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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com gente dentro

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.19

Gente dentro

 

Pé ante pé, percorremos distraídos estes pedacinhos com gente dentro.

Recebemos às vezes, de repente, a surpresa de nos encontrarmos perante dimensões que escapam ao espaço restrito destes recantos e nos mostram que há aqui dentro, habitando blogues, pessoas que acabam por se dar através deles, muitas vezes de forma maior, bem divertida, bem bonita, bem-disposta, a quem do outro lado é apenas capaz de esvoaçar sobre as palavras, como se não tivesse um blogue dentro.

 

Não é confuso. As frases, retorço-as eu, que tenho dentro apenas um acervo de patetices que transformo em sentenças. Não faço ideia se sou gente com um blogue dentro, se sou apenas um blogue com gente dentro, mas que não vale a pena, ou se, por fim, sou apenas gente sem palavras com sentido dentro.

Sei, isso sim, que aqui dentro há gente com gente dentro, que de um momento para o outro nos consegue oferecer a possibilidade de se reconhecer que não existe apenas o que está lá fora e que aqui, ou aqui, no meio das palavras, se consegue ver sorrir, se consegue abraçar, se consegue ser com blogues dentro.   

É bem possível que para ilustrar o slogan que encabeça estes espaços – blogs com gente dentro – tenhamos de recorrer a minha maravilhosa Magda, ao David e a toda a estupenda equipa que foram cultivando.

 

Magda, minha querida, tu és tão gente em todo o lado!

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A Gaffe macaca

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.19

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Tanto enchi o peito de paisagens que receio ter rasgado o macacão, no rabo.

 

Não sou de todo uma acérrima fã das maravilhas que fazem com que fiquemos embasbacados durante imenso tempo, mirando a queda de água, o precipício, as vaquinhas pastando idílicos verdes, os castelos apodrecidos de cinzentos fantasmas e todas as outras maravilhas com que abastecemos os olhos da alma de sossego e retificamos o stock de deslumbre.

Consigo, com algum esforço, pasmar durante cinco minutos, mas exigir a uma rapariga hiperactiva um maior período zen, um mais alargado tempo de recolhimento paisagístico, é tarefa inglória que apenas provoca irritações desnecessárias e uma visão menos calma do horizonte.

 

Depois, na Irlanda, a paisagem rural, o muito longe possível das grandes metrópoles - o que penei para ter a possibilidade de escrever grandes metrópoles, dava todo um romance de viagens! -, está repleta de cocó dos bichos. Caminhamos rumo ao horizonte verdejante e chegamos a um pub qualquer a meio do caminho, a cheirar a podre e com os sapatos forrados a estrume.

 

Em consequência, quietinha observo as pessoas.

 

Os irlandeses são casmurros e muito ciosos da sua identidade. É gente que edificou em redor da sua mundovisão uma fortaleza intransponível que abrange, por exemplo, o modo como encara a suspensão da Democracia decretada por Boris Johnson - inspirado em Manuela Ferreira Leite -, ou o aparente reacender, nos seus territórios, de velhos conflitos armados, pouco tempo após o referendo que deu o sim ao Brexit. Não é assunto nosso. Dir-se-ia não ser também assunto europeu. Indignam-se, insurgem-se e insultam  Boris Johnson - que não é de todo comparável a Trump, pois que reconhece a diferença entre Reino Unido e Inglaterra -, mas não permitem que o nosso narizito se introduza nestes solavancos inesperados e, secretamente, vão mitigando a dor de ter de reconhecer Sua Majestade como um jarrão periclitante e inútil no centro do jardim, que se sustenta e enche por hábito, admitindo em segredo que seria mais bonito Sua Alteza ter virado costas e anunciado que se encontrava de diarreia, fechado no real WC de férias, evitando ter de proclamar o tradicional I agree ao que, pelo menos em teoria, poderia ter sido negado.

 

Até mesmo a empatada May teria torcido melhor o nariz a esta badana cretina.

   

Este antes quebrar que mostrar rachado, está contido, contudo, num invólucro que sempre me agradou, pecaminosamente.

Os irlandeses que escaparam à uniformização das grandes cidades - que os deslavam, esbranquiçam e amolecem -, são homens absolutamente poderosos.

São gigantescos!

 

Lembro-me de ter ido a um multibanco perdido no espaço. Atravessei a rua de macacão de linho largo e imbecil, de alcinhas parvas e bolsinho de chapa no peitilho, com um rasgão no rabo e chinelinhos tenebrosos que tinha encontrado Deus saberá onde.

Ai, que não faz mal que ninguém vai ver.   

Descurei de forma macaca uma das mais sábias recomendações da minha avó - nunca venha como está. Chegue melhor -, e paguei este descuido quando, na minha frente, apanho com os ombros de embondeiro de um irlandês de rabiosque escultural que se virou para mim a sorrir. Um sorriso dentro de uma barba loira que lhe emoldurava a boca carnuda que desafiava os olhos azulados a desenhar um sorriso idêntico.

Corei, com a consciência aguda do esfiapado torpe no rabo do overall - estamos muito ambientadas - e dos malditos chinelos com uma estúpida tira solta e a dar-a-dar e tentei a manobra dar de frosques quanto o homem voltava a sua atenção para a maquineta. Viro-me e enfio o nariz nos peitorais de outro irlandês barbudo e de se morrer logo ali de tão lindo, que sorria da mesma forma devastadora, suspeito que para a memória do rasgão no rabo do macacão que tinha estado sob o seu escrutínio.

 

Não é fácil ou banal uma rapariga ficar presa no meio de dois potentados lidíssimos num tão curto espaço e num tão diminuto tempo! Não acontece com frequência - a não ser se formos óptimas taradas muito curiosas, mas nesse caso, cada um é como é e ninguém tem nada com isso, benzam-nos a todos os deuses irlandeses.    

 

Este percalço - que acabou comigo numa corrida humilhante com uma mão no rabo – provou que a minha aversão à famigerada treta do Se eu não gostar de mim, quem gostará? é sem sombra de dúvida acertada e a manter asséptica e acesa. Há que a substituir com urgência por Se eu não gostar de mim, haja quem goste.

Evitaremos desta forma simples muitas necroses.  

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