contraproducente - e o cenário divergia.

O rapazola borrifa o desodorizante nas axilas. Esquerda, direita. Esquerda, direita. Tudo muito aventureiro.

O que aconteceu em seguida é que fez o iogurte estancar de pasmo.

O rapaz, ZÁS!, borrifa desodorizante a sul do umbigo. O anterior tinha feito o mesmo.

 

A Gaffe esbugalhou os olhos.

 

Rapazes! NÃO borrifem desodorizante em locais onde apenas deve ser usado, com muita insistência, o gel do vosso banhinho diário. As axilas estão perfeitamente adaptadas ao uso de produtos desta gama. O resto, não!

O que pode pensar uma rapariga esperta quando lhe chega ao nariz o ainda que apagado aroma, assim deslocalizado, das vossas axilas a não ser que distraída confundiu geografias ou que deve estar muito mal posicionada?!

 

Credo! Aquilo não vos arde ali espargido?! 

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A Gaffe radical

rabiscado pela Gaffe, em 20.09.19

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Após pesquisa, com carácter científico, como não podia deixar de ser, conclui que os blogues dedicados a rapazinhos nus ou quase nus, todos em excelente forma física, proliferam como moscas no Verão ou pulgões na praia. 
Aquilo é só clicar que nos aparecem biliões deles com fotos para todos os gostos e feitios.

 

Também os há com meninas - não sei como, mas neste contexto a palavra meninas não soa muito bem - que nos fazem desejar ser todas lésbicas, mas confesso que sou muito mais exigente em relação aos dos rapazes.  


A verdade é que se começa a ter uma certa dificuldade em eleger as melhores fotos. Isto porque os meninos e as meninas aparecem em poses que deixam muito a desejar ou arranjam cara de se me apanhares, levas-me para onde quiseres que eu deixo ou posições de eu sou bom como milho – ou boa, dependendo do cereal - e tu não vales uma baga de gogi ao meu lado ou ainda, e estes são mais vulgares, ai que acordei e tenho o rabinho ao léu. Depois há os títulos que são do melhor: Vermelhas em carne-viva; Marinheiros escaldantesDuas estrelas e um sonhoOs bravos do "pilotão" ou ainda Para acordar no paraíso.


Confesso que ainda procurei uma imagem que me agradasse para a colocar aqui e dar um ar gaiato a esta depravação, mas depressa desisti.

 

Ninguém tem paciência para aquilo!

Aquela gente não anda na rua. Nunca me passou pela frente um homem a puxar as calças de modo a que se lhe veja a indumentária mais íntima ou o tridente de Neptuno e nunca encontrei no metro uma rapariga com a barriga para dentro, colada à coluna, maminhas e rabo para fora, agarrada ao varão, embora no metro já tenho visto de tudo.

 

É desolador.

 

O mais próximo que estive dum modelo daqueles foi na semana de moda em Paris, quando um matulão, com um ar de italiano que quase me fez tinir o cérebro, se abeirou de mim todo sorridente para me perguntar se sabia onde se podiam comprar maçãs. Eu saber, até sabia, mas aquilo era fruta a mais para os meus dentes. Engasguei-me toda e encolhi os ombros como quem não faz ideia do que o bonitão queria.

Tão idiota que eu fui!

Se não me tivesse apanhado de surpresa, com dois sacos de plástico cheios de pacotes de arroz, massa, farinha e uma garrafa de azeite, dizia-lhe facilmente onde estava a fruta.  

 

Voltando ao assunto, que tristezas não nos pagam o gás.

Da minha investigação resulta um facto: estes mocetões e estas mocetonas estão ali, de rabo ao léu e cara de carneiro que vai ser imolado e já está bêbado para não sentir, só para nos humilhar. Não pode ser outra coisa. Então aqueles frascos existem e nós temos apenas as amostras, ainda por cima sem aquelas tampinhas?! Então aquela gente anda por aí e nós só temos direito a um algodão sem graça nenhuma e que nem sequer é egípcio - exótico, vá?! 

Mas acima de tudo: então eles e elas estão ali, lindos de morrer e sãos como pêros, e nós passamos olheirentas, com a borbulha a cintilar e o pêlo encravado, sem hipótese nenhuma de nos sentirmos sensuais mesmo de peluche enfiado no decote ou tacões agulha cravados nos paralelos?! 


Que se danem todos.

Decidi hoje não publicar uma foto de gente que até de cuecas ronhosas é humilhante para o populacho.

 

Nestas coisas sou uma rapariga de esquerda radical: ou come tudo ou ficamos por aqui.

 

Actualização - Especialmente para a Sarin. Depois de nos digladiarmos com os floretes dos comentários, uma espada antiga e rara – já com 56 anos! – que todas gostaríamos de empunhar.... 

