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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem asas

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Quando era criança, há muito pouco tempo, tinha a certeza que a inteligência encarnava nos corpos que escolhia à toa, transformando-os numa espécie de anjos com asas dentro.

Não acreditava que os que tocavam a genialidade, ainda que de forma imponderável e etérea, tivessem corpo físico sujeito às exigências mais violentas da carne. Eram insuspeitos, impolutos, intocáveis, isentos de terra e de lama, envoltos em poeira de conto medieval com a consistência do ferro de armadura e até o vertiginoso abismo que se abre de súbito quando um corpo nu e desejado se torna bracelete, anel, colar no nosso corpo, não despertava neles atracção.  


Assexuava-os, divinizando-os.  
Não lhes negava o corpo, mas via asas dentro, longe de mim, que era um terreno bicho, verme, insecto a mirar estrelas.

 
Agora espio a minha irmã.  


Tem o cabelo tratado por um cabeleireiro das estrelas, loiro, quase em demasia. Reflecte a luz, como se fossem penas duma ave ao sol as madeixas lisas sobrepostas. Os olhos pardos, descobertos poços de lâminas abertas. A boca desenhada a prumo, obediente às regras do perfeito. O corpo esguio, flexível, modulado, alto, muto alto pois que  

- saiu ao pai! -  dizem os homens curtos, habituados a resumos dentro.  


Está atenta ao que lê, de sobrancelhas erguidas, escarninhas. Os dedos longos nas páginas são corta-papel e o baloiço do pé faz compassar o tempo.  


Detém todo o poder que lhe foi dado como se houvesse memória de batalhas naquilo que decide e a inteligência à flor da pele veste-a melhor do que Dior faria. Fica-lhe bem, como um perfume fiel há tanto tempo que deixa de se fazer sentir a quem o usa. 


Olho a minha irmã como o bicho pequeno e terreno que segue o rasto dos cometas, mas sei que a mulher que espreito do chão da minha lura, é ténue, frágil como eu, e não tem asas.  


Longe, há pouco tempo ainda, era criança. As certezas tinham asas e às vezes coração. Agora sou igual a toda a gente.

 

Ilustração - Olga Esther

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A Gaffe universitária

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.19

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Amílcar Falcão, excelso reitor da Universidade de Coimbra, proibiu os pratos com carne de vaca em catorze cantinas estudantis.

Dizem que António Costa anunciou a retirada da carne de porco nas acções de campanha do seu partido e de qualquer tipo de carne nas ementas da presidência do Conselho de Ministros.

 

É um ruminante descalabro!

 

Anulando-se da ementa o steak tartare, o bife Wellington, o lombo com molho teriyaki, o contrafilé no forno com chimichurri, as tirinhas de carne com molho shoyu e o filé mignon com molho de gengibre que, entre tantas outras iguarias, construíram o nome destes santuários groumet ao longo do cursar do tempo, perdem-se, de forma absolutamente tonta e à toa, as estrelas Michelin que ostentavam as messes coimbrãs.

Os políticos sempre comeram brioches et ils mangeront les pauvres, comme d´'habitude.  

 

Mas a Gaffe recusa-se a falar de comida - e de rebentos de soja ministerial -, não vá parecer uma empregada populista e mal informada. 

 

Ilustração - Denis Zilber 

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