 

 

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A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Quando era criança, há muito pouco tempo, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro.

Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o vertiginoso abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles atracção.  


Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  


Tem o cabelo tratado por um cabeleireiro das estrelas, loiro, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas lisas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos poços de lâminas abertas. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto, muto alto pois que  

- saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  


Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  


Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho pequeno e terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue, frágil como eu, e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. As certezas tinham asas e às vezes coração. Agora sou igual a toda a gente.

 

Ilustração - Olga Esther

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A Gaffe universitária

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Amílcar Falcão, excelso reitor da Universidade de Coimbra, proibiu os pratos com carne de vaca em catorze cantinas estudantis.

Dizem que António Costa anunciou a retirada da carne de porco nas acções de campanha do seu partido e de qualquer tipo de carne nas ementas da presidência do Conselho de Ministros.

 

É um ruminante descalabro!

 

Anulando-se da ementa o steak tartare, o bife Wellington, o lombo com molho teriyaki, o contrafilé no forno com chimichurri, as tirinhas de carne com molho shoyu e o filé mignon com molho de gengibre que, entre tantas outras iguarias, construíram o nome destes santuários groumet ao longo do cursar do tempo, perdem-se, de forma absolutamente tonta e à toa, as estrelas Michelin que ostentavam as messes coimbrãs.

Os políticos sempre comeram brioches et ils mangeront les pauvres, comme d´'habitude.  

 

Mas a Gaffe recusa-se a falar de comida - e de rebentos de soja ministerial -, não vá parecer uma empregada populista e mal informada. 

 

Ilustração - Denis Zilber 

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A Gaffe estupefacta

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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As plataformas onde se alojam blogues não comunicam entre si, ou seja, uma determinada acção com origem no Blogspot, por exemplo, que se reporte a uma situação específica na Wordpress ou Sapo, não tem eco nas plataformas visadas e o caso é ignorado pelos destinos ou destinatários.

Foi o que aconteceu.

Apenas agora - e porque só agora o soube -,  dou comigo com uma gigantesca estrela pousada em mim que patinava, que esquiava, que me tentava equilibrar no piso escorregadio destas Avenidas.

Sinto-me absolutamente deslumbrada, orgulhosa, vaidosa e um bocadinho atarantada, porque mereci a simpatia de um dos raríssimos cavalheiros, de um dos grandes cavaleiros, da Literatura Portuguesa de todo o sempre.

Rentes de Carvalho teve a imensa generosidade de me considerar uma excelente surpresa.

E bastava-me um sorriso.

Valham-me todos os deuses! Eu tenho mesmo aqui ao lado as extraordinárias obras deste sábio e tanta vergonha de descobrir que estou nestes preparos!

Sinto-me tão recompensada!   

Muito obrigada.

 

Ilustração - Denis Zilber

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A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

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Tenho as mãos feias.

Sempre tive consciência do tamanho das minhas mãos. Dos ossos demasiado longos, finos, dos dedos com nós salientes, da fealdade dos seus movimentos deselegantes, da impossibilidade de as adornar.

Escondia as minhas mãos, era criança. Matava-as nos bolsos dos bibes e das batas e dos casacos ou mantinha-as muito fechadas de forma a que aqueles bichos não ocupassem o espaço dos outros.

As minhas mãos envergonhavam-me.

Comparava-as com a lisura, com a harmonia, com os diáfanos voos e com a perfeita forma das mãos da minha irmã e sentia-me bruta e torpe e grosseira.

Permitiram, os dois bichos, entregar alternativas aos meninos da escolinha. Era o fósforo ou a mãos-de-tesoura. Nunca entendi qual o que cortava primeiro, nunca soube se era o aço a cortar o fogo ou se era o contrário. Nunca gostei do jogo.

O meu avô gostava das minhas mãos.

 

-  São como as grades do portão. Fecham o que quiseres dentro de ti.

 

As minhas mãos tornaram-se ágeis de tão feias. Aprenderam a escapar, a desaparecer, a espreitar, a surripiar silêncios e a mover com uma perícia e rapidez inusitada minúsculos objectos, detalhes, pormenores e nadas que, em mãos diferentes e perfeitas, se partiam no tempo da tarefa.

Guardava dentro delas os meus mundos. 

Assim aconteceu.

 

Tenho as mãos feias, mas é Outono.

Os dedos das árvores são medonhos, mas são meus.  

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A Gaffe telegráfica

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.19

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- Não, meu caro, do sítio onde estou não lhe posso mandar um fax.

- Ah! ... ... mas está onde?

- No século XXI.

Mana

